Lembro dos filmes de terror mais antigos, onde o fim do mundo chegava quase se arrastando. Aqueles mortos-vivos dos anos 1970 vagavam pelos corredores dos shoppings numa lentidão sonolenta, como uma ironia genial sobre a nossa febre de consumo da época. Mas a crise que destrói a convivência de hoje não tem nada de lenta: ela é veloz e violenta. O modelo mais parecido com a nossa realidade não é o zumbi clássico, mas sim os infectados de Extermínio (28 Days Later, 2002), filme dirigido por Danny Boyle e escrito por Alex Garland. Na história, um patógeno chamado “Vírus da Raiva” desliga qualquer rastro de empatia e bom senso em poucos segundos, deixando as pessoas em um estado permanente de fúria descontrolada.
No mundo real, esse patógeno não vazou de um laboratório secreto. Ele foi programado em linhas de código lá no Vale do Silício, roda nos celulares de bilhões de pessoas o dia inteiro e atende pelo nome de algoritmo.
O negócio da raiva: como prender a sua atenção
A mordida digital começou com uma promessa bonita de união. Como mostram os depoimentos de ex-funcionários no documentário O Dilema das Redes, a ideia inicial era aproximar amigos distantes, compartilhar receitas e descobrir interesses em comum. No entanto, o tempo que passamos olhando para a tela virou o produto mais valioso do planeta. E as empresas logo perceberam uma regra amarga: a paz não dá audiência. O que realmente segura os olhos na tela é o susto, o medo e a indignação.
Isso não é só uma impressão pessoal, é um fato medido pela ciência. Um estudo de grande repercussão feito pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e publicado na revista Science revelou que notícias falsas se espalham seis vezes mais rápido do que a verdade. O motivo é simples: a mentira costuma apelar para sentimentos fortes, como espanto, revolta e nojo.
O sistema foi montado para recompensar o conflito. Para o algoritmo, o usuário não é um cidadão que pensa, mas alguém que reage no impulso. Com o tempo, as recomendações automáticas descobriram que quem assiste a um boato simples logo aceita teorias da conspiração absurdas e discursos de ódio. A máquina não quer saber se o que você vê é verdade ou mentira; ela só quer saber se você continuou ali por mais quarenta segundos para ver outro anúncio.
O Brasil pós-eleição e o poder invisível das redes
No cenário brasileiro pós-eleitoral, esse mecanismo atinge o seu ponto mais perigoso. O país deixou de viver uma disputa comum de ideias — onde lados diferentes debatem como melhorar a economia ou os serviços públicos — e passou a encarar a política como uma guerra de extermínio moral. Quem pensa diferente não é visto apenas como alguém equivocado, mas como um inimigo desonesto que precisa ser silenciado.
As consequências saíram das telas e invadiram a vida real. Dados de entidades como o Observatório da Violência Política e Eleitoral (UNIRIO) mostram uma rotina de agressões verbais e físicas, ameaças, demissões motivadas por voto, rompimento de laços familiares e listas públicas de boicote a pequenos comércios. O vizinho de porta virou uma ameaça.
Mas o problema não para no comportamento dos usuários: ele atinge o próprio controle que essas empresas exercem sobre o debate público. Um exemplo claro disso ocorreu quando a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva acionou a Justiça contra a Meta (dona do Instagram, Facebook e WhatsApp), apontando que a plataforma reduziu o alcance e a entrega de postagens do candidato e de seus apoiadores. A empresa afirmou que os problemas foram causados por falhas técnicas, mas o episódio levou a investigações e decisões do Tribunal Superior Eleitoral, como noticiado pela Agência Brasil, que cobrou explicações e proibiu limitações injustificadas para assegurar regras iguais e equilíbrio entre as campanhas rivais. Quando poucas empresas privadas detêm o poder de decidir quem é visto e quem é escondido durante uma eleição, as decisões de seus sistemas fechados afetam diretamente o rumo do país.
Ao mesmo tempo, essa divisão não é um defeito de um único grupo. Embora táticas e discursos mudem, pessoas de diferentes posições políticas acabam presas em suas próprias bolhas digitais. De um lado ou de outro, o público é alimentado com alertas diários de “URGENTE!”, denúncias sem prova e títulos chamativos feitos sob medida para reforçar medos e desconfianças.
