RAFAEL MARTINELLI

O vídeo de Dimas e o abismo na resposta de prefeito e vice ao escândalo de assessora investigada por fake news em Gravataí

O ex-deputado estadual Dimas Costa (PSD) postou nesta sexta-feira (11) um vídeo-pronunciamento sobre a Operação Persona — a ação da Polícia Civil que investiga pessoas suspeitas de praticar crimes de difamação e fake news com perfis falsos a partir do setor público de Gravataí, revelada com exclusividade pelo Seguinte: na quarta-feira (9) e que já ganhou repercussão na mídia estadual.

Reputo que Dimas tratou o caso com a gravidade que, até o momento, o prefeito Luiz Zaffalon (PSD) e o vice-prefeito, Dr. Levi Melo (Podemos), não demonstraram publicamente.

A contextualização desse incômodo passa necessariamente pela engenharia política recente do governo. Há pouco tempo, analisei a maturidade institucional revelada na aproximação entre Dimas e Levi, consolidada em um encontro no escritório do ex-deputado onde a sensibilidade humana e o pragmatismo eleitoral se alinharam sob a bênção estratégica de Zaffa.

Aquele arranjo desenhou uma paisagem de calmaria: secretários de peso transitavam livremente, e o grupo governista parecia ter encontrado a estabilidade ideal para navegar pelas complexidades da eleição proporcional sem estilhaçar a base.

A análise aparece no artigo A fotografia da maturidade: O que a aproximação entre Dimas e Levi diz sobre o grupo de Zaffa em Gravataí.

Contudo, a Operação Persona implodiu essa superfície polida. A investigação revelou que uma servidora com cargo em comissão (CC) ligada ao gabinete do vice-prefeito, e com cargo diretivo no partido de Dr. Levi, figura entre os alvos de busca e apreensão. Diante de um terremoto dessa magnitude, a reação do alto escalão municipal soou protocolar demais para a gravidade dos fatos.

A nota divulgada por Levi — assinada curiosamente por sua campanha, e não por seu gabinete institucional, apesar de o escândalo envolver a estrutura da prefeitura em data anterior ao pleito — optou pela cautela extrema. Afastou julgamentos antecipados, ponderou que o vice estava debilitado na época em tratamento de saúde e buscou blindar a relação com Dimas.

Compreensível do ponto de vista tático, mas insuficiente. Faltou densidade à manifestação. Faltou, sobretudo, um gesto explícito de solidariedade que dissolvesse qualquer dúvida.

O mesmo vácuo de energia direta repetiu-se com Zaffa, que aguarda cópia do inquérito para evitar injustiças, prometendo exonerações apenas se houver confirmação de culpa.

É nesse cenário de meias-respostas que o vídeo de Dimas muda o eixo da gravidade.

Ao expor detalhes da investigação, o ex-deputado assume o risco de tensionar a corda com aliados, mas acerta na dose de transparência. No implacável Grande Tribunal das Redes Antissociais, o silêncio de quem é vítima abre flancos perigosos: a narrativa rapidamente tratava de inverter os papéis, transformando o agredido em vilão sob a pecha de censor. Ou, então, de buscar se beneficiar do caso em sua campanha à Assembleia Legislativa.

Dimas desmontou essa distorção ao revelar o que estava no centro do linchamento virtual: os ataques canalhas miravam a condição de saúde de seu pai, um idoso internado em clínica especializada com necessidade de cuidados 24 horas por dia. “Nem isso respeitaram”, sintetiza, ao expor a crueza de um jogo que extrapolou os limites do debate político legítimo.

A dimensão do problema ganha contornos ainda mais amplos quando se observa que o modus operandi descrito pelos investigadores ecoa em outros cantos da base governista. O presidente da Câmara, Dilamar Soares (Dila), aponta a mesma CC como suspeita de disparar críticas contra ele utilizando o perfil do partido que compartilham — o mesmo Podemos de Dr. Levi —, sob a desculpa inicial de que a conta havia sido “hackeada”. Segundo Dila, o mesmo perfil falso também disparou artilharia contra o vereador e também correligionário Paulinho da Farmácia.

E é justamente a autoridade policial quem confere o peso jurídico definitivo a essa engrenagem. A delegada Isadora Galian foi cirúrgica ao detalhar o cerco: “Fazia diversas publicações difamatórias. E em um determinado momento este perfil fez uma publicação envolvendo familiares do deputado. Então imediatamente ele procurou a delegacia e foi registrada ocorrência policial”. A apuração comprova a materialidade do perfil falso e o uso intencional de artifícios escusos para achincalhar adversários.

Enquanto a servidora alvo das buscas segue oficialmente intocada no Diário Oficial e no TRE — mantendo em tese a prerrogativa de circular e utilizar a estrutura pública (e partidária) que a investigação suspeita ter sido instrumentalizada —, os simbolismos da política exigem mais do que notas burocráticas.

Dimas lembrou em seu pronunciamento que a internet não é terra sem lei e que a política se faz dentro das quatro linhas. Ao cobrar responsabilidade e apostar na continuidade da apuração policial para encontrar os mandantes, ele joga luz sobre um lodo que os gabinetes de Zaffa e Levi parecem preferir abafar com panos quentes.

A diferença é que, na política contemporânea, sempre assombrada pelas redes antissociais, fingir normalidade diante de um inquérito policial não resolve a crise; apenas a adia. E a fatura dessa omissão, cedo ou tarde, cobra juros altos demais.

Você assiste ao vídeo completo publicado por Dimas clicando aqui.


LEIA TAMBÉM

Perfil falso e internet da prefeitura: Polícia Civil faz buscas em Gravataí contra suspeitos de difamar Dimas Costa nas redes

Dr. Levi afasta responsabilidade após assessora ser alvo de operação policial por difamação contra Dimas Costa; veja íntegra da nota

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Receba nossa News

Publicidade