Há um charme melancólico nas reviravoltas que a política reserva aos seus personagens. E a vida pública em Gravataí, esse museu de grandes novidades onde o aliado de ontem é o algoz de hoje, inimizades se estreitam e o tempo teima em não parar, resolveu oferecer no final de outubro um capítulo de pura ironia poética e metafísica.
Na noite de quinta-feira (29), a iVales sediou a 16ª edição do prêmio Marcas & Líderes — evento promovido pela Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Gravataí (ACIGRA) em parceria institucional com a Universidade Luterana do Brasil (ULBRA). Trata-se, conforme os organizadores, da maior edição da história do prêmio, reunindo mais de 400 empresários, lideranças e representantes da comunidade. Baseada em uma pesquisa de lembrança espontânea aplicada por amostragem presencial em regiões comerciais cruciais da aldeia — como Centro, Parque dos Anjos, Morada do Vale e Vila Branca —, a premiação escaneou cerca de 50 segmentos da economia local sem apresentar listas prévias. O objetivo? Saber quem habita a memória afetiva e a mente do gravataiense.
E no topo dessa lembrança espontânea, emergindo da poeira de um ano eleitoral implacável, surgiu o nome do ex-prefeito Marco Alba (MDB), consagrado como a Personalidade Gravataiense Mais Lembrada de 2026.
Marco subiu ao palco. Mas não subiu sozinho. Fez questão de levar a esposa, a deputada Patrícia Alba (MDB), dividindo os holofotes e o troféu. Emocionado, o ex-prefeito externou o gesto nas redes sociais:
“Receber o reconhecimento como Personalidade Gravataiense Mais Lembrada no prêmio Marcas & Líderes 2026, da ACIGRA, enche meu coração de gratidão. Vejo nesse carinho dos gravataienses uma lembrança das nossas duas gestões como prefeito e das transformações que construímos em nossa cidade e na vida das pessoas.
Dividir esse momento com minha esposa, a deputada Patrícia Alba, tornou a noite ainda mais especial. A ela, meu amor e agradecimento pela parceria nessa vida dedicada a cuidar das pessoas. Em meu nome e da minha família, muito obrigado, Gravataí, por nos guardar com tanto carinho e afeto na sua memória!”
Inegável é que a tradicional premiação da ACIGRA resgata Marco Alba e o seu legado no momento mais delicado de sua trajetória política. Nas urnas de outubro, o ex-prefeito viveu o que se pode chamar de o mais duro golpe eleitoral de sua carreira: perdeu todas.
Conforme escrevi recentemente no artigo #DasUrnas | Marco Alba perdeu feio, mas não está morto — e como Zaffa ainda pode ser seu ‘Grande Eleitor’ em 2028, os fatos — aqueles chatos que teimam em atrapalhar argumentos — mostram a brutalidade da implacável ‘ideologia dos números’:
“Quem em 2022 somava 45.882 votos locais na disputa à Câmara Federal e fez 42.445 votos (33,87%) na corrida à Prefeitura em 2024, viu sua votação despencar para 12.462 votos (9,44%) na disputa à Assembleia Legislativa. No Estado, fez escassos 19.594 votos. Em sua última eleição para a Assembleia Legislativa, em 2010, foi o segundo mais votado do RS: 82.269 votos. Para piorar o quadro no retrovisor, perdeu nas urnas locais a posição de líder da oposição para o também candidato a deputado estadual derrotado e seu vice em 2024, Thiago De Leon (PDT)…”
Na mesma toada, a dobradinha estritamente familiar cobrou um preço alto. Conforme escrevi no artigo #DasUrnas | Patrícia Alba no ‘Labirinto do General’: O sacrifício eleitoral, o isolamento do casal e o que a política perde sem a deputada de Gravataí:
“Ao abrir mão de uma reeleição possível no Parlamento gaúcho para testar o apetite federal em uma dobradinha familiar travada com Marco Alba, Patrícia Alba (MDB) entregou o pescoço no altar da aliança. O resultado é o exílio, ao menos momentâneo, dos dois… A estratégia de trancar o jogo em uma dobradinha estritamente familiar cobra seu preço com juros de mora na Realpolitik. Ao fecharem portas para composições regionais e recusarem parcerias… Marco e Patrícia isolaram-se.”
O contraste, portanto, é cintilante. As urnas de 2026 desenharam o império da tirania do algoritmo e da presença diária na tela do celular, onde o eleitor cobra entregas recentes e feeds dinâmicos. Mas quando a ACIGRA vai às ruas e pergunta ao cidadão qual nome surge em sua cabeça, a memória afetiva e a biografia de quem governou a cidade por dois mandatos ainda sobrevive.
O auge, a queda e a metafísica de Coldplay
Há uma metafísica da coincidência no ar. É muito comum ver grandes cerimônias de premiação utilizarem como trilha sonora de clímax a apoteótica Viva La Vida, hit global do Coldplay. O ritmo vibrante e as cordas triunfantes dão a sensação de glória imediata. No entanto, raros são os que se detêm para ler a letra da canção — uma obra profundamente reflexiva que parece ter sido encomendada sob medida para o atual momento político de Marco Alba.
Diz a primeira estrofe da música:
“I used to rule the world / Seas would rise when I gave the word / Now in the morning I sleep alone”
(“Eu costumava dominar o mundo / Oceanos se abriam quando eu ordenava / Agora pela manhã durmo sozinho”)
A letra narra a dor e a solidão de um rei despojado de seu trono, contemplando os escombros de um império que já foi seu, enquanto assiste às massas e aos novos atores tomarem a praça pública. É a tradução pop daquilo que referenciei ao citar O General em Seu Labirinto, de Gabriel García Márquez: a angústia de constatar que nem mesmo o controle do centro da história garante a eternidade do poder.
Marco Alba conheceu o ápice. Como o ‘Pelé da Política’ gravataiense e o ‘Grande Eleitor’ que construiu a hegemonia de um grupo e moldou a Gravataí moderna, viu oceanos abrirem-se ao seu comando na política local. Hoje, fora dos mandatos, desprovido da máquina pública e amargando a desidratação eleitoral das urnas, experimenta a agridoce solidão do exílio político.
Entretanto, o prêmio Marcas & Líderes 2026 vem como uma bússola no labirinto. Lembra a Marco — e a toda a aldeia — que, embora a política seja perversa e passageira, o legado permanece intacto. A eleição passa, os mandatos evaporam, os acordos se rompem e as urnas cobram juros moratórios. Mas o legado de transformações e a marca cravada na memória coletiva de uma cidade? Ah, esses ninguém tira.
“I used to roll the dice / Feel the fear in my enemy’s eyes / Listened as the crowd would sing / Now the old king is dead!”
(“Eu costumava rolar os dados / Sentir o medo nos olhos dos meus inimigos / Ouvia enquanto a multidão cantava / Agora o velho rei está morto!”)
É outro trecho da canção. Porém, como lembrei citando Churchill, a política permite morrer e renascer diversas vezes. Marco sai ferido de 2026, mas reposicionado na memória do gravataiense. Ao menos conforme o Marcas & Líderes, o ‘rei posto’ ainda vive la vida. E a guerra de 2028, como se sabe, já começou.





