A política é, por definição, um museu de grandes novidades, como tenho insistido cazuzianamente nas análises do #DasUrnas no Seguinte:. A eleição, como o tempo, não para. Mal as urnas de 2026 esfriaram suas memórias digitais, guardando os perdedores sob a cama e consagrando vencedores, a corrida rumo à Prefeitura em 2028 já dispara em alta velocidade contra o Sol. No campo da esquerda em Gravataí, a movimentação que ganha corpo nos bastidores tem contornos da célebre odisseia de Fitzcarraldo, a obra-prima cinematográfica de Werner Herzog.
No filme, o protagonista Brian Sweeney Fitzgerald, tomado pela obsessão utópica de construir uma casa de ópera no meio da floresta amazônica, impõe a si e aos seus o desafio absurdo de transportar um barco a vapor de centenas de toneladas por cima de uma montanha. Em Gravataí, a montanha não é feita de rocha e barro, mas de votos: o eleitorado conservador e profundamente bolsonarista que domina a aldeia. E a ‘ópera’ que a esquerda tenta encenar é voltar, um dia, ao comando que exerceu na Prefeitura entre 1997 e 2011 — até o golpeachment parlamentar que derrubou Rita Sanco (e debutou neste dia 15).
A moral da história de Fitzcarraldo nos ensina que a obsessão por um sonho pode ser, simultaneamente, uma demonstração extraordinária da força humana e uma forma de loucura. Sugere que a grandeza de um sonho e a sabedoria de persegui-lo são coisas bem distintas; a paixão por um ideal não torna os meios automaticamente justos nem garante que o sonhador saiba exatamente onde vai parar. Na Gravataí que se desenha eleição após eleição desde 2018, arrastar o ‘barco’ da esquerda morro acima parece exigir o mesmo esforço sobre-humano e quase irracional do personagem de Herzog.
Para entender a metamorfose que se avizinha na esquerda local, é preciso primeiro olhar para a régua federal. Como detalhou a reportagem do Nexo, a Emenda Constitucional nº 97, aprovada na reforma eleitoral de 2017, impôs uma cláusula de barreira cada vez mais severa. Em 2026, as legendas precisavam eleger pelo menos 13 deputados federais distribuídos por nove estados ou somar 2,5% dos votos válidos para a Câmara Federal nacionalmente (com mínimo de 1,5% em nove estados) para garantir o acesso ao fundo partidário e ao tempo de propaganda na TV e no rádio.
Ao todo, 16 das 30 legendas do país naufragaram na regra de desempenho. Entre elas, partidos históricos e de forte apelo ideológico, como o PDT e a federação PSOL-Rede. Conforme explicou ao Nexo a cientista política Brenda Andujas, a grande dificuldade de quem bate nessa trava é a manutenção de estrutura, funcionários e formação política sem a verba federal. O PSOL, apesar de votações expressivas e de eleger 14 federais (com fenômenos como Erika Hilton e Sâmia Bomfim), não alcançou a dispersão geográfica exigida em nove estados. O PDT, por sua vez, encolheu para apenas seis cadeiras federais, vítima do envelhecimento de sua estrutura e do vácuo deixado pela debandada de lideranças.
Essa asfixia financeira e estrutural produz estilhaços imediatos na ponta do sistema: as cidades.
Sigamos em tópicos.
A migração de Tami Paveglio e o rejuvenescimento do PT
Em Gravataí, a principal atingida pelo fracasso do PSOL em superar a cláusula de barreira é Tami Paveglio. Estrela do partido na cidade, Tami tem no currículo uma caminhada persistente: em 2020, disputou a Prefeitura e conquistou 3.026 votos, ficando em 4º lugar entre seis concorrentes. Em 2024, concorreu à Câmara Municipal e somou 1.310 votos. Já neste pleito de 2026, buscou uma vaga na Câmara dos Deputados e obteve 1.558 votos no Rio Grande do Sul (sendo 870 deles na aldeia).
Todos vão negar publicamente por enquanto, como manda o figurino da diplomacia partidária, mas os bastidores fervilham: sem a viabilidade do PSOL após a cláusula de barreira, o destino traçado de Tami Paveglio é a filiação ao PT. O cálculo matemático é pragmático: estivesse abrigada na legenda petista em 2024, a sua votação teria garantido a ela uma vaga no Legislativo municipal, ao lado da atual única vereadora petista Vitalina Gonçalves.
Esse movimento de atração faz parte de uma estratégia maior. O PT de Gravataí, que construiu sua história sob a égide e a hegemonia de quadros históricos como Daniel Bordignon e Rita Sanco, passa por um inevitável e urgente processo de atualização de lideranças e rejuvenescimento. A eleição de 2024 deixou isso evidente: ao tentar retornar à Prefeitura após anos de inelegibilidade, Bordignon enfrentou um cenário eleitoral profundamente alterado, terminando em 3º lugar com 18.739 votos (14,95%), longe do desempenho que o consagrou no passado e soterrado pela votação expressiva do prefeito Luiz Zaffalon e de Marco Alba, políticos de centro-direita e hoje votos abertos para Flávio Bolsonaro, assim como fizeram com o pai, Jair.
A vereadora e presidente do PT de Gravataí Vitalina Gonçalves — hoje uma das principais estrelas e vozes do partido na Região Metropolitana, com trânsito direto e intimidade política com figuras do primeiro escalão nacional, como o ministro Paulo Pimenta e o próprio presidente Lula (a ponto de atuar como mestre de cerimônias do comício de Lula em Porto Alegre) — não apenas concorda com esse redesenho, como participa ativamente da articulação para arejar as fileiras da oposição.
