São os fatos — aqueles chatos que atrapalham argumentos. Dimas Costa (PSD) é, sim, o candidato de Eduardo Leite (PSD) em Gravataí. Confirma-se na prática das ruas e na retórica dos palanques a descrição que dei ainda em 31 de janeiro de 2023, quando cunhei o termo “embaixador do governador em Gravataí”.
À época, quando Leite o convidou para assumir como secretário-adjunto dos Esportes e articulou sua posse na Assembleia Legislativa, uns tantos riram e acharam tratar-se apenas de amizade. Poucos atentaram para o critério jornalístico. O tempo, esse juiz implacável da Realpolitik, deu razão ao enquadramento.
Neste sábado (19), o roteiro não deixou margem para dúvidas. Dimas foi o maestro das agendas da candidatura do vice-governador Gabriel Souza (MDB) à sucessão no Piratini. A maratona começou em Cachoeirinha — com ato no comitê de Teté Caçapava (Avante), candidato a deputado federal, acompanhado da mãe prefeita Jussara Caçapava (Avante) — e desaguou em Gravataí, com a presença ostensiva do próprio governador.
Além do comício concorrido em um salão da Avenida Brasil — a 250 metros da obra da trincheira, intervenção que nos bastidores é descrita como “a obra do governador para o Dimas” na região onde nasceu e se criou —, Leite vestiu o figurino de cabo eleitoral. Caminhou lado a lado com Dimas pelo comércio da Otávio Schemes e pelas paradas, abordando eleitores, apertando mãos e pedindo votos.
A intimidade entre os dois — política e de amizade — é notória na aldeia, na política estadual e nas articulações na mansão do presidente nacional do partido, Gilberto Kassab, em São Paulo. Quem não lembra do aniversário de Dimas no CTG Aldeia dos Anjos, com a folclórica cantoria do governador entoando de Canto Alegretense a Evidências para 1,6 mil pessoas? O gesto virou símbolo de um alinhamento em que Dimas se atirou na frente das balas para defender o Piratini nas pautas mais difíceis, do pedágio na ERS-118 ao ICMS; polêmicas que não se confirmaram.
Não por acaso, no ato que reuniu 1,4 mil pessoas em março para lançar sua pré-candidatura, o prefeito Luiz Zaffalon (PSD) cravou o característico sincerício aristotélico: “O Dimas, esse Animal Político, é o embaixador do governador não só em Gravataí, mas em todo o Rio Grande do Sul”. E Jussara Caçapava emendou que ele já virou o “embaixador em Cachoeirinha e além”.
Dimas comete, assim com seu chefe Leite, o ‘extremo centrismo’: a opção por dialogar com os diferentes lados da ferradura ideológica em tempos de polarização. Como o próprio sintetiza: “Desconfie do político que quer te fazer brigar com os outros. Quem trabalha não tem tempo de ficar lacrando em rede social”. É a sua tentativa de traduzir o bilhão em obras estaduais em Gravataí e atração de investimentos privados com a participação do governador — como o complexo viário da ERS-118, o recapeamento da ERS-020, a Emergência SUS do Hospital Dom João Becker e o ITEC, a ‘Caltech’ gaúcha — no conceito de “deputado de resultados”.
No discurso do comício, o próprio Eduardo Leite já aderiu de porte à descrição do “embaixador”.
“O Dimas, lá na Assembleia, nos deu uma grande mão. Se entregou de corpo e alma para ajudar o nosso governo e para ajudar Gravataí. Todos vocês já sabem muito bem sobre o trabalho dele. Então está na mão de vocês aqui fazer o Dimas estar lá dentro da Assembleia, eleito no dia 4 de outubro, porque ele merece, Gravataí merece e a Região Metropolitana precisa de um cara como ele. O Estado precisa”, disse.
