RAFAEL MARTINELLI

#DasUrnas | Patrícia Alba no ‘Labirinto do General’: O sacrifício eleitoral, o isolamento do casal e o que a política perde sem a deputada de Gravataí

Patrícia Alba no início das obras da escola do Breno Garcia

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Ao abrir mão de uma reeleição possível no Parlamento gaúcho para testar o apetite federal em uma dobradinha familiar travada com Marco Alba, Patrícia Alba (MDB) entregou o pescoço no altar da aliança. O resultado é o exílio, ao menos momentâneo, dos dois — e reputo: o empobrecimento do debate sobre educação e direitos das mulheres no Estado. Explico neste artigo, com um pouco de García Márquez.

Comecemos com a ‘ideologia dos números’ e o peso do sacrifício.

São os fatos — aqueles chatos que teimam em atrapalhar argumentos. A ‘ideologia dos números’ expelida pelas urnas de outubro de 2026 desenhou um cenário devastador para o MDB dos Alba. Patrícia Alba, que em 2022 saiu das urnas festejada como a ‘Rainha de Gravataí’ com quase 30 mil votos locais e mandato garantido na Assembleia Legislativa, colheu 12.079 votos (9,26%) na aldeia para a Câmara Federal e 19.478 no Estado. Não se elegeu. Ao mesmo tempo, seu marido, o ex-prefeito Marco Alba — o ‘Pelé da Política’, que anda errando pênaltis —, amargou 12.462 votos (9,44%) na cidade e 19.594 no Rio Grande, sendo superado localmente pelo seu candidato a vice em 2024 e também oposicionista local, Thiago De Leon (PDT, 12.868 votos), e esmagado pelo rival governista Dimas Costa (PSD, 21.053 votos em Gravataí e 42.677 no RS).

Engana-se, porém, quem enxerga no movimento de Patrícia uma simples vaidade eleitoral. Como analisei em artigos anteriores no Seguinte:, a migração para a disputa federal atendia a um duplo propósito. De um lado, e nas palavras dela, era o “sonho” de uma parlamentar que construiu reputação em dois mandatos, nos quais ocupou a presidência da Comissão de Educação da AL e a Procuradoria da Mulher, articulando pautas como uma escola-modelo para a periferia de Gravataí, o novo plano nacional de ensino e o combate ao feminicídio. De outro, tratou-se de um manifesto pragmático de sobrevivência: Patrícia foi para o sacrifício para abrir espaço para Marco tentar regressar à Assembleia e, com isso, tentar manter viva a chama da hegemonia do grupo para a Prefeitura em 2028. Não deu certo — tal o grau de dificuldade desta eleição.

Vamos agora ao isolamento familiar, à ‘vingança’ de Zaffa e às emendas sem ‘cheque do milhão’.

A estratégia de trancar o jogo em uma dobradinha estritamente familiar cobra seu preço com juros de mora na Realpolitik. Ao fecharem portas para composições regionais e recusarem parcerias com outras dobradinhas na região e interior do Estado, Marco e Patrícia isolaram-se. Em 2022, o grupo acumulava mais de 75 mil votos locais. Em 2026, a soma das duas candidaturas não atingiu metade daquele teto no município. O eleitorado não vota por memória ou gratidão — este Zeitgeist, o ‘espírito do tempo’, dominado pela tirania do algoritmo e das redes antissociais, exige presença diária na tela do celular ou pragmatismo bruto nas entregas de obras.

A derrocada também tem digitais locais bem definidas: a deflagração da III Guerra Política de Gravataí após o rompimento com o prefeito Luiz Zaffalon (PSD). Zaffa, de quem Marco foi o ‘Grande Eleitor’ em 2020 antes da acusação de “traição”, operou para asfixiar os Alba. Dimas era seu candidato. E, por escolha, Patrícia não teve interlocução com a prefeitura de seu reduto eleitoral. Preferiu fracionar suas emendas parlamentares a entidades comunitárias, assistenciais e hospitais. E, aí voltemos às consequências da estratégia da dobradinha familiar, não teve a propaganda eleitoral do ‘cheque do milhão’ — aquela foto clássica de deputado estadual articulando a destinação de emenda com deputado federal para sua prefeitura.

“Peço desculpas por já ter pedido voto para quem está lá como prefeito de Gravataí”, declarou Patrícia Alba em entrevista ao Seguinte:, demarcando o abismo político que separou seu grupo da atual gestão municipal. “Tem mandato pífio”, respondeu Zaffa, que desde o rompimento sempre dedicou espaço em seus discursos a criticar a falta de ajuda do mandato de Patrícia.

