Gesto é linguagem. E a ausência de gesto vira discurso. Na política, os ausentes são mortos temporários, como dizia Millôr.
Em maio, no primeiro capítulo desse enredo, analisei aqui a icônica foto da frente ampla canhota em Gravataí. Ali, reunidos em torno da unidade para apoiar Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Juliana Brizola (PDT), estavam dirigentes do PT, PSOL, PCdoB, PV e PDT. O objetivo da imagem era límpido como água de poço, como dizia o velho Leonel: produzir nitidez e simbolizar a coesão da esquerda. Mas o que roubou a cena nos bastidores foi o detalhe no canto do enquadramento. Enquanto a vereadora petista Vitalina Gonçalves, o decano pedetista José Amaro Hilgert e os demais aliados esticavam os dedos polegar e indicador desenhando a marca do presidente, o ex-vereador e então pré-candidato a deputado estadual Thiago De Leon (PDT) mantinha as mãos devidamente recolhidas.
Naquela ocasião, De Leon preferiu o silêncio. Respondeu ao questionamento me deixando no vácuo — atitude típica da “esfinge de 30 anos”, que só fala quando a polêmica lhe pertence e serve para abastecer seu concorrido feed de Instagram. Amaro Hilgert tentou contemporizar, sustentando que ele havia, sim, feito o gesto em outras fotos daquela mesma tarde. Mas o símbolo que ecoou nos grupos de WhatsApp foi a recusa estampada.
Pois bem. Agora a esfinge resolveu ‘falar’. Ou melhor, resolveu gesticular.
Na última quarta-feira (16), em agenda de caminhada que teve como ponto de concentração simbólica a Praça Leonel de Moura Brizola — a ‘praça do quiosque’ —, De Leon finalmente rendeu-se à liturgia da frente ampla. Na companhia do ex-secretário estadual e candidato a senador Paulo Pimenta (PT), e cercado por quadros históricos do petismo local — como o ex-prefeito Daniel Bordignon, Rosane Bordignon e a ex-prefeita Rita Sanco —, a principal estrela pedetista de Gravataí não apenas esteve presente: ‘farmou aura’ ao figurino político completo.
Consegui a foto. Ao lado de Amaro Hilgert, do vice-presidente estadual do PSB e ex-vereador, Paulo Silveira, do presidente municipal socialista Luisão Stumpf e de Diego da Veiga Lima, vice de Bordignon na eleição de 2024, De Leon “fez o L”.
A cena encerra, em tese, o suspense estético sobre a sua disposição de navegar nas águas do lulismo. Mas abre um debate muito mais complexo sobre a sua trajetória e o timing do seu cálculo político.
A pergunta inevitável que fica nos bastidores da aldeia é: o que mudou entre o maio do “L reprimido” e o setembro do “L escancarado”?
Para entender a metamorfose, é preciso rebobinar a fita do seu ‘Norte via Sul’ — essa linha torta, semelhante aos trajetos mais intrincados do passado da Sogil, com a qual costumo definir o percurso ideológico de De Leon.
Depois de uma puberdade política simpática às teses do PSOL, ele desembarcou no PDT e começou uma caminhada firme rumo ao que passei a chamar de ‘extremo-centrismo’. Na eleição municipal de 2024, após flertar com o Bloco de Oposição Municipal (BOM), deu um cavalo de pau ideológico e virou candidato a vice-prefeito na chapa de Marco Alba (MDB) — político de centro-direita que votara em Jair Bolsonaro (PL) defendendo a pauta de Paulo Guedes. Batizei aquela aliança de chapa ‘MarxDonalds’. Perderam a eleição para o prefeito Luiz Zaffalon (PSD), mas o selo da conveniência pragmática ficou colado.
Logo em seguida, De Leon aceitou o convite para ser secretário-adjunto do governo Eduardo Leite (PSD) — o mesmo governador a quem criticava asperamente durante seu mandato na Câmara de Vereadores, sobretudo nas pautas do funcionalismo público. Ocupou o cargo, chegou a assumir a pasta interinamente e, enquanto esteve nos palácios de Porto Alegre, silenciou as baterias contra a gestão Zaffa, aliada de Leite.