A ‘importação’ de Léo da Costa e a memória do passado
Mas a engenharia política da esquerda vai além das divisas municipais. Está em curso uma articulação ousada para ‘importar’ um nome de peso para disputar a Prefeitura de Gravataí em 2028: o vereador Léo da Costa (PT), de Cachoeirinha.
Léo converteu-se em uma supernova no PT gaúcho. Historiador e ambientalista, ele transformou a pauta do desenvolvimento sustentável e a defesa de ecossistemas locais — como a área do Mato do Júlio, principal esponja na tragédia da enchente de 2024 — em um potente ativo político e eleitoral, conquistando um engajamento massivo nas redes sociais. Foi o vereador mais votado de Cachoeirinha em 2024 (com 3.117 votos em sua estreia eleitoral aos 26 anos) e confirmou o fenômeno nas urnas de 2026 ao somar 20.545 votos para deputado estadual no Rio Grande do Sul. Destes, 8.260 votos foram cravados em Cachoeirinha (onde foi o campeão para a Assembleia) e outros 3.715 votos em Gravataí.
O movimento de trazer Léo da Costa para liderar o projeto em Gravataí é um espelho inverso da história recente da região. No passado, Miki Breier iniciou sua carreira política em Gravataí — onde também pelo PT foi vereador e vice-prefeito de Daniel Bordignon —, consolidou-se como deputado estadual e, posteriormente, foi ‘exportado’ para Cachoeirinha, onde se elegeu prefeito em 2016. Agora, a esquerda gravataiense estuda fazer o caminho oposto para tentar furar o bloqueio conservador da aldeia.
De Leon, o I-Juca-Pirama e a poeira do ‘extremo-centrismo’
Enquanto o PT desenha a atração de Tami e a ponte com Léo da Costa, a oposição local ainda tenta decifrar os movimentos do ex-vereador Thiago De Leon (PDT) — uma esfinge política. Bem nas urnas proporcionais em Gravataí neste 2026, De Leon alcançou 12.868 votos na cidade para deputado estadual (15.590 no estado), superando inclusive a votação do ex-prefeito Marco Alba dentro do município.
Apesar do desempenho nas urnas, o PDT de De Leon também naufragou na cláusula de barreira. E o ex-vereador vive o drama de sua própria ferradura ideológica. Após transitar pela esquerda na juventude psolista, migrou para o PDT, aceitou ser candidato a vice-prefeito em 2024 na chapa do conservador Marco Alba (MDB) — na aliança que apelidei de MarxDonalds —, virou secretário-adjunto no governo Eduardo Leite (PSD) e insistiu no discurso populista da doação de salário. Colou, porém, as críticas ao governo Zaffa 2 (que atravessa o pior momento) em seus vídeos para as redes antissociais sobre “a Gravataí que ninguém te mostra”.
No período eleitoral, De Leon relutou longamente até “fazer o L” ao lado de Paulo Pimenta, Vitalina, Tami e do próprio Bordignon. E, mesmo após o gesto tardio na Praça Leonel de Moura Brizola, manteve um padrão: pós-primeiro turno, evaporou das suas redes qualquer postagem engajada pró-Lula. O reposicionamento do pedetista lembra o poema I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias: ao tentar agradar a todas as tribos do algoritmo, corre o risco de terminar “rejeitado da Morte na guerra e dos Homens na paz”.
Elas no Pongo da Morte
A grande questão que subsiste sobre todas essas movimentações da esquerda é a realidade dura das urnas locais. Gravataí manteve seu DNA profundamente conservador e bolsonarista em 2026.
Os números da eleição majoritária na aldeia mostram a altura da montanha de Fitzcarraldo.
Presidente: Flávio Bolsonaro (PL) venceu com folga na cidade, somando 78.624 votos (55,91%), contra 47.237 votos (33,59%) de Lula (PT).
Governador: Luciano Zucco (PL) varreu os votos locais com 77.976 votos (59,57%).
Senado: A dobradinha da extrema-direita dominou a preferência gravataiense, liderada por Sanderson (PL), com 74.949 votos (30,65%), e Marcel van Hattem (NOVO), com 73.973 votos (30,25%).
Câmara Federal: A onda conservadora alavancou o vice-prefeito Dr. Levi Melo (Podemos) como o mais votado da cidade, com 12.215 votos, seguido de perto por Patrícia Alba (MDB), com 12.079 votos.
Assembleia Legislativa: O único eleito direto da cidade foi Dimas Costa (PSD), com 21.053 votos na aldeia (42.540 no RS), operando o ‘extremo-centrismo’ ao lado do governo estadual e municipal.
Além disso, a abstenção atingiu o recorde de 23,02% (44.217 eleitores ausentes). Somados brancos e nulos, quase um terço da cidade ignora o processo decisório ou rejeita as alternativas apresentadas.
Ao fim, a tentativa do PT e da esquerda de se reestruturar — absorvendo a votação de Tami Paveglio, oxigenando o partido com Vitalina e buscando o carisma regional de Léo da Costa, além de jogar uma boia também para De Leon — é um movimento mútuo de resiliência política. Na epopeia de Herzog, o barco que sobreviveu ao Pongo da Morte após ser transportado por uma montanha se chamava Molly Aida. Em Gravataí, também são elas a encarar com protagonismo as corredeiras do conservadorismo.
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