RAFAEL MARTINELLI

Zaffa vai votar em Flávio Bolsonaro: analiso seus argumentos sob a luz de Gravataí — O Diabo e o Caramelo

Prefeito de Gravataí, Luiz Zaffalon, votando no primeiro turno da eleição

O tema merece textão. Segue, abaixo, como documento para registro histórico, já que a ‘polarização’ cala hoje qualquer debate racional.

Na noite desta quarta-feira (7), o prefeito Luiz Zaffalon (PSD) usou suas redes sociais para anunciar sua posição no segundo turno da eleição presidencial:

“Daqui a menos de três semanas a gente tem o segundo turno no Brasil. Eu vou votar no Flávio Bolsonaro. Respeito profundamente quem for votar no outro candidato, mas vou votar nele pelos seguintes motivos: eu nunca votei no PT na vida. Eu nunca anulei voto, nunca votei em branco. E, sendo morador e eventualmente prefeito de Gravataí, uma cidade predominantemente industrial, estou apavorado com a desindustrialização do país, causada principalmente, não só por isso, mas principalmente, pelos produtos que vêm da China, que vêm do Vietnã, que vêm daquela região do mundo, e entram tranquilo aqui no Brasil, sem sobretaxa, sem coisa nenhuma”.

Com quase três décadas como analista político, é um debate de que gosto, mesmo que reste em uma bolha. Principalmente vindo do Zaffa. Trata-se de um político ‘sincericida’, mas que sempre guardou extrema elegância na discórdia. Já travamos debates públicos em outras ocasiões — como na eleição de 2022, quando discordamos sobre as teses em torno da inocência de Lula, no Seguinte:; leia em Lula é inocente, prefeito Zaffa!.

E, como a metafísica opera também na política, o próprio Zaffa adiantou no vídeo o contraponto que sabia que viria: “Alguém me disse o seguinte: ah, mas o Bolsonaro não vai mudar isso. Não sei. Com o Lula eu sei que não vai mudar, que isso vai continuar”.

Pois bem, Zaffa. Esse “alguém” poderia ser eu, ou qualquer observador que debruce o olhar sobre a complexidade da economia local e global. Faço-o aqui pelo Seguinte:.

Não busco aqui condenar o prefeito, apesar de não seguir sua decisão. Sua preocupação com Gravataí, com o emprego e com a saúde da indústria local é absolutamente justa, legítima e republicana. O medo do diagnóstico de desindustrialização é real. O remédio escolhido por Zaffa, contudo, tem enormes chances de não funcionar — sendo muito mais uma reação ideológica do antipetismo do que um movimento baseado nos comportamentos históricos e econômicos da família Bolsonaro.

Sigamos em tópicos.

O fantasma da desindustrialização e o caso Prometeon

Zaffa pontua uma ferida aberta no município: a desindustrialização. O caso recente da Prometeon em Gravataí — herdeira da histórica operação da Pirelli, com 1.360 trabalhadores diretos — é o símbolo perfeito desse drama. A fábrica operando com cerca de 70% de sua capacidade fabril e o avanço de pneus importados que chegam com preços de dumping asiático preocupam a todos nós: sindicato dos trabalhadores, prefeitura e Estado.

Porém, ao apontar a China como a vilã e projetar no bolsonarismo a salvação protecionista, esquece-se quem abriu a porteira. Foi sob o governo de Jair Bolsonaro e seu ministro Paulo Guedes que se aprovou a Lei de Liberdade Econômica, flexibilizando salvaguardas, desmantelando preços de referência internacional e zerando alíquotas de importação de pneus de carga após pressões de categorias específicas.

Da mesma forma, o clã Bolsonaro opera como linha de frente das políticas de Donald Trump nos Estados Unidos. O mesmo Trump que, ao impor tarifaços de 50% sobre a produção brasileira, ameaça gerar perdas de R$ 1,9 bilhão ao Rio Grande do Sul e atinge em cheio empresas exportadoras sediadas em Gravataí, como a própria Prometeon — para quem o mercado norte-americano é estratégico —, além de assustar a General Motors com a volatilidade tarifária global (como já manifestou, ainda antes da eleição estadunidense, a CEO da montadora, Mary Barra). Quando a extremidade do bolsonarismo aplaude o protecionismo americano, o resultado imediato não é a proteção da fábrica no Rio Grande do Sul, mas o risco direto a empregos locais.

Dos Grandes Lances dos Piores Momentos, a própria cobrança sobre plataformas de e-commerce e produtos importados — a chamada ‘taxa das blusinhas’ — foi duramente atacada pelas redes bolsonaristas quando o governo Lula buscou implementar alíquotas de proteção atendendo ao varejo e à indústria nacional.

A ‘ideologia dos números’: o que diz o IBGE

Quando saímos do discurso político e ingressamos na ‘ideologia dos números’, o contraste entre as duas gestões no âmbito industrial torna-se palpável. Dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) do IBGE demonstram a evolução da produção física da indústria brasileira em ambos os governos.

No Governo Bolsonaro (2019–2022): A produção industrial registrou queda de 1,1% em 2019 e de 4,5% em 2020. Recuperou 3,9% em 2021, mas voltou a cair 0,7% em 2022. No acumulado de quatro anos, a indústria brasileira encolheu cerca de -2,4%.

