3º NEURÔNIO

Eleições 2026: a reta final

“As eleições não eliminam as contradições da democracia brasileira. Elas definem, porém, as condições políticas nas quais teremos de enfrentá-las no dia seguinte”. Compartilhamos o artigo de Ricardo Queiroz Pinheiro, publicado pelo Opera Mundi

O Datafolha de 17 de setembro registrou um segundo turno com Lula com 46% e Flávio com 44%; a Quaest divulgada no dia 21 encontrou 42% para Flávio e 41% para Lula. A margem é estreita e ajuda a explicar a sensação de urgência que tomou conta da disputa. Mas há algo mais profundo em jogo para além desses números. A esquerda chega a este pleito ocupando uma posição que vem se consolidando nos últimos anos e que, algumas décadas atrás, pareceria bastante estranha: tornou-se uma das forças mais empenhadas na defesa das instituições da democracia liberal.

Estranha porque essas instituições nunca foram suficientes para a esquerda. A igualdade escrita na lei sempre conviveu com desigualdades imensas; o voto universal jamais eliminou o peso do dinheiro sobre a política; parlamentos eleitos continuam reproduzindo relações de poder existentes na sociedade. Boa parte das tradições socialistas, trabalhistas e democráticas nasceram justamente da pressão para ampliar esses limites. Hoje, porém, Constituição, eleições, universidades, serviços públicos, direitos sociais e mecanismos de controle do poder aparecem sob uma pressão diferente. A disputa já não diz respeito apenas a quanto essas instituições podem avançar. Em vários lugares do mundo, passou a envolver a própria extensão em que elas continuarão de pé.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Essa mudança tem uma história. Depois da Segunda Guerra Mundial, sobretudo nos países capitalistas mais ricos, formou-se um acordo instável entre democracia e capitalismo. Trabalhadores conquistaram sindicatos fortes, previdência, legislação trabalhista, serviços públicos, aumento dos salários e capacidade de pressionar governos. Nada disso foi presente. Veio de greves, partidos, movimentos sociais e de um século marcado por revoluções, guerras e conflitos sociais. O resultado, entretanto, produziu um paradoxo importante: ao impor limites ao capital, essas conquistas também ajudaram a criar sociedades nas quais o próprio capitalismo podia continuar funcionando com algum grau de consentimento.

Wolfgang Streeck, sociólogo alemão que passou décadas estudando a relação entre capitalismo e democracia, construiu boa parte de sua reflexão em torno desse problema. Em “Tempo Comprado”, publicado originalmente em 2013 (saiu aqui pela Boitempo), ele acompanha o desgaste daquele equilíbrio do pós-guerra. Sua imagem é boa justamente porque é simples: em vez de resolver as tensões entre as exigências da acumulação e as demandas das sociedades democráticas, o capitalismo encontrou maneiras sucessivas de adiá-las. Inflação, endividamento dos Estados, expansão do crédito privado e austeridade aparecem nessa trajetória como respostas diferentes a um conflito que permanece. Compra-se tempo.

Streeck leva esse argumento adiante em “How Will Capitalism End?” (Como o capitalismo acabará?, em tradução livre), de 2016, livro ainda inédito no Brasil. Ao longo das últimas décadas, o capitalismo foi enfraquecendo parte das forças que o obrigavam a negociar: sindicatos perderam poder, mercados foram desregulados, o capital financeiro ganhou enorme mobilidade e governos passaram a competir por investimentos oferecendo condições cada vez mais favoráveis. O ponto de Streeck é que esse processo cobra um preço. As instituições e organizações que limitavam a acumulação também ajudavam a organizar os conflitos sociais, garantir alguma redistribuição e produzir estabilidade. Ao enfraquecer seus adversários, o capitalismo também enfraqueceu mecanismos que durante muito tempo ajudaram a conter suas próprias tendências destrutivas.

