Alerta de textão. É assunto chato, que exige atenção por um tempo maior do que o ritmo instagramável. Em administração pública, poucos instrumentos revelam tão bem a essência de um governo — e seu momento, palpável e metafísico, não de Oz — quanto a forma como ele maneja as duas pontas da tesoura orçamentária: a que corta e a que concede. É a essa análise que este artigo se dedica: o sincericídio do ‘Zaffa Mãos de Tesoura’.
Em uma coletiva de imprensa no auditório da Prefeitura de Gravataí, com a presença do presidente da Câmara, Dilamar Soares, o Dila, do líder do governo, Alex Peixe (PSDB), das presidentes da Acigra, Graziella Isoppo, do Sindilojas, Salete Peruzzo, de setores sociais e de jornalistas, o prefeito Luiz Zaffalon (PSD) promoveu uma verdadeira prestação de contas — um misto de transparência técnica e sincericídio político.
Mesmo às vésperas do período eleitoral, Zaffa abriu os números do município, detalhou o pacote de contenção de despesas do Decreto nº 24.522/2026 (assinado em 25 de agosto) e resumiu o drama: “Não é um problema só do prefeito. Sem cortes, não conseguiremos manter serviços essenciais”.
O plano de ajuste decreta a redução imediata de 10% nos cargos comissionados (CCs) e contratos emergenciais, além de um corte drástico de 40% nos contratos custeados com recursos livres. O objetivo de curto prazo é blindar o que é básico para a população — saúde, educação, segurança pública e transporte — diante de um horizonte fiscal dramático para o biênio 2026-2027.
Sigamos em tópicos.
A tempestade perfeita: VAF em queda, ‘GMdependência’ e a ameaça na Prometeon — ainda: a 6×1 e as dívidas
O diagnóstico apresentado por Zaffa demonstra que Gravataí vive o epicentro de uma tempestade perfeita, cujos reflexos econômicos mais duros na arrecadação sempre são sentidos com dois anos de defasagem. A escalada da crise seguiu uma sequência de eventos nos últimos anos: a pandemia em 2020 causou paradas na produção (GM, anote isso); a escassez global de componentes e layoffs travou a indústria em 2022; e a tragédia das enchentes em maio de 2024 desestruturou a economia estadual.
Essa sucessão de choques desaguou em um ano de 2026 financeiramente devastador, culminando em uma frustração de receita nas contas municipais de R$ 100 milhões apenas neste ano.
Os números da arrecadação refletem a gravidade da desaceleração industrial. O Valor Adicionado Fiscal (VAF) geral de Gravataí sofreu uma queda de 15%, enquanto o VAF específico da General Motors despencou 42%. Essa retração fez a fatia de Gravataí na arrecadação do ICMS no Rio Grande do Sul encolher de 3,4% para 2,0%, com projeção de nova queda para 1,7% em 2027.
Trata-se da tradução numérica do risco estrutural da ‘GMdependência’, já que a montadora responde por metade da arrecadação municipal.
A tensão escalou após a visita da direção da Prometeon ao gabinete do prefeito. A fabricante de pneus para veículos pesados, herdeira da antiga operação da Pirelli e que emprega cerca de 1.200 a 1.360 trabalhadores na cidade, anunciou que pode encerrar a produção em Gravataí.
“Passou pela cabeça toda a história da Pirelli, onde gerações de gravataienses trabalharam”, desabafou Zaffa, alertando que a perda de competitividade e a falta de salvaguardas nacionais podem contagiar outros setores: “Logo pode ser a GM”.
Para tentar impedir o fechamento da Prometeon, Zaffalon buscou o coordenador da bancada gaúcha no Congresso, deputado Afonso Hamm. O parlamentar indicou que uma comitiva da cidade só conseguirá reuniões em Brasília com deputados e senadores “depois da eleição”. O prefeito já avisou que estará presente junto com a comunidade.
Zaffa evitou polarizações rasas: ressaltou que não se trata de “culpar Lula” pela boa relação com a China, maior parceiro comercial do Brasil, lembrando que a retirada de proteções ao setor pneumático contra a concorrência asiática desleal (que vende produtos abaixo do custo de matéria-prima nacional) começou na gestão Bolsonaro — aliado de Trump e seu tarifaço, que também atinge o setor — e segue paralisada por omissão do Congresso Nacional na proteção da indústria nacional.
A crise de caixa de Gravataí espelha um fenômeno amplo. Dados da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) indicam que 54% das prefeituras brasileiras operam no vermelho e 80% apontam a crise financeira como seu maior desafio. Para piorar, conforme Zaffa, há fatores nacionais como juros elevados, o custo da transição para a Reforma Tributária em 2027 e a eventual aprovação da redução da jornada de trabalho (fim da escala 6×1 para 5×2) devem encarecer contratos terceirizados — especialmente na saúde — entre 10% e 15%, sem que os municípios tenham margem para absorver novos custos fixos.