Apenas ao deixar a máquina estadual é que vestiu novamente o figurino de opositor feroz, lançando sua pré-candidatura a deputado e inaugurando a fase da “Gravataí que ninguém mostra”. Trata-se daquela linha de vídeos hiperproduzidos nas redes antissociais, nos quais adota o tom grave e os enquadramentos estéticos inspirados na estética de influencers políticos como Nikolas Ferreira, Tabata Amaral ou Erika Hilton.
Entra aí o que costumo agrupar na categoria ‘Dos Grandes Lances dos Piores Momentos’. Nessa sanfona ideológica, os símbolos não param de colidir. Não bastasse a omissão inicial do “L”, viralizou nos grupos de WhatsApp o print de sua esposa criticando a proposta do fim da escala 6×1 com a provocação “preparem os bolsos e façam o…”. Embora De Leon guarde inteira razão ao sustentar que a esposa não é figura pública e tem opiniões próprias, a política não opera por critérios de justiça — opera por símbolos. O enquadramento maldoso ficou pronto: a estrela local do partido do trabalhismo de um lado; os interesses empresariais do outro.
Mais recentemente, engatou a demagogia do vídeo do Porsche, prometendo doar metade do seu subsídio parlamentar na Assembleia — bandeira populista que rebaixa o debate público ao sugerir que salário de político é luxo descartável, o que acaba por restringir a política aos ricos e herdeiros ou, na pior das hipóteses, empurrar o mandatário para a penumbra das rachadinhas e do financiamento obscuro.
Tudo isso revela o padrão do seu modelo político: um emaranhado de movimentações moldado para agradar ao algoritmo da vez. É o voto tratado como ‘Google AdSense’.

I-Juca-Pirama e a anedota russa
O gesto de “fazer o L” na Praça do Quiosque, ao lado de Pimenta e Bordignon, não deixa de permitir uma leitura de que De Leon busca por sobrevivência eleitoral. Afinal, além de Lula aparecer bem em pesquisas regionaisd, sem outras candidaturas locais da esquerda tradicional postas para a Assembleia Legislativa em Gravataí, havia um latifúndio político inteiramente desocupado. O eleitorado progressista da cidade precisava de uma referência.
No entanto, o reposicionamento tardio pode carregar um preço. A política costuma absorver mudanças de rumo, mas é implacável quando percebe o cheiro de cálculo excessivamente visível. Ao tentar transitar simultaneamente do liberalismo pragmático do governo Leite para a chapa ‘MarxDonalds’ de Marco Alba e, agora, desembocar no lulismo raiz de Pimenta, De Leon tenta dialogar com todos os públicos sem entregar nitidez a nenhum.
Como mencionei em análises anteriores, a trajetória do ex-vereador guarda algo da tragédia épica do I-Juca-Pirama: ao tentar abraçar todas as tribos e agradar a polos opostos, corre-se o risco de terminar, como nos versos de Gonçalves Dias, “rejeitado da Morte na guerra e dos Homens na paz”.
E é exatamente aqui que a anedota russa que citei quando ele recusou o gesto ganha seu desfecho definitivo.
Conta-se que um camarada saía do gabinete de Stalin murmurando entre os dentes:
— Que canalha bigodudo…
Beria, sempre vigilante, ouviu a praga e relatou imediatamente ao chefe. Stalin mandou chamar o camarada de volta e questionou, com olhar glacial:
— A quem você se referia, camarada?
O homem, sem piscar, respondeu:
— A Hitler, é claro!
Stalin voltou-se então para o seu chefe de polícia e perguntou:
— E você, camarada Beria, a quem achou que ele se referia?
Ao fim, naquela primeira foto sem o gesto, De Leon pareceu querer ser o camarada esperto da anedota. Murmurar o que o eleitor antipetista moderado desejava ouvir para não perder pontes à direita, enquanto mantinha a legenda trabalhista no peito para não perder a esquerda.
Agora, ao “fazer o L” na praça com o PT, De Leon finalmente escolheu o bigode. Resta saber se o movimento convence o eleitorado de que a conversão é fruto de convicção sincera ou meramente mais um ajuste no painel de controle do seu algoritmo eleitoral.
Porque o eleitor, no fundo, comporta-se exatamente como Stalin na anedota. Ele exige saber, sem ambiguidades ou malabarismos de feed, de que lado o candidato realmente está. E quando percebe que está sendo ludibriado por um cálculo artificial, o eleitor não perdoa.
Mata. Na urna, claro.