Quem ganha com a fúria geral
Enquanto a população se desgasta em discussões intermináveis, surgiu toda uma indústria para lucrar com o pânico. Políticos cada vez mais extremistas, influenciadores e canais sensacionalistas aprenderam que manter o público em choque gera seguidores, visualizações e doações financeiras. O termo “URGENTE” perdeu o sentido: tudo virou emergência, traição ou conspiração iminente.
Ao mesmo tempo, o ambiente dessas plataformas piora a cada dia na frente dos nossos olhos. Anúncios fraudulentos, ofertas de agiotagem, golpes financeiros e propagandas falsas geradas por inteligência artificial convivem livremente com o debate político. O volume de desinformação não é um acidente; é a consequência direta de um modelo que colocou o lucro do clique acima da segurança da informação e que agora se alinha, também por interesses financeiros, a autoridades políticas como Donald Trump.
O fim do diálogo
No final do filme Extermínio, fica claro que a pior ameaça não eram apenas os infectados fora de si, mas sim os oportunistas que usavam o desastre para mandar nos outros e tirar vantagem do desespero geral.
Quando dois brasileiros abrem seus celulares hoje, eles não estão vendo visões diferentes do mesmo fato: estão vivendo em realidades completamente separadas. Se cada lado consome apenas conteúdos que mostram o adversário como traidor ou criminoso, não sobra espaço para conversa. Dialogar exige que as pessoas concordem ao menos sobre os fatos básicos do dia a dia. Sem isso, a sociedade abandona o debate e passa a agir como se estivesse em uma trincheira.
A tragédia do nosso apocalipse não é que as pessoas pararam de ler, mas que foram acostumadas a confundir barulho com razão e provocação com coragem. Enquanto a raiva algorítmica continuar sendo o negócio mais lucrativo do mundo, continuaremos nos atacando, certos de que estamos apenas nos defendendo.
A busca pela vacina
E como a gente cria uma vacina para esse vírus? A resposta mais comum é dizer que cada pessoa precisa ter “senso crítico” e pesquisar antes de compartilhar. Mas pedir que alguém sozinho vença um supercomputador programado para enganá-lo é uma luta injusta. A verdadeira cura exige uma força-tarefa que envolva tecnologia, leis e, principalmente, limites financeiros. Se o algoritmo foi criado por inteligência artificial, precisamos usar essa mesma tecnologia para nos defender. Pesquisadores brasileiros, como os do laboratório de inteligência artificial da Unicamp, já estão desenvolvendo sistemas que cruzam dados rapidamente para alertar quando um vídeo ou uma notícia não são verdadeiros.
O remédio no bolso e a força da lei
Porém, a tecnologia de defesa só funciona se houver regras claras. É aqui que entra o papel da lei. Debates no Congresso Nacional e diretrizes recentes lançadas pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) em 2026 apontam o caminho mais eficiente: cortar o oxigênio financeiro do vírus. Isso significa proibir que quem espalha pânico e mentiras ganhe dinheiro com isso. Se um canal fatura com anúncios em cima de desinformação perigosa, a lei precisa fechar essa torneira e responsabilizar a plataforma que permitiu o abuso. Não se trata de proibir opiniões, mas de impedir que a mentira continue sendo um negócio altamente lucrativo.
A um passo da barbárie
Se não agirmos rápido, a consequência será muito pior do que uma eleição barulhenta: é o colapso da própria vida em sociedade. No filme Extermínio, a parte mais assustadora não são os infectados correndo pelas ruas, mas a rapidez com que o respeito humano e as leis desaparecem, dando lugar ao egoísmo e à violência de quem sobrou.
A barbárie acontece exatamente quando perdemos a capacidade de confiar uns nos outros e nas instituições. Quando a sociedade não consegue mais concordar sobre fatos básicos da realidade — se uma vacina funciona, se um crime realmente aconteceu ou se o resultado de uma eleição é real —, o diálogo morre. Sem fatos em comum, a convivência pacífica desmorona e só sobra a força bruta.
O Brasil e o mundo estão perigosamente perto da beira desse abismo. O vírus do algoritmo nos treinou para acreditar que o grande inimigo é o colega de trabalho ou o parente que pensa diferente, quando, na verdade, o perigo mora no sistema que lucra enquanto nós brigamos. Ou encontramos a vacina da regulamentação e do bom senso coletivo, ou o apocalipse da coerência deixará apenas ruínas, onde todos acham que têm razão, mas ninguém consegue viver em paz.