No Governo Lula (2023–2025): A produção industrial variou +0,1% em 2023, cresceu 3,1% em 2024 e avançou 0,6% em 2025. No acumulado dos três primeiros anos, o crescimento do setor atinge +3,9%.

Façamos uma comparação metodologicamente equilibrada de períodos idênticos (os dois primeiros anos de cada gestão).

Nos dois primeiros anos de Bolsonaro (2019–2020): A produção industrial acumulou retração de -5,6% (impactada também pelo choque inicial da pandemia em 2020).

Nos dois primeiros anos de Lula (2023–2024): A produção industrial acumulou alta de +3,2%.

No mercado de trabalho formal, os dados do Novo Caged confirmam que o setor industrial gerou mais de 434 mil empregos formais líquidos apenas entre 2023 e 2024, dos quais quase 386 mil postos foram criados especificamente na indústria de transformação. Além disso, em 2025, as exportações da indústria de transformação atingiram o recorde de US$ 188,4 bilhões.

Obviamente, os números não devem ser interpretados de forma isolada sem considerar os contextos internacionais, taxas de juros, inflação e choques globais. Mas eles desmontam a tese de que a política industrial do atual governo — ancorada na Nova Indústria Brasil, desenhada sob a liderança do vice-presidente e ministro Geraldo Alckmin, um liberal histórico que já foi inclusive presidenciável apoiado por Zaffa — é destruidora do setor.

A diplomacia das commodities e o agro

No vídeo, Zaffa também menciona as políticas agrícolas: “teria outros grandes motivos, uma política agrícola mais forte, mais bem definida…”.

É preciso destacar que, no atual governo, o Brasil registrou o maior Plano Safra da sua história. Mais do que isso: a relação pragmática com a China — maior parceira comercial do país — é o que sustenta o superávit da nossa balança comercial. Apenas no primeiro semestre de 2026, o saldo positivo do comércio Brasil-China ultrapassou US$ 19,8 bilhões. Retaliar ou reagir de forma estabanada à China em nome de um discurso protecionista cego traz o risco iminente de o agronegócio sofrer retaliações em grãos e carnes.

Por outro lado, a dependência brasileira da importação de fertilizantes — agravada pela escassez e alta de custos decorrentes da guerra na Ucrânia — expôs a fragilidade decorrente da desmobilização de políticas de soberania e fertilizantes nacionais consolidadas em governos anteriores de perfil neoliberal, os quais contaram com o apoio de correntes políticas com as quais Zaffa historicamente se alinhou. Se a Rússia parar de subsidiar o preço para os brasileiros…

O livre mercado, a contradição liberal e o antipetismo

O discurso de Zaffa em defesa do protecionismo estatal guarda um paradoxo fascinante: sua fala em defesa da intervenção governamental para blindar a indústria local soa, em muitos momentos, semelhante aos críticos da globalização e do livre mercado. Nos anos 80, era discurso de esquerdista anti-imperialista.

Fato é que Zaffa representa a direita liberal e institucional que, espremida pelo avanço da extrema-direita, muitas vezes é cobrada até por alianças de centro-direita — como ocorre em sua parceria com o extremo-centrismo do governador Eduardo Leite. Contudo, na hora da escolha nacional, o antipetismo fala mais alto. A afirmação categórica de que “nunca votei no PT na vida” revela o dogma fundante dessa parcela do eleitorado: a indisposição visceral contra o PT, visto como o vilão perfeito, ainda que o partido tenha atuado na prática como um gestor da própria globalização e da ordem macroeconômica capitalista.

O ‘comandante’ José Dirceu já declarou que o governo Lula 3 é de “centro-direita”, tal a frente ampla e a política econômica — mesmo que depois tenha se dito mal-interpretado.

Ao apoiar o bolsonarismo, como já fizera em 2018 e 2022 no segundo turno, Zaffa deposita sua esperança em uma vertente política que pouca inclinação demonstra para com o planejamento industrial nacional soberano.

Nem trato aqui das questões democráticas e dos efeitos econômicos de uma crise institucional eterna, ao gosto da Doutrina Donroe do Império do Caos.

O veredito da coerência — e o Diabo e o Caramelo

Ao fim, o alarme do prefeito sobre o risco de desindustrialização de Gravataí é real e merece respeito.

No entanto, arrisco dizer que, se mantiver a coerência com seus próprios argumentos econômicos e com a defesa do emprego fabril em Gravataí, Zaffa poderá se ver frustrado no futuro. Nada na trajetória do bolsonarismo sinaliza uma política de desenvolvimento industrial imune aos interesses das políticas de Trump e ao livre fluxo financeiro.

Já se a coerência com a ferradura ideológica do antipetismo prevalecer, o voto continuará sendo contra o PT, independentemente dos dados de emprego ou da dinâmica de mercado — seja o candidato o Diabo ou um Caramelo. A minha análise sugere apenas que, na busca por proteger a indústria de Gravataí, a receita escolhida pode acabar acelerando a própria doença que se pretende curar.

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