A exoneração de Evandro Soares do cargo de secretário de Governança de Comunicação da Prefeitura de Gravataí, publicada no Diário Oficial, oficializou o movimento que já era esperado nos bastidores: o presidente do PL de Gravataí foi “convocado” pelo partido para integrar a coordenação das campanhas de Luciano Zucco ao governo gaúcho, Ubiratan Sanderson ao Senado e Flávio Bolsonaro à Presidência da República.
Sai do governo, mas não exatamente do entorno do poder. A tendência é retornar depois da eleição, pela relação próxima com o prefeito Luiz Zaffalon (PSD).
Evandro é desses personagens que a política gaúcha produz de tempos em tempos e que desafiam a preguiça das caricaturas. Um bolsonarista que não cabe inteiro no figurino clássico do bolsonarismo. Ou, ao menos, do bolsonarismo raiz.
Farmacêutico, toma vacina e não bebe detergente. O que, em certos círculos da extrema direita brasileira pós-pandemia, já o transforma quase em um social-democrata, um ‘quase comunista’. Talvez represente exatamente aquilo que setores da direita tentam vender desde que perceberam que eleição se ganha também no centro: um “bolsonarismo vacinado”. Se é que esse unicórnio existe.
Evandro nunca foi o sujeito do grito histérico ou da guerra permanente de rede social. Seu estilo sempre foi outro. Mais articulador do que incendiário. Mais bastidor do que palanque. Um político de “torcida mista na vida”, como defini numa reportagem de 2016, em perfil após sua eleição como vereador de Gravataí.
Ali já aparecia o traço que o acompanha até hoje: um homem de direita, assumidamente conservador, mas capaz de conversar sem espuma na boca com adversários ideológicos — inclusive dentro da própria família, onde os almoços reuniam o vereador bolsonarista e o irmão petista de carteirinha em clássicos GreNal domésticos.
Evandro foi um dos primeiros políticos de Gravataí a embarcar no bolsonarismo ainda quando muita gente escondia o voto no então deputado do baixo clero.
As mãos que carregaram Jair Bolsonaro nos ombros no Salgado Filho, em 2018, eram as mesmas que depois circulariam pelos corredores do Planalto, descendo e subindo andares entre gabinetes ministeriais e reuniões com Onyx Lorenzoni, o padrinho político que abriu para o gravataiense as portas de Brasília.
Evandro virou uma espécie de operador político do bolsonarismo gaúcho na capital federal. Comeu a la minuta com Bolsonaro. Morou perto do Alvorada. Mas nunca rompeu totalmente com a política tradicional que o bolsonarismo prometia destruir. Talvez por isso seja útil agora, quando a ordem na campanha dos bolsonaristas gaúchos parece ser “regionalizar” a campanha após as revelações da relação entre Flávio e o mafioso Vorcaro.
A extrema direita gaúcha entra em 2026 precisando menos de soldados fanatizados e mais de gente capaz de conversar fora da bolha. Menos TikTok raivoso e mais articulação. Menos influencer de guerra cultural e mais operador político que saiba sentar numa mesa sem transformar tudo em live. Evandro oferece isso.
Conhece os bastidores de Brasília, transitou pela Casa Civil e pelo Ministério do Trabalho com Onyx, passou pela Assembleia Legislativa com Rodrigo Lorenzoni e aprendeu a lógica do poder sem abandonar o perfil conciliador que carrega desde os tempos em que presidia a Câmara de Gravataí.
A prova talvez mais simbólica dessa moderação esteja justamente na chapa de 2020. Evandro foi vice de Dimas Costa, do PSD, numa aliança tão improvável entre direita e centro-esquerda municipal que batizei de ‘MarxDonalds’. Receberam mais de 35 mil votos e chegaram em segundo lugar contra Zaffa.
Não é exatamente o currículo esperado de um bolsonarista-raiz.E talvez seja justamente por isso que o PL o queira agora. Porque o bolsonarismo gaúcho percebeu que, sozinho, o radicalismo não constrói maioria, principalmente depois do PT seguir Lula e se aliar a Juliana Brizola (PDT). Precisa de pontes. Mesmo pontes frágeis. Mesmo pontes que tomem vacina.
Ao fim, ninguém no governo trata a exoneração como adeus. Parece mais um empréstimo eleitoral. Evandro vai. Faz campanha. Cumpre missão partidária. E pode voltar. O governo Zaffa 2 não chegou nem à metade.