Caminhando entre o comércio, o governador reforçou o apelo direto: “Pessoal, tem uma decisão importante no dia 4 de outubro. E um cara que está preparado, conhece, foi nosso parceiro na Assembleia, é o Dimas. Ele representa, claro, Gravataí, a Região Metropolitana, mas mais do que isso: é um cara que ajudou a construir soluções importantes no Estado. Eu quero ver ele de volta na Assembleia Legislativa. Por isso, convido a votar 55.456”.
Dimas, por sua vez, fez questão de exaltar que Leite foi “o governador que mais investiu na história de Gravataí” e devolveu a cortesia com o devido enquadramento: “Se eu cheguei onde cheguei, se hoje tenho destaque nas obras que fiz, fiz porque eu tive um prefeito, um governador e um vice-governador que me abraçaram, que acreditaram em mim. E se ele (Leite) não me ajudasse eu não estaria lá. E se eu não estivesse lá talvez muita coisa não teria vindo para nossa cidade. E todo gravataiense, e todo morador deste estado deve ter gratidão pelo que foi feito pela nossa cidade. Muito obrigado, Eduardo Leite. Muito obrigado, Gabriel. As urnas de Gravataí vão reconhecer o que foi feito”.
Gabriel Souza também selou o compromisso do palanque governista: “Eu quero muito ver o Dimas na Assembleia Legislativa. E sou muito grato a tudo que o Dimas fez, faz e fará pelo Rio Grande do Sul, por Gravataí e pela nossa campanha… Quero muito vê-lo deputado estadual para nos ajudar nos próximos quatro anos a fazer o Rio Grande avançar, ir para frente e não ter retrocesso. Por isso, Dimas deputado, 55.456”.
Clique aqui para assistir vídeo com as falas e imagens do comício e caminhada.


O capítulo dos ‘Grandes Lances dos Piores Momentos’ — e o defensor de legado
E como a política da Aldeia é pródiga em cenas dignas da metafísica dos piores momentos, a caminhada reservou um episódio para entrar direto na crônica daquela que venho chamando de III Guerra Política de Gravataí (Zaffa x Alba; a I foi Abílio x Oliveiras e a II Bordignon x Stasinski).
Aconteceu quando a comitiva passou em frente ao comitê de Marco Alba e Patrícia Alba. Em cima do carro de som — dividindo o mesmo metro quadrado com Gabriel Souza, Dimas, o prefeito Luiz Zaffalon, o candidato ao Senado Frederico Antunes (PSD) e sua suplente de luxo, a vereadora Anna Beatriz da Silva (PSD), esposa de Dimas —, Eduardo Leite pegou o microfone e enviou saudações aos Alba.
Vale lembrar: Marco Alba, que é do mesmo MDB de Gabriel, concorre à Assembleia justamente contra Dimas; Patrícia disputa a Câmara Federal. Conforme o que o Seguinte: apurou, o casal não estava no comitê. Mas o governador saudar a porta do comitê dos seus opositores internos, enquanto embala de corpo presente a candidatura do seu ‘embaixador’, é o retrato acabado do ‘GreNal da Aldeia’. É o palanque onde todos juram apoio à chapa majoritária de Gabriel, mas necessitam de um cordão de isolamento imaginário para não saírem na mesma foto.
Ao fim, entre a biografia de filho de faxineira e cobrador de ônibus que lembra a origem, ex-vereador e ex-deputado estadual, formado em gestão pública, e a engenharia política capitaneada por Davi Severgnini — o ‘Zaffa do Zaffa’ e fiador do projeto de Dimas —, a engrenagem girou. Dimas consolidou sua travessia. Não é apenas um candidato na disputa; é um projeto viável que carrega grupo, entrega e história. Se o eleitorado vai chancelar a conta no dia 4 de outubro, as urnas dirão. Mas uma coisa ficou indiscutível: a embaixada de Leite em Gravataí e na Região Metropolitana tem dono, endereço e mandato nas ruas.
Leite, não só por amizade, mas por cálculo político, quer Dimas eleito. Ele enxerga no político alguém com lealdade suficiente para defender seu legado, quando deixar o governo.
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