Na conta do horror não está, aí por convicção, estratégia retórica ou ideologia, possíveis efeitos positivos, como apontam defensores da escala 5×2, como a criação de vagas de emprego e o efeito multiplicador do consumo: mais tempo livre com o salário mantido pode se transformar em dinheiro circulando no comércio — mas isso é tema tão profundo quanto polêmico, e cujo detalhamento cabe em outro artigo.
Frente a esse cenário, o modelo fiscal da gestão pauta-se, conforme o prefeito, pela busca de rigor nas contas públicas, visando preservar a capacidade de pagamento do Poder Executivo diante de um Orçamento que alcançou a casa de R$ 1,2 bilhão.
Entretanto, conter despesas é apenas metade da receita. A outra metade exige recuperar receita sem asfixiar o contribuinte. Foi nessa linha que o Executivo formatou o Novo Refis, programa de recuperação fiscal desenhado para buscar até R$ 138 milhões em créditos tributários e não tributários em dívida ativa.
Ao oferecer descontos de até 100% em juros e multas para quitação à vista — e parcelamentos que chegam a 60 meses —, o município tentou injetar liquidez nos cofres sem elevar alíquotas.
A mesma lógica pragmática foi aplicada na repactuação de passivos históricos. O caso mais emblemático foi a dívida de R$ 50 milhões acumulada junto à Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, referente ao Hospital Dom João Becker, equacionada em um acordo de 33 parcelas.
Há, porém, pressão de outros credores, de dívidas de diferentes tempos, prazos e governos.
A pressão dos serviços essenciais e o limite do funcionalismo — mesmo sob ameaça de greve
Mesmo gastando mais do que arrecada há dois anos, Gravataí tem mantido aportes acima dos limites constitucionais, conforme o prefeito. O município aplica 23% da sua receita em saúde (o mínimo legal é 15%) e 25% em educação.
O Hospital Dom João Becker consome R$ 7 milhões mensais dos cofres municipais para manter o atendimento portas abertas. “Hoje o Becker é o pronto-socorro da Grande Porto Alegre. E nunca fechou a emergência, antes, durante ou depois da pandemia. Precisa de mais investimento? Sim. Mas sozinhos não há como”, afirmou Zaffa.
De acordo com ele, a prefeitura também arca com custos que deveriam ser estaduais: Gravataí possui hoje um efetivo de guardas municipais superior ao de policiais militares atuando na cidade.
Outro ralo financeiro é o transporte coletivo urbano. “Antes a passagem custeava o sistema. Agora é preciso R$ 1,5 milhão por mês em subsídio para as linhas municipais circularem”, lamentou o prefeito, ao classificar a tarifa local como a mais cara da Região Metropolitana e confirmar o lançamento do edital de nova licitação ainda em 2026.
Nas relações trabalhistas, Zaffa adiantou que o município atingiu o limite da Lei de Responsabilidade Fiscal (com 88% da receita comprometida) e não responderá às pautas do funcionalismo público — que cobra recomposição histórica de 29,8%, ganho real de 3%, vale-refeição de R$ 1.000 e retorno da licença-prêmio.
“Respeito as reivindicações, mas não tem como aumentar. Não há como assumir despesas permanentes”, disse, mesmo sob a ameaça de greve.
O prefeito garantiu a reposição da inflação e a quitação do 13º salário, lembrando que a folha já cresce naturalmente de 5% a 10% ao ano apenas com progressões de carreira.
O paradoxo de Gravataí: caixa próprio zero, mas recorde de investimentos externos
Durante a prestação de contas, Zaffalon fez questão de explicar o paradoxo de Gravataí. De um lado, os recursos próprios do município encontram-se no limite, com capacidade de investimento praticamente nula em 2026 e 2027, concentrando todo o caixa disponível no custeio da folha e de serviços essenciais. De outro lado, a cidade vive um volume recorde de investimentos captados via governos estadual e federal, além da iniciativa privada.
São obras concluídas, projetos com verbas externas e investimentos privados em andamento ou licenciados no município, destacam-se:
Na Infraestrutura Viária: Aplicação de R$ 100 milhões pelo Governo do Estado nas obras do complexo de duplicação da ERS-118 e no acesso à Avenida Brasil; recapeamento da ERS-020 até Taquara com aporte estadual de R$ 20 milhões; e execução de obras de drenagem e desassoreamento totalizando R$ 11 milhões.
Na Saúde e Assistência Social: Aportes federais do Novo PAC para a construção das Unidades Básicas de Saúde (UBS) Bonsucesso e São Judas, além do CAPS 3; destinação de R$ 10 milhões pelo Estado para a segunda fase da Emergência SUS do Becker; execução de obras na UBS Breno Garcia; implantação do Centro Dia para Idosos; montagem do posto de coleta de sangue via emenda parlamentar; e instalação do Tudo Fácil Gravataí com verba estadual.
