Associo-me ao artigo do jornalista Leonardo Sakamoto, publicado pelo UOL. Sigamos no texto:
Quando a fumaça da guerra ideológica se dissipa no Supremo Tribunal Federal, sobra uma paisagem menos épica do que aquela vendida pelas torcidas políticas. De um lado, André Mendonça, inflado na Paulista como um ungido do combate à corrupção pelo bolsonarismo. Do outro, Alexandre de Moraes, tratado como xerife da reação aos ataques contra a democracia. Entre eles, porém, circulam personagens, contratos e milhões que mostram que o dinheiro não costuma pedir certificado ideológico antes de entrar pela porta.
Cézar Feitoza, Fabio Serapião e Marcela Mattos revelaram no UOL, hoje, que o Instituto Iter, ligado a Mendonça, recebeu R$ 5,2 milhões do empresário da mineração Lucas Kallas. Segundo o próprio instituto, os repasses foram interrompidos e a devolução começou em janeiro de 2026, antes de Mendonça assumir a relatoria das investigações relacionadas ao Banco Master — mas muito depois que Daniel Vorcaro já havia sido exposto como bandidão.
Kallas era parceiro de negócios de Vorcaro. E é cliente do escritório da esposa de Alexandre de Moraes, que também havia assinado um contrato de R$ 130 milhões com a empresa do banqueiro. Um vazamento mostrou mensagens de Vorcaro para Moraes, pedindo de interferência na PF e PGR à ajuda para não ser preso. Mendonça pediu à PF para reunir as mensagens sobre Moraes, mas não sobre Dias Toffoli, Nunes Marques e Luiz Fux, que também aparecem nas conversas do banqueiro.
E não informou que ele próprio havia recebido Vorcaro, apresentado a ele por um deputado hoje investigado pela PF, em reunião fora do STF e que não estava na agenda.
E, correndo por fora, está Flávio Bolsonaro, que pediu R$ 130 milhões (olha o número mágico aí de novo!) e recebeu ao menos R$ 70 milhões. Disse que foi para o filme Dark Horse, mas a Polícia Federal investiga se parte não foi desviada para seu irmão conspirar contra o Brasil nos Estados Unidos. E como todo sabemos, é pândego chamar o dinheiro de Vorcaro de privado depois que ele mamou grana de aposentadorias de servidores do Rio, do Amapá, de outros lugares.
Não é necessário inventar uma conspiração para enxergar o problema. Enquanto as redes sociais organizam o país em arquibancadas e distribuem certificados de pureza, o poder econômico circula por corredores bem menos preocupados com essa divisão. Empresários fazem negócios, contratam escritórios, financiam instituições e procuram ministros. O dinheiro é ecumênico.
Isso não significa que receber recursos, advogar para um investigado ou conversar com empresários constitua, por si só, ilegalidade. Significa algo mais elementar: ministros de uma Suprema Corte e candidatos à Presidência da República deveriam compreender que conflitos de interesse não começam apenas quando um crime é provado, mas quando as relações privadas se tornam suficientemente próximas dos assuntos públicos para produzir dúvidas razoáveis sobre independência, transparência e imparcialidade.
O Estado brasileiro não pode exigir da sociedade confiança baseada apenas na autoridade de suas cadeiras. Confiança institucional depende também de o mesmo rigor para aliados e adversários, transparência diante de potenciais conflitos e critérios que não mudem conforme o nome escrito na capa do processo.
Têmis aparece de olhos vendados porque não deveria reconhecer quem está diante dela. O problema começa quando a venda parece transparente o bastante para distinguir amigos, inimigos e conhecidos.
Investigar e esclarecer as relações envolvendo Vorcaro, Kallas, o Instituto Iter, escritórios ligados a familiares de ministros, integrantes do próprio STF e Dark Horse não deveria ser tratado como ataque aos envolvidos. É uma forma de defender a democracia. Mas para que isso seja limpo e justo, precisa ser todo mundo. Sem poupar ninguém.
O espalhamento das evidências contra outros nomes mostra que muita gente não se indigna com processos estruturais que corroem essa democracia, como a promiscuidade entre público e privado, envolvendo o poder político e o poder econômico. Indignam-se apenas contra Moraes, tanto que passam pano para Flávio e Mendonça. Esse tipo de seletividade descarada, que aplaude um ministro porque ele é contra o outro ministro que você odeia, prova que, dez anos depois, não aprendemos absolutamente nada com os erros da Lava Jato.






