RAFAEL MARTINELLI

O ‘voto-relação tóxica’ de Gravataí: entre o container de corpos no Dom João Becker e o Rolex de Flávio Bolsonaro na orgia do lago

O container de corpos no hospital de Gravataí, em 2021

Chamem bolsonarismo, conservadorismo, antipetismo ou aposta na “mudança”. Dá na mesma. Resto quase desistente após ler a reportagem da revista piauí, “Uma tarde no lago”, sobre a orgia do lobby da vacina, enquanto vidas eram perdidas na pandemia. Conectou-me diretamente com um voto que chamo de ‘voto-relação tóxica’ em Gravataí. Relação tóxica aquela quando o agressor promete que vai mudar de comportamento. E, mesmo quando as revelações só se tornam piores, e as dores e cicatrizes maiores, ainda se mantém a esperança. Até o feminicídio.

Os números das urnas de outubro de 2026 mostraram que a cidade repetiu seu DNA profundamente conservador e bolsonarista, dando a Flávio Bolsonaro (PL) expressivos 55,91% dos votos (78.624 eleitores) no primeiro turno. É a mesma toada de 2018 e de 2022, quando o Bolsonaro pai foi ‘mito’ na aldeia.

Para quem cobriu a pandemia em Gravataí — registrando a dor de 1.124 vidas perdidas para a Covid-19, o pico de seis mortes por dia, as UTIs colapsadas e aquele indizível container de corpos estacionado ao lado do Hospital Dom João Becker —, a crítica não pode ser resumida a militância. Meu voto é aberto, não está sob sigilo como o programa econômico de Flávio, mas meu legado jornalístico mostra que tenho respeito pelos fatos. E a objetividade dos fatos suplanta qualquer narrativa e não depende de lado na ferradura ideológica.

A reportagem publicada pela revista piauí, assinada por João Batista Jr., Ana Clara Costa e Breno Pires, reconstrói em detalhes sórdidos relações altamente questionáveis que ocorriam no exato momento em que o Brasil marchava para a cova coletiva: o consórcio de imprensa contabilizava, em 16 de julho de 2020, a marca estarrecedora de 1.299 mortos em apenas 24 horas — totalizando quase 77 mil óbitos no país (até o fim da pandemia foram mais de 700 mil).

A apuração da piauí detalha como os empresários Danilo Trento e Francisco Maximiano, donos da Precisa Medicamentos (intermediária da vacina Covaxin), financiaram um jato executivo Embraer Phenom 300 para transportar de São Paulo a Brasília três garotas de programa, destinadas a animar um churrasco a bordo de uma lancha de 20 metros no Lago Paranoá.

O convidado de honra da festa regada a vodca, gim e cerveja era o senador Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência. Acompanhado de seu sócio na famosa loja de chocolates investigada por lavagem de dinheiro, Alexandre Santini — o mesmo que depois denunciou a suposta infidelidade do amigo para a esposa —, o ‘Zero Um’ passou a tarde sem camisa, alternando goles na proa e descidas à cabine com as acompanhantes.

Ao final da orgia, já com o barco atracado no deck, o lobista Danilo Trento quis coroar o agrado com um mimo reluzente: tirou do próprio pulso um relógio Rolex de pulseira prateada e o encaixou no braço do senador, que foi embora para casa usando o presente. Meses depois, como revelou a CPI da Pandemia e destrincha a piauí, Flávio abriria as portas do BNDES para os mesmos empresários tentarem novos negócios.

Trata-se do mesmo grupo que tentou empurrar ao Ministério da Saúde um contrato superfaturado de vacinas a 80 reais a dose, enquanto o mundo chorava seus mortos e o governo federal operava como vetor de propagação do vírus.

Enquanto Flávio e os lobistas desfilavam em uma lancha com garotas de programa e um Rolex de trezentos mil reais, o chão de Gravataí era coberto de luto.

Como apontei em balanço recente sobre os seis anos da declaração da pandemia pela OMS, a aldeia chorou 1.124 vidas interrompidas. Aplicando os parâmetros técnicos da CPI da Covid, ao menos uma em cada quatro mortes poderia ter sido evitada — cerca de 500 pessoas que hoje não estariam em lápides se tivéssemos um governo federal guiado pela ciência e pela decência, e não pela ‘covidiotia’ e pelo negacionismo criminoso.

Enquanto o ex-presidente chamava a doença de “gripezinha” e ironizava a falta de ar dos brasileiros (“não sou coveiro”), os corpos se amontoavam em containers frigoríficos improvisados ao lado do hospital.

Choca-me que o eleitor de Gravataí e de outras cidades consiga separar o voto na urna da memória daquele horror. Como a cidade que viu seus vizinhos, amigos e parentes sufocarem sem oxigênio consegue marchar, com tanta naturalidade, ao lado de um projeto político suspeito de tanta corrupção (exibida diariamente no noticiário), de golpismo (já condenado pelo STF) e de desrespeito absoluto à vida (cujas provas vivas são as vidas perdidas, eternas ao menos entre os seus)?

A reportagem da piauí não é apenas uma peça de jornalismo investigativo; é um atestado de autópsia moral de um período em que o poder público brasileiro serviu de balcão de negócios para negociatas de vacinas regadas a champanhe, lanchas e prostituição, enquanto o povo agonizava nos hospitais de campanha.

Manifestar inconformidade diante disso não é mero desabafo opinativo; reputo-o um dever ético acima da própria profissão.

Ao fim, a política é um museu de grandes novidades, mas a memória das vítimas exige que o eleitor saiba — e faça o que bem entender com as informações, porque ainda vivemos em uma democracia — quem estava salvando vidas e quem estava ganhando Rolex de lobista na orgia do poder.

Gostaria de poder ‘desler’ a reportagem. Fez-me mal. Quem quiser estragar seu momento, leia na íntegra clicando aqui.

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