RAFAEL MARTINELLI

Figueira que resistiu a gigante do fast-food se aproxima do tombamento definitivo em Cachoeirinha

Um exemplar de Ficus cestrifolia (figueira-da-folha-miúda) localizado no coração de Cachoeirinha está a um passo de ser reconhecido oficialmente como patrimônio cultural, ecológico e paisagístico do município. A árvore, situada na intersecção das avenidas Papa João XXIII e Flores da Cunha, carrega um histórico de resistência comunitária e preservação ambiental.

O movimento para transformar o exemplar em bem tombado foi reativado no Poder Legislativo por meio do Projeto Indicativo 36/2026, de autoria do vereador Uilson Droppa (Podemos). A proposta solicita que o Poder Executivo, por meio da Secretaria Municipal da Cultura, Esporte e Lazer, instaure o processo administrativo de tombamento com base na Lei Municipal nº 2.107/2002.

Por se tratar de um projeto indicativo, a matéria não necessita de votação em plenário, conforme o regimento interno da Câmara de Vereadores. O documento já foi encaminhado para a prefeita. Apurações do Seguinte: indicam que Jussara Caçapava deve acolher a sugestão e dar início aos trâmites de preservação.

A relação da comunidade local com a figueira ganhou apelo popular em 2016, durante o processo de instalação de uma unidade da rede de fast-food Burger King no local. Na época, o projeto da multinacional previa o transplante do vegetal para outra área.

A proposta enfrentou resistência imediata. Após uma liberação prévia da Secretaria do Planejamento, o setor de licenciamento ambiental da Prefeitura negou a autorização para a remoção da árvore e a empresa insistiu na alteração do espaço. Um consultor técnico da multinacional chegou a desembarcar no Aeroporto Salgado Filho para negociar pessoalmente com o proprietário do terreno. O dono do imóvel, contudo, condicionou a venda à revisão do projeto arquitetônico e à manutenção da figueira no local original.

Paralelamente, moradores, ambientalistas e a comunidade escolar da Escola Estadual Rodrigues Alves mobilizaram o Poder Legislativo. O movimento, encabeçado na ocasião pelo então vereador Marco Barbosa, garantiu a alteração final do projeto da lanchonete, preservando a árvore — mesmo que por centímetros.

Recentemente, a mobilização da sociedade recomeçou após rumores de que biólogos teriam sondado setores da prefeitura sobre a viabilidade de um novo processo de transplante.

Imagem da figueira antes de 2016, quando iniciou a polêmica do possível transplante


O que diz o parecer técnico

A fundamentação do pedido de tombamento baseia-se no Parecer Técnico nº 089/2024, elaborado pelos técnicos Nícolas Fensterseifer Weissheimer (biólogo) e Márlon Neves Rodrigues (técnico agrícola), do Setor de Licenciamento da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (SMMAS), a pedido do Conselho Municipal de Meio Ambiente (COMDEMA).

O documento aponta que o exemplar representa um “marco cênico do encontro de duas vias importantes do município” e que sua arquitetura de galhos, tronco e raízes encontra-se harmonizada à infraestrutura urbana local.

Além do aspecto visual e histórico, o parecer lista uma série de benefícios ecológicos promovidos pela árvore.

Há os serviços ecossistêmicos, com o suporte para espécies epífitas (como bromélias, orquídeas, samambaias e cactos) e abrigo/alimento para aves, insetos e morcegos, auxiliando na dispersão de sementes pela cidade.

Mais: o conforto térmico e microclima, com a redução da temperatura local, sombreamento e regulação do ciclo hídrico pela absorção e evapotranspiração.

Ainda, a questão da saúde pública e qualidade do ar, a partir da retenção de poeira e material particulado emitido por veículos, além do sequestro de carbono da atmosfera.

E, por fim, a estabilidade do solo, com a atuação das raízes na permeabilidade e estabilidade estrutural do solo urbano.

O projeto indicativo ressalta que espécies nativas do gênero Ficus já possuem imunidade ao corte em todo o Rio Grande do Sul, conforme determina a Lei Estadual nº 8.018/1985 e o Decreto Estadual nº 29.019/1979.

No entanto, o tombamento municipal complementa a legislação estadual ao conferir um reconhecimento formal da figueira como integrante do patrimônio histórico, cultural e paisagístico próprio de Cachoeirinha, garantindo proteção adicional contra tentativas de manejo, corte ou transplante.

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