É difícil não reconhecer traços desse processo no vocabulário político que passou a organizar boa parte do debate público. Nas últimas décadas, direitos e políticas construídos como formas de proteção social foram sendo redescritos cada vez mais pela linguagem do custo, da eficiência e da competitividade. Com isso, instituições criadas para regular mercados, proteger trabalhadores ou conter abusos econômicos passam a ser avaliadas também pelo quanto dificultam a circulação do capital. Ao mesmo tempo, cresceu enormemente a capacidade de movimentação de recursos, empresas e investimentos, enquanto governos, trabalhadores e comunidades continuam presos a territórios, empregos e relações sociais concretas. É dessa assimetria que nasce uma parte importante da pressão contemporânea sobre a democracia.

A extrema direita contemporânea entra nesse cenário por um caminho próprio. Ela não pode ser reduzida a um departamento político do grande capital. Sua força envolve religião, nacionalismo, ressentimentos sociais, conflitos culturais, transformações tecnológicas e uma profunda crise de representação. Mas há zonas de convergência. Setores econômicos enxergam regulações e direitos como limitações; movimentos de extrema direita veem instituições de mediação e controle como obstáculos à ação política. O alvo concreto varia: sindicatos, universidades, imprensa, burocracias públicas, tribunais, organismos reguladores. Em torno deles podem se aproximar interesses que têm origens e objetivos bastante diferentes.

É nesse contexto que a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro ganha um significado maior do que a repetição da polarização eleitoral dos últimos anos. Os dois concentram hoje os principais campos da eleição, e os levantamentos recentes mostram o tamanho do equilíbrio: nenhuma vantagem registrada nas principais pesquisas de segundo turno permite falar em liderança consolidada.  A eleição ocorre depois de uma década em que instituições brasileiras estiveram continuamente no centro do conflito político. STF, Congresso, sistema eleitoral, imprensa, universidades, Forças Armadas, empresas públicas e organismos de fiscalização deixaram de funcionar apenas como cenário da disputa. Tornaram-se parte dela.

Daí a dificuldade particular em que a esquerda se encontra. Sua crítica histórica às instituições não desapareceu. O Parlamento continua guiado pelo poder econômico. O Judiciário continua socialmente distante de grande parte da população. A democracia brasileira continua convivendo com concentração de renda, de propriedade e de informação. O acesso aos direitos permanece brutalmente desigual. Ao mesmo tempo, a deterioração das instituições democráticas reduz o espaço no qual essas próprias desigualdades podem ser confrontadas politicamente. É uma posição desconfortável porque obriga a esquerda a sustentar duas preocupações que nem sempre caminham facilmente juntas: preservar condições democráticas básicas e continuar submetendo essas mesmas condições à crítica.

É justamente por isso que a eleição de 2026 tem um peso tão grande. Lula e Flávio Bolsonaro representam caminhos bastante diferentes para o Estado brasileiro, para as políticas sociais e para a relação entre governo e instituições. Lula governa dentro de limites econômicos que a própria esquerda precisa continuar discutindo e enfrentando; sua política econômica está longe de representar uma ruptura com o capitalismo liberal brasileiro. Flávio Bolsonaro, por sua vez, se apresenta como continuidade de um campo político que fez do enfraquecimento de mediações institucionais, da redução da capacidade do Estado e do confronto com organismos de controle elementos importantes de sua trajetória. A contradição apontada por Streeck permanece inteira, mas a eleição coloca essa contradição em terreno concreto: preservação de direitos, políticas públicas e espaços institucionais de disputa, de um lado; maior retração dessas mediações, de outro.

É essa diferença que precisa estar no centro da decisão de outubro. A vitória de Lula manteria aberto um terreno institucional no qual a esquerda pode continuar disputando salário, direitos, políticas sociais, investimento público e uma democracia mais ampla, inclusive pressionando o próprio governo Lula para ultrapassar seus limites. Uma vitória de Flávio Bolsonaro deslocaria essa disputa para um cenário de maior pressão sobre essas mediações e sobre a capacidade pública construída nas últimas décadas. A eleição não elimina a contradição que percorre este texto. Ela define, porém, as condições políticas nas quais teremos de enfrentá-la no dia seguinte.

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