Na Educação em Tempo Integral: Implantação de escola de tempo integral no loteamento Breno Garcia para 100 alunos (investimento estadual de R$ 40 milhões e entrega prevista para 2026) e construção da Escola Integral do Rincão da Madalena para 500 alunos (recursos federais do PAC, com entrega para 2027).
Na Prevenção de Cheias e Diques: Licitação de R$ 5 milhões para elaboração dos projetos dos diques e casas de bombas no Vale Ville, Vila Rica e Caça e Pesca; captação de R$ 2,9 bilhões do PAC Federal para obras de contenção na Bacia do Rio Gravataí; e alocação de R$ 1 milhão estadual para projetos nos diques do Passo dos Ferreiros, Itatiaia e Cedro.
Em Urbanização e Concessões: Elaboração da PPP da Iluminação Pública (em análise no TCE-RS) e investimento de R$ 42 milhões no programa Periferia Viva para a revitalização urbana do Rincão da Madalena.
Em Hub Logístico e Inovação Privada: Instalação dos condomínios logísticos LOG 1, 2 e 3 (com prospecção para o LOG 4), atraindo o centro de distribuição do Mercado Livre e a operação da Amazon; transferência do centro logístico da IESA (área de 14 mil m²); estruturação do projeto para aeroporto privado na Parada 107; e implantação do Instituto de Tecnologia e Computação (ITEC) no Prado Bairro-Cidade, uma espécie de ‘Caltech’ em Gravataí, que soma R$ 400 milhões em aportes privados e R$ 20 milhões do Estado para acessos viários.
A ‘ideologia dos números’ e O Mágico de Oz
Diante do quadro exposto, o prefeito propôs a transformação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (Codes) em um fórum permanente, gerido pela sociedade civil organizada (e não pelo Poder Executivo), para articular as demandas da cidade e buscar emendas parlamentares junto à bancada gaúcha em Brasília — onde cada deputado dispõe de R$ 250 milhões em emendas por mandato.
“Em dois anos pego o boné e vou embora, se tiver boné ainda…”, descontraiu o prefeito, projetando que “2028 será um ano melhor”.
A iniciativa de unir forças pela cidade recebeu o apoio das lideranças empresariais. As presidentes do Sindilojas, Salete Peruzzo, e da Acigra, Graziella Isoppo, apoiaram a mobilização comunitária, mas mantiveram o foco nas críticas setoriais aos impactos da redução da jornada 6×1.
Já o presidente da Câmara encerrou as participações na reunião defendendo que o momento exige encarar a “ideologia dos números” acima de divisões setoriais ou partidárias. Lembrou que reformas duras aprovadas no passado, como a da previdência municipal, garantiram mais de R$ 250 milhões em investimentos nos últimos anos.
“Não há Mágico de Oz. Não é momento para ideologia — Lula, Bolsonaro, tarifaço do Trump ou invasão chinesa. É preciso uma Gravataí unida. Força social é força política”, concluiu Dila.
Ao fim, O Mágico de Oz é uma boa metáfora.
Na literatura e no cinema, a revelação final da história é de que o Mágico por trás da cortina nada mais era do que um homem comum, incapaz de resolver os problemas da Cidade das Esmeraldas com soluções milagrosas — ou prestidigitação. Não há, na gestão pública de Gravataí, uma varinha de condão ou um decreto único capaz de fazer evaporar a frustração de R$ 100 milhões na receita ou o risco de desindustrialização.
Entretanto, a lição mais duradoura de O Mágico de Oz não é sobre a ilusão do líder, mas sobre a força da jornada coletiva: ninguém precisa — ou consegue — enfrentar seus dilemas sozinho.
Dorothy só encontra o caminho de volta para casa porque constrói uma aliança improvável ao longo da estrada de tijolos amarelos. Ela se une ao Espantalho — que julga não ter cérebro, mas articula as melhores saídas estratégicas para o grupo; ao Homem de Lata — que acredita não ter coração, mas transborda empatia e sensibilidade com a dor alheia; e ao Leão — que se diz covarde, mas extrai coragem das entranhas no momento em que os seus precisam de proteção.
Todos eles já possuíam as virtudes que buscavam, mas só descobriram sua verdadeira força quando passaram a caminhar juntos, após reconhecerem acertos, mas também expiarem erros.
Em Gravataí, a travessia até 2028 exige a mesma sabedoria. O sincericídio de Zaffa na exposição das contas municipais — bem como as medidas hoje necessárias e inadiáveis — é um capítulo indispensável nessa jornada.