Além disso, o casal pagou o preço de não integrar a base do governo Eduardo Leite (PSD) no momento em que os recursos estaduais jorravam na aldeia. Não estavam, por exemplo, na foto principal da entrega do complexo viário da ERS-118, em Gravataí.

Patrícia exerceu um mandato independente: criticou severamente a proposta de aumento do ICMS, liderou a oposição ao pedágio na ERS-118 no movimento RS 118 Sem Pedágio e votou contra a privatização da Corsan. A adesão formal ao governo Leite só ocorreu nos últimos dois anos do mandato, movida por uma causa concreta: viabilizar a construção da escola-modelo do Breno Garcia, um investimento de R$ 37,4 milhões prometido desde 2014 para o maior loteamento popular do Minha Casa, Minha Vida no Sul do país.

No entanto, enquanto Dimas Costa posava como ‘embaixador de Leite’, Patrícia não conseguiu converter o feito em algo factualmente conectado a seu mandato.

Paremos um pouco no equilíbrio na ferradura ideológica e na recusa ao oportunismo.

Numa política doente pela polarização e pela lacração das redes antissociais, Patrícia Alba construiu uma ilha de sobriedade. Sendo uma política de centro-direita, recusou-se a aderir a pautas antifeministas. O equilíbrio demonstrado na Procuradoria da Mulher da AL rendeu-lhe o respeito de opostos no espectro ideológico: foi elogiada na tribuna e em vídeo pelo deputado Leonel Radde (PT) — oitavo mais votado do Estado, com 93.787 votos — pela postura altiva com que conduziu o julgamento de falsas acusações contra ele por violência doméstica.

Patrícia chegou a ser cotada para assumir a inédita Secretaria Estadual da Mulher, apoiada por forças de ambos os lados da ferradura ideológica, mas a articulação travou no xadrez de acomodações do Piratini.

Testemunho: o oportunismo tático não habita o feitio de Patrícia. Neste segundo turno das eleições presidenciais, quando o MDB de Gravataí formalizou o apoio a Flávio Bolsonaro (PL), a decisão deu-se na lógica da oposição ao PT. Contudo, Patrícia ainda não afixou em suas redes pessoais qualquer propaganda do bolsonarismo. Fato é que, no primeiro turno, recusou-se a fazer a ‘arminha’ fácil que talvez lhe trouxesse votos em uma aldeia que nas urnas se mostrou bolsonarista.

Avanço em terreno no qual não deveria, mas é informação: Patrícia enfrentou contratempos de saúde que exigiram resguardo em períodos críticos de seu mandato — o que permitiu a percepção de uma política ausente. Nunca, porém, usou de sua condição de saúde para se vitimizar. Pelo contrário.

A agridoce solidão do exílio

Chegamos, então, ao General em Seu Labirinto e à moral da história.

Em O General em Seu Labirinto, Gabriel García Márquez narra os últimos dias de Simón Bolívar: o homem que libertou nações e sonhou com a unidade continental conclui sua saga isolado e vendo seu projeto político desmoronar diante de rivalidades maiores e menores. O labirinto não é apenas político; é existencial. Marco Alba, o ‘Grande Eleitor’ que moldou parte da Gravataí moderna, encontra-se hoje no mesmo labirinto de Bolívar — recluso, incompreendido e testando a dor de ver suas criaturas políticas avançarem sobre seu legado.

A tragédia de Simón Bolívar no romance de Márquez traz uma reflexão que serve perfeitamente ao momento de Marco e, por consequência, de Patrícia Alba: conquistar o centro da história e acumular vitórias expressivas não garante o controle sobre o resultado final da obra. A política é um museu de grandes novidades onde o aliado de hoje vira o inimigo de amanhã e a ingratidão institucional e das urnas são moeda corrente. O racha do projeto construído desde 2012 e a ascensão de novas forças hiperconectadas colocam os Alba diante do árduo aprendizado de que não se pode controlar como a história julgará seus esforços.

Ao fim, espero sinceramente que Patrícia Alba não se aposente da política. A desilusão com o eterno ‘estreitamento de inimizades’ da aldeia é um sentimento humano compreensível. Porém, com sua capacidade intelectual, consistência jurídica na advocacia eleitoral e trajetória marcada pela defesa intransigente da educação pública e dos direitos femininos, guardo Patrícia entre as personagens que considero boas para a política.

A grandeza de uma vida pública não se mede apenas pelos diplomas de posse conferidos pela Justiça Eleitoral, mas pelos ideais que se teve a coragem de defender até o fim — mesmo quando o preço a pagar é a solidão do exílio parlamentar.

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