RAFAEL MARTINELLI

#DasUrnas | Evandro, o Soares, é a direita mais vencedora em Gravataí — e sem ir às urnas

Evandro, com Sanderson e van Hattem, na campanha

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Sem ir às urnas, Evandro Soares anoiteceu o domingo gigante. Ao menos na direita de Gravataí. O gravataiense deixou a Secretaria de Governança e Comunicação do governo Luiz Zaffalon para coordenar no RS as campanhas de Ubiratan Sanderson ao Senador, Luciano Zucco ao Palácio Piratini e Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

“Tu é louco”, ouviu, quando seu candidato era um desconhecido para parte dos gaúchos. Nesta terça-feira (6) almoçava com aquele que foi o senador mais votado no RS e em Gravataí, assim como foram na aldeia seus candidatos a governador e presidente.

Por que saiu bem sem ir às urnas? Porque os destros que concorreram não obtiveram êxito. O vice-prefeito Dr. Levi Melo (Podemos), que concorreu a deputado federal, e os vereadores Bombeiro Batista (Republicanos) e Policial Evandro Coruja (PL), que concorreram a estadual, não receberam votações que os inscrevam nas primeiras medalhas dos “imbrocháveis, incomíveis e imorríveis” do bolsonarismo.

Os números da eleição, com o detalhe dos desempenhos locais, estão em #DasUrnas | Veja os números locais: Raio-X da eleição consagra Dimas Costa como o único eleito por Gravataí — e a Prefeitura em 2028.

Curioso é que Evandro curte sua vitória com um perfil bastante diferente do ‘bolsonarismo-raiz’ — um personagem que desafia a preguiça de caricaturas da política gaúcha ou nacional.

Farmacêutico de formação, é o bolsonarista que toma vacina e não bebe detergente, como analisei em O bolsonarista que toma vacina deixa a Prefeitura de Gravataí para campanha de Zucco, Sanderson e Flávio.

Em 2020, foi candidato a vice-prefeito do hoje deputado eleito — e seu amigo íntimo — Dimas Costa (PSD), numa aliança que batizei na época de ‘MarxDonalds’. Trata-se de um verdadeiro unicórnio do “bolsonarismo moderado”. Unicórnio porque, convenhamos, só acredita na criatura mitológica quem quer.

Mas foi essa característica de moderado e articulador de bastidor que lhe garantiu autoridade nas campanhas de 2026. Na lavada da direita pelo país, o Rio Grande do Sul guardou um DNA diferente. Só loucos podem inscrever Sanderson, Marcel van Hattem ou Zucco como moderados em campanhas de rua, entrevistas ou redes sociais. Inegável é, porém, que souberam dosar o radicalismo — talvez van Hattem mais bolsonarista que os próprios bolsonaristas, registre-se.

Esse espírito de jogar parado quando necessário — e, principalmente para Zucco, aceitar que há um Estado envelhecido e endividado para governar ali na frente, sem quase nada para vender e às vésperas de voltar a pagar a dívida suspensa pelas enchentes — é a cara de Evandro.

Hábil e discreto, prefere o bastidor ao palanque e a mesa de negociação à live raivosa de rede antissocial. Essa bagagem vem de longe: das mãos que carregaram Jair Bolsonaro nos ombros no Aeroporto Salgado Filho em 2018, até a convivência nos corredores do Planalto, na Casa Civil e no Ministério do Trabalho ao lado de Onyx Lorenzoni.

“Dei meus palpites. Tinha a experiência dos erros da campanha do Onyx”, disse ao Seguinte:, lembrando a eleição de 2018, quando Lorenzoni perdeu a eleição estadual para Eduardo Leite.

A captura da adversária de esquerda envergonhada Juliana Brizola (PDT) para o convescote dos debates, eternizada pelo abraço caloroso entre ela e Zucco na manhã da eleição, representa bem essa estratégia. O próprio discurso de vitória do governador eleito, mesmo respaldado pela autoridade de uma liquidação em primeiro turno, apresentou um ‘Zuccinho Paz e Amor’. Sabe Zucco que o tamanho do desafio do Estado não cabe no Instagram.

De volta à aldeia, na tarde desta terça-feira Evandro já cumpre agendas com o prefeito Zaffa e com o presidente da Câmara de Vereadores, Dilamar Soares, o Dila (Podemos). Já está trabalhando. Vai colocar seu senador como parceiro de Gravataí para tirar do papel os estudos técnicos dos diques, escancarar as portas do Piratini e, com a trânsito que acumulou em Brasília, facilitar o acesso aos ministérios em caso de vitória de Flávio Bolsonaro.

E, como insisto cazuzianamente nas eleições desta eleição no #DasUrnas do Seguinte:, a política é um museu de grandes novidades, e a eleição, como o tempo, não para. Evandro entra automaticamente na lista de prefeituráveis para 2028, cacifado pela força de Zucco, Sanderson, da família Bolsonaro e do PL local.

Ao fim, é a política e seu pragmatismo implacável. Às vezes, mesmo sem ir ao teste das urnas, é possível vencer e sair gigante. Isso se chama estratégia.


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