RAFAEL MARTINELLI

Marco Alba perdeu feio, mas não está morto — e como Zaffa ainda pode ser seu ‘Grande Eleitor’ em 2028

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Há uma frase atribuída a Winston Churchill: “A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes”.

Marco Alba (MDB) perdeu feio. Não há como contestar a implacável ‘ideologia dos números’. Mas quem apressa a encomenda do caixão político do ex-prefeito comete o erro primário de não conhecer a história da aldeia. Marco não é um cadáver político. E, em uma ironia digna do que costumo chamar de Dos Grandes Lances dos Piores Momentos, o prefeito Luiz Zaffalon (PSD) — de quem Marco foi o ‘Grande Eleitor’ em 2020 antes do estouro da III Guerra Política de Gravataí — pode se transformar no seu maior cabo eleitoral em 2028.

Explico.

Sim, os fatos — aqueles chatos que teimam em atrapalhar argumentos — mostram que Marco saiu profundamente fragilizado deste pleito. A desidratação eleitoral de seu grupo na cidade foi brutal. Quem em 2022 somava 45.882 votos locais na disputa à Câmara Federal e fez 42.445 votos (33,87%) na corrida à Prefeitura em 2024, viu sua votação despencar para 12.462 votos (9,44%) na disputa à Assembleia Legislativa. No Estado, fez escassos 19.594 votos. Em sua última eleição para a Assembleia Legislativa, em 2010, foi o segundo mais votado do RS: 82.269 votos. Para piorar o quadro no retrovisor, perdeu nas urnas locais a posição de líder da oposição para o também candidato a deputado estadual derrotado e seu vice em 2024, Thiago De Leon (PDT), que fez 12.868 votos (9,75%) na cidade.

Além disso, a aposta do casal Alba cobra um preço alto pelo pragmatismo implacável da política. A estratégia de trancar o jogo em uma dobradinha estritamente familiar com a esposa, Patrícia Alba (MDB) — que concorreu a deputada federal e fez 12.079 votos (9,26%) na aldeia e 19.478 no Estado, não se elegendo —, pode parecer bonita, mas isolou a candidatura sem costurar parcerias e acordos regionais.

Mas por que Marco caiu tanto? Porque repetiu erros de 2024 — o que à época analisei em #DasUrnas | Marco Alba foi ‘vítima’ do que construiu – e bem. Ou: Pelé errou o pênalti — e insistiu em um anacronismo gritante.

Em primeiro lugar, repetiu Daniel Bordignon (PT) — aquele que o jornalista Políbio Braga chamava de ‘Mito do Vale do Gravataí’ numa época em que Jair Bolsonaro era mero animador de auditório no SuperPop de Luciana Gimenez, e resta hoje um recluso político. Marco apostou na estratégia do recolhimento, de preservar a imagem e só aparecer publicamente no ano eleitoral para saudar o Sol e cobrar memória do eleitorado. Na campanha, parecia dois candidatos distintos: nas redes, vídeos reflexivos e apelos à biografia; nos carros de som e ruas, o ataque à “Prefeitura quebrada” e “à dívida maior que a do PT”.

Neste Zeitgeist dominado pela tirania do algoritmo e das redes antissociais, o eleitorado não vota por gratidão ou memória das entregas do passado. As urnas de 2026 desenharam o império da presença diária na tela do celular. Marco perdeu para Dimas Costa (PSD) — consagrado o único deputado eleito por Gravataí com 21.053 votos (15,95%) na cidade ao se apresentar como o “deputado de resultados” e embaixador do governador Eduardo Leite — e perdeu para Thiago De Leon, que viralizou prometendo doar metade do salário em um “Porsche em doações” e mostrando “a Gravataí que ninguém mostra”. Marco cobrou memória; o eleitor comprou as obras mais recentes e o feed do Instagram.

Soma-se a isso a conta da macropolítica: em 2022, Marco abriu dissidência no MDB para apoiar Onyx Lorenzoni (PL) contra Eduardo Leite (PSD) e o vice de seu partido, Gabriel Souza. Em 2026, a conta foi cobrada e ele restou preterido pelo Piratini e por Dimas.

O troco de 2016 e a tese do ‘Zaffa Mãos de Tesoura’

Apesar da derrocada, Marco é candidato à Prefeitura em 2028 — disso ninguém duvide. O ‘Pelé da Política’, ainda que errando pênaltis na era digital, é experiente e fez uma campanha tímida financeira e estruturalmente em 2026 exatamente por já mirar 2028. E aqui reside o nó da questão.

Marco passa a apostar exatamente naquilo de que já foi vítima no passado. Recuemos a 2016: Daniel Bordignon não fora reeleito deputado estadual em 2014, mas venceu Marco na disputa pela Prefeitura. Impedido de assumir por cassação no STJ devido a contratações irregulares de professores, médicos e operários, Bordignon me disse na época: “O Marco é meu melhor cabo eleitoral”. Ele se referia ao ajuste fiscal brutal imposto por Marco em seu primeiro mandato (2013-2016) para combater a “herança maldita do PT”.

Pois a história, sarcástica, se repete. Em setembro, Zaffalon apresentou um pacote rigoroso de cortes de gastos e reajustes. Chamei-o de ‘Zaffa Mãos de Tesoura’. Se a crise fiscal se aprofundar e o governo municipal não recuperar a popularidade até 2028, o desgaste da gestão Zaffa pode ser o grande motor que trará Marco Alba de volta ao jogo competitivo. Um racha no governo (hoje notório) ou a deterioração dos serviços públicos por falta de caixa é exatamente tudo o que Marco Alba deseja para reativar o discurso do “gestor testado que recuperou as finanças da cidade” — o ‘exterminador de dívidas’.

Para que a profecia se concretize, porém, o ex-prefeito precisará entender o espírito do seu tempo. Não basta ter sido um dos melhores prefeitos da história da aldeia e esperar que o eleitor lembre disso espontaneamente. Terá que reaprender a falar a língua dos algoritmos sem perder a essência da política real.

Como tenho insistido cazuzianamente nas análises sobre as urnas em 2026, a política é um museu de grandes novidades. A eleição, como o tempo, não para. O pleito de 2026 mal encerrou sua apuração e a guerra de 2028 já começou. Marco Alba sai ferido, sem mandato e desidratado em votos, mas reputo que continua vivo na política, onde se pode morrer inúmeras vezes.


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