RAFAEL MARTINELLI

A resposta em bilhões da prefeita que veio da vila em Cachoeirinha

Ao assinar a licença que autoriza o início das obras do novo Parque Logístico de Cachoeirinha, nesta terça-feira (15), a prefeita Jussara Caçapava fez mais do que autorizar a movimentação de terra na área de 384 mil metros quadrados da Guardian Gestora. Ela colocou o carimbo executivo naquilo que, como já descreveu a presidente do CIC, Neiva Bilhar, tem potencial para ser uma “GM do e-commerce” local. Avanço, ainda, neste artigo, para outra assinatura, esta invisível, metafísica até, cometida pela prefeita de cento e poucos dias.

O projeto surge com ambição proporcional ao seu tamanho. Trata-se de um empreendimento bilionário que projeta a geração de milhares de empregos ao longo de suas seis fases. A primeira etapa já nasce polpuda: R$ 300 milhões em aportes diretos, com estimativa de criar 2.700 vagas diretas e cerca de 4 mil indiretas em até um ano e meio de obras. Tudo isso prevendo a preservação de um corredor ecológico equivalente a 30% da área total.

“A nossa gestão tem trabalhado para aproximar o município de empresas que querem investir e crescer aqui, e hoje estamos começando a ver esse trabalho se transformar em projetos concretos”, disse Jussara durante o ato de assinatura, ao lado do secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade, Samuel Rosa.

Para compreender o alcance do feito, é preciso contextualizar o mosaico econômico que se desenha na cidade. O aporte de R$ 1 bilhão da Guardian não é um fato isolado. Ele soma-se a um ciclo virtuoso de atração de investimentos que ultrapassa os R$ 2,7 bilhões aportados em um curto espaço de tempo.

Como já analisei, Cachoeirinha vive uma transição profunda. A cidade tenta transformar a fumaça das cinzas da saída da Souza Cruz em um polo logístico e tecnológico de alcance nacional. E os números sustentam essa tese.

Há o Parque Logístico Guardian, com R$ 1 bilhão em investimentos e até 20 mil empregos projetados. Há a megaplanta da Tellescom Semicondutores, com R$ 1 bilhão para a fábrica de encapsulamento e testes de chips, inserindo o município na corrida geopolítica dos semicondutores em parceria com a asiática Inari Amertron Berhad. Há o Data Center Tier III da Parks Tecnologia, com R$ 500 milhões voltados à infraestrutura de nuvem e Inteligência Artificial. E há o 3SB Parque Logístico, com R$ 200 milhões voltados a gigantes do e-commerce como Amazon, Shopee e Mercado Livre.

É um reposicionamento geopolítico regional agressivo. Se antes o município corria o risco de assistir passivamente a vizinha Gravataí liderar isolada o ranking de negócios e atrair grandes centros de distribuição, a orientação atual do governo municipal tem sido a de não perder mais investimentos.

Como lembrou Cláudio Ávila, assessor especial da prefeita e um dos cérebros do governo, em apresentações recentes a empresários, o foco obsessivo da gestão Jussara é desburocratizar e escancarar as portas da cidade para a geração de renda, deixando claro que a reconstrução do município não se faz com “dancinhas” em redes sociais ou “fantasias chinesas” — provocação à gestão anterior, cujo prefeito viralizava nas redes sociais e foi à China em busca de um empréstimo para o “Cachoeirinha 2050”.

O preconceito de classe que o anúncio expõe

Reputo, porém, que há um detalhe invisível — e por isso mesmo revelador — no contraste entre esses números bilionários e a rotina do debate político num município que busca escapar do lamento de ser identificada como “Pobre Cachoeirinha!”, pelas crises eternas e a mistura dos noticiários político e policial, com denúncias, operações, impeachments e cassações.

Como já escrevi em artigos anteriores, há uma camada subterrânea que contamina o julgamento sobre a prefeita Jussara Caçapava. Não se trata de blindar o governo de críticas administrativas, cobranças por zeladoria ou fiscalização de atos públicos — dever sagrado da imprensa e da oposição. Trata-se de expor o mecanismo social perverso que atua no Brasil quando uma mulher de origem popular, vinda da vila e fora dos padrões plastificados da estética instagramável, chega ao topo do poder local.

O sociólogo Jessé Souza explicou de forma cirúrgica como a sociedade brasileira estrutura a humilhação das classes populares. A exclusão não é apenas financeira; é simbólica. Ela define quem “merece” respeito ou autoridade antes mesmo de a pessoa abrir a boca.

Desde a sua chegada à Prefeitura, Jussara tem sido alvo de uma engrenagem recorrente de desumanização nas redes antissociais. Debocha-se do corpo, da estética, do sotaque, dos trejeitos. O fenômeno não é novo: foi assim com Rita Sanco em Gravataí, foi assim com Dilma Rousseff no plano nacional e é assim com Luiz Inácio Lula da Silva, eternamente reduzido por seus detratores a apelidos pejorativos que miram a sua origem social e física em vez do debate de ideias. Como bem pontuou a revista CartaCapital ao analisar esse mecanismo, ninguém costuma ofender um adversário chamando-o de “uísqueiro”; escolhe-se “cachaceiro” porque a cachaça é o marcador da classe popular. É o preconceito social travestido de linguagem política.

É curioso observar o constrangimento que o volume de investimentos atuais causa nessa estética da lacração. É fácil transformar uma mulher da periferia em meme ou caricatura física quando o debate é rebaixado ao algoritmo do escárnio. É substancialmente mais difícil desqualificar uma gestão que, no papel de indutora, destrava licenças de R$ 1 bilhão, atrai gigantes multinacionais de tecnologia e coloca o município na vanguarda do e-commerce gaúcho.

Ao fim, a assinatura desta terça-feira não encerra as cobranças legítimas que a população deve fazer à prefeitura. Mas estabelece um fato incontestável: enquanto a política rasa insiste em medir a capacidade de governar pela origem social ou por padrões físicos, Cachoeirinha vai assinando licenças, atraindo bilhões de reais e provando que o desenvolvimento econômico de uma cidade também é a forma mais contundente de responder ao preconceito.

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