RAFAEL MARTINELLI

#DasUrnas | O que De Leon ganhou nas urnas mas talvez não queira: O risco I-Juca Pirama de Gravataí

No #DasUrnas, siga diariamente quem ganhou, quem perdeu, quem empatou e os números e análises da eleição


A política, como venho insistindo cazuzianamente nas análises do #DasUrnas no Seguinte:, é um museu de grandes novidades. A eleição não para; mal esfriaram as memórias digitais das urnas eletrônicas de 2026, guardando perdedores sob a cama e consagrando vencedores, as metralhadoras rumo à Prefeitura em 2028 já disparam em alta velocidade contra o Sol. E, na geometria das urnas gravataienses, poucas figuras saem com boas performances — e ao mesmo tempo tão emparedadas por suas próprias escolhas — quanto o ex-vereador Thiago De Leon (PDT).

A ‘ideologia dos números’ apresentada pelas urnas da aldeia confirma o feito: sem mandato, operando com produções nas redes antissociais sobre “a Gravataí que ninguém te mostra” e aproveitando-se do pior momento do governo Luiz Zaffalon (PSD), De Leon não foi eleito mas cravou notáveis 12.868 votos para deputado estadual dentro do município (15.590 no RS). Superou ninguém menos que seu ex-cabeça de chapa, o ex-prefeito Marco Alba (MDB), de quem foi vice na aliança que apelidei de MarxDonalds em 2024 e que amargou 12.462 votos locais.

De Leon consagrou-se, matematicamente, como o nome mais votado do campo de centro-esquerda em Gravataí. Mas aí reside a ironia fina da política: ganhou um espaço estratégico que, no fundo, talvez ele não queira habitar.

Sabe bem o sociólogo que gesto é linguagem e a ausência de gesto vira discurso. Na política, os ausentes são mortos temporários, como dizia Millôr. Lembram da saga do “L”? Primeiro, na foto da frente ampla canhota em maio, De Leon manteve as mãos recolhidas. Foi a fase do ‘L reprimido’, tentando murmurar ao eleitorado antipetista o que este desejava ouvir para não queimar pontes à direita, enquanto preservava o trabalhismo no peito.

Somente em setembro, na Praça Leonel de Moura Brizola, cercado pelos petistas Paulo Pimenta, Daniel Bordignon, Rita Sanco e Vitalina Gonçalves, o ex-vereador cedeu à liturgia e finalmente “fez o L”. Parecia o desfecho da clássica anedota russa sobre o camarada que murmurava contra o ‘canalha bigodudo’: pressionado pela realidade eleitoral, De Leon escolheu o bigode.

Analisei a saga mais recentemente em De Leon finalmente “faz o L”: o algoritmo do voto e o desfecho da anedota de Stalin.

Porém, fechado o primeiro turno, a esfinge voltou ao seu casulo do algoritmo. No segundo turno da eleição presidencial, De Leon simplesmente não afixou absolutamente nada em apoio ao presidente Lula em sua principal e mais potente ferramenta de construção política: suas redes sociais. O apoio esfriou no instante em que o feed deixou de exigir o voto direto para a sua própria nominata. É a política tratada como Google AdSense do voto: engaja-se quando monetiza eleitoralmente; silencia-se quando o cálculo de danos à audiência de centro-direita fala mais alto.

O comportamento I-Juca Pirama e o Fitzcarraldo 2028

Ao flutuar da juventude psolista para o PDT, virar vice de Marco Alba na centro-direita, assumir a secretaria-adjunta do governo Eduardo Leite (PSD) e, depois, voltar ao figurino de opositor feroz, De Leon vive a tragédia do I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias. Ao tentar dialogar com todas as tribos do feed e não entregar nitidez a nenhuma, corre o risco de terminar, como nos versos do poeta, “rejeitado da Morte na guerra e dos Homens na paz”.

E os obstáculos para o futuro imediato não são pequenos.

Há a asfixia da cláusula de barreira: O PDT encolheu nacionalmente para apenas seis deputados federais e naufragou na regra de desempenho da Emenda Constitucional nº 97. Sem fundo partidário encorpado e sem tempo de TV, De Leon enfrentará a sobre-humana tarefa de manter a estrutura de um partido desidratado no município.

Há dificuldades para montagem da nominata: Na bet da política local, a aposta de momento é que De Leon dispute uma vaga de vereador em 2028. Mas, sem mandato e liderando uma legenda sem verba federal, como atrair nomes fortes para montar uma nominata competitiva no PDT?

Há um muro com os Alba: Uma reaproximação com Marco Alba para 2028 se mostra virtualmente inviável, especialmente após Alba declarar apoio aberto a Flávio Bolsonaro (PL).

E há, ainda, o cerco do PT e a ‘Ópera de Fitzcarraldo’: Enquanto De Leon hesita no apoio a Lula, o PT move suas peças com pragmatismo. O partido articula a filiação de Tami Paveglio (ex-PSOL) e estuda a ‘importação’ do vereador Léo da Costa (PT de Cachoeirinha) para liderar o projeto de oposição em Gravataí em 2028. Recentemente, De Leon até participou de um churrasco com o grupo de Tami, mas a migração dela para a legenda petista é dada como certa nos bastidores — fato que revelei em artigo anterior e que não recebeu qualquer contestação dos citados.

Analisei a ‘ópera’ em A ‘Ópera de Fitzcarraldo’ da esquerda: Tami Paveglio no PT, a importação de Léo da Costa e a utopia de erguer um teatro na selva bolsonarista de Gravataí.

Ao fim, o pano de fundo de toda essa articulação é a realidade dura das urnas de Gravataí. A cidade manteve seu DNA profundamente conservador e bolsonarista: Flávio Bolsonaro (PL) venceu com 55,91% dos votos (78.624 votos) contra 33,59% de Lula; Luciano Zucco (PL) cravou 59,57% para o Governo do Estado; e a abstenção atingiu o recorde de 23,02%. Arrastar o barco da oposição morro acima na aldeia exige o esforço de Fitzcarraldo.

De Leon provou que tem apelo popular, domina a estética instagramável e sabe ‘farmar aura’ em períodos de desgaste da gestão municipal. Mas a eleição majoritária e a liderança de um campo ideológico cobram coerência contínua, não apenas aparições bissextas na praça.

Ao recusar o engajamento pleno no segundo turno e tentar equilibrar-se na ferradura ideológica para não perder o eleitor de centro, Thiago De Leon continua a vender uma ilusão de neutralidade. O problema é que o eleitorado — assim como Stalin na anedota — cada vez mais (goste-se ou não: é o espírito do tempo) exige saber de que lado o candidato realmente está. E quando percebe que está sendo alimentado por um cálculo de feed, o eleitor não perdoa.

Mata. Na urna, claro.

Leia outras análises do #DasUrnas clicando aqui.

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Jesus não está para jogo

Crítica à mercantilização da liderança religiosa no cenário eleitoral brasileiro. Compartilhamos o artigo de Valdemar Figueiredo (Dema), pastor idealizador e coordenador do Observatório da Cena Política Evangélica pelo Instituto Mosaico,

Leia mais »

Receba nossa News

Publicidade