Entre os cacos da eleição de 2026, o MDB de Gravataí — sob o comando do ex-prefeito Marco Alba, e com o aval da deputada estadual Patrícia Alba, ambos não eleitos no último dia 4 de outubro — formalizou seu alinhamento às bancadas estaduais e federais e vai apoiar Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da corrida presidencial.
O movimento repete o enredo de 2022, mas traz contornos analíticos reveladores, ao menos na leitura que faço sobre a nota distribuída pelo partido em Gravataí. A decisão do grupo emedebista de marchar com o ‘Zero Um’ da extrema-direita econômica e institucional se sustenta, ao menos conforme o documento oficial, exatamente por aquilo que o próprio candidato do PL, acuado pelas contradições de sua plataforma, recorre ao rótulo de “fake news”.
Explico.
Em 2022, após o primeiro turno, o grupo comandado por Marco e Patrícia Alba anunciou o apoio à reeleição de Jair Bolsonaro, justificando que os governos do clã se pareciam com as administrações municipais de Gravataí. Com a tragédia da pandemia ainda viva, os argumentos que reputo envergonhados miravam mais na política econômica de Paulo Guedes.
Agora, passadas as urnas de 2026, o grupo repete o movimento de realinhamento à extrema-direita, no lusco-fusco do antipetismo, apesar de nenhum dos Alba ainda ter afixado em suas redes sociais a decisão ou algum material da campanha bolsonarista.
Mas há a questão que reputo central: a conta que não fecha — ou Flávio mente aos pobres ou “auzmercáduz”.
Diz a nota do MDB: “A sigla reafirma, assim, seu histórico de oposição ao PT e o compromisso com uma gestão responsável e transparente, que utilize os recursos públicos para incentivar o desenvolvimento econômico e oferecer serviços de qualidade à população. Com Acimar Silva e Marco Alba, o MDB sucedeu os 15 anos de administrações petistas em Gravataí, que endividaram o município e fragilizaram sua estrutura pública, provocando o caos na prestação dos serviços essenciais e comprometendo o futuro da cidade”.
E planifica: “Para os representantes do partido, o governo brasileiro precisa controlar os gastos, reduzir significativamente o endividamento público, combater privilégios e desperdícios e modernizar a máquina administrativa”.
Parece óbvio que o endosso do MDB à cartilha econômica do bolsonarismo para o segundo turno apoia-se na promessa de um ajuste fiscal drástico — com cortes de despesas entre R$ 250 bilhões e R$ 300 bilhões, conforme plano econômico vazado —, ao mesmo tempo em que assegura a preservação de gastos sociais, do ganho real do salário mínimo, das aposentadorias, do BPC e do Bolsa Família.
É justamente neste ponto que a aritmética expõe a fragilidade do discurso. Como bem desmontou em análise brilhante o jornalista Reinaldo Azevedo — a quem dou os devidos e necessários créditos —, “no Brasil em transe, ou Flávio mente aos pobres ou ‘auzmercáduz’”.
A promessa de enxugar trezentos bilhões de reais da máquina federal apenas contendo supersalários e fechando ministérios não passa de retórica; na ponta do lápis, essas medidas marginais rendem uma fração irrisória do total exigido pelo mercado. Para entregar o arrocho sanguinolento desejado pelos entusiastas da ultradireita, a fatura recairá inevitavelmente sobre a base da pirâmide.
Como aponta Reinaldo Azevedo ao evocar a figura de Porfírio Díaz, o senador reacionário de Terra em Transe, o candidato da direita radical atua como um ‘Hamlet da Zona Oeste’ que finge hesitar diante dos dilemas nacionais, mas escolhe sacrificar os vulneráveis em nome de uma ortodoxia que agrada aos investidores.
Dos Grandes Lances dos Piores Momentos é que é uma promessa de milagre fiscal comprada por um ex-prefeito que sabe bem que precisou praticamente congelar os salários do funcionalismo para aplicar sua ‘ideologia dos números’ em Gravataí.
É óbvio que, para o grupo de Marco e Patrícia Alba, o apoio oficial a Flávio Bolsonaro cumpre uma função estratégica de curto prazo. Fora do Parlamento e lidando com o isolamento de uma estratégia eleitoral estritamente familiar no pleito estadual, as lideranças buscam manter seus reflexos políticos atrelados à maior corrente ideológica da cidade — lembrando que Gravataí deu vitórias expressivas a Flávio Bolsonaro e Luciano Zucco nas urnas de outubro.
Contudo, endossar um receituário econômico que deve promover cortes brutais tem potencial para cobrar um preço narrativo para o grupo que quer disputar a Prefeitura em 2028. Ao assinarem a nota de apoio, os Alba marcham de mãos dadas com um modelo que, na prática, pode terceirizar o sofrimento dos mais pobres para aplacar o apetite insaciável dos ‘auzmercáduz’; no que não se diferem do hoje adversário existencial, o prefeito Luiz Zaffalon (PSD), que também abriu apoio a Flávio e já analisei em Zaffa vai votar em Flávio Bolsonaro: analiso seus argumentos sob a luz de Gravataí — O Diabo e o Caramelo; para quem estiver com preguiça de ler por 8 minutos, muito além do instagramável, o resumo é que Zaffa alega questões econômicas, mas como os Alba já têm como dogma não votar nunca no PT.
Ao fim, é necessário registrar que, para o velho Dorival de Oliveira não se remexer no túmulo, o MDB lembra a chama democrática e reforça na nota o “compromisso com a democracia”, mesmo se aliando a alguém cujo pai resta presidiário por tentativa de golpe de Estado. É a Realpolitik.
A NOTA DO MDB DE GRAVATAÍ
Leia na íntegra a nota divulgada pelo partido sob a manchete “MDB de Gravataí declara apoio a Flávio Bolsonaro à Presidência”:
O MDB de Gravataí anunciou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República em reunião realizada na tarde desta sexta-feira, 9/10, na sede do partido. Participaram do encontro a executiva municipal, a bancada de vereadores, o MDB Mulher, a deputada estadual Patrícia Alba e o ex-prefeito Marco Alba. A decisão acompanha o posicionamento dos parlamentares estaduais e federais do MDB gaúcho e da direção estadual.
A sigla reafirma, assim, seu histórico de oposição ao PT e o compromisso com uma gestão responsável e transparente, que utilize os recursos públicos para incentivar o desenvolvimento econômico e oferecer serviços de qualidade à população. Com Acimar Silva e Marco Alba, o MDB sucedeu os 15 anos de administrações petistas em Gravataí, que endividaram o município e fragilizaram sua estrutura pública, provocando o caos na prestação dos serviços essenciais e comprometendo o futuro da cidade.
Para os representantes do partido, o governo brasileiro precisa controlar os gastos, reduzir significativamente o endividamento público, combater privilégios e desperdícios e modernizar a máquina administrativa. Na economia, defendem investimentos robustos em infraestrutura, redução da burocracia e da carga tributária, além de estímulo ao empreendedorismo e à iniciativa privada para expandir a produção e gerar empregos. O posicionamento inclui o fortalecimento do Estado democrático, a garantia da liberdade de expressão, o respeito às instituições e a proteção intransigente do interesse público na condução do país.
A escolha de Flávio Bolsonaro se orienta por uma agenda de equilíbrio fiscal, combate à corrupção e à impunidade, preservando o compromisso com a democracia e as políticas sociais voltadas a quem mais precisa. O Brasil precisa voltar a crescer de forma sustentável. Nossa posição tem esse objetivo e mantém a coerência com a experiência administrativa que implantamos em Gravataí.
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