Vamos com mais um Cell Broadcast não de alerta meteorológico, mas de textão. Insistente, repetitivo, chato para alguns. Reputo necessário.
Nas noites em que a tempestade desaba sobre o Rio Grande do Sul e o poste de iluminação dança ao vento na avenida, a previsão do tempo deixou de ser conversa banal de elevador. E o leitor de Cachoeirinha e Gravataí sabe exatamente do que estou falando: vivemos sob a angústia visceral retratada na tirinha do Rodrigo Geraldi que citei anteriormente neste Seguinte: — acorde-se consultando a cota do Rio Gravataí com o pavor estampado no rosto de quem aguarda o resultado de uma biópsia. É a dor visceral de uma sociedade traumatizada, em que consultar a régua do rio antes de escovar os dentes virou método de sobrevivência para saber se a cidade continuará existindo no dia seguinte.
Essa neurose coletiva tem respaldo científico. Estudo da Coorte PAMPA (UFPel/UFRGS/Fiocruz) mostrou que 83,8% da população gaúcha teve a vida impactada pelas enchentes de maio de 2024, gerando um excesso de 77% em sintomas de ansiedade e 129% em depressão. A dor, contudo, é profundamente desigual: a cada alerta vermelho emitido pela Defesa Civil e pelo IPH/UFRGS, a água reencontra com cruel pontualidade ‘os pobres de sempre’ na Vila Rica e no Barnabé.
E é em meio a esse cenário de sofrimento psíquico e vulnerabilidade física que venho batendo, em uma série de artigos neste espaço, numa mesma tecla: a física não lê boletim oficial, a água não vota e os rios ignoram solenemente as divisas desenhadas nos mapas municipais. Alertei sobre a entrega apressada da obra de R$ 47 milhões na Zona Norte de Porto Alegre — erguida pelo Dmae em (palavras do prefeito da Capital, Sebastião Melo) “ritmo chinês” de dois meses para blindar o Aeroporto Salgado Filho e os pôlderes 7 e 8 — e contrapus essa urgência com a lentidão enfrentada pelos vizinhos.
A provocação central que lancei e mantive era direta: para onde vai a água represada pelo concreto da Capital? Alertei que, enquanto Porto Alegre celebra o concreto seco, Cachoeirinha corria o risco de virar a ‘bacia das almas’ metropolitana. A prefeita Jussara Caçapava buscou um habeas corpus preventivo ao anunciar a contratação de uma auditoria técnica independente, pressionada por mobilizações que uniram de ponta a ponta a ferradura ideológica local — do vereador Leo da Costa (PT) ao vice-prefeito Mano do Parque (PL) e à Comissão de Moradores do Parque da Matriz. Afinal, a Secretaria da Reconstrução Gaúcha fixa em longos 13 meses o prazo para mero diagnóstico de anteprojeto, jogando as obras físicas para 2028 e a conclusão para 2031.
A confirmação técnica desse alerta não veio de um panfleto político, mas de uma voz aborígine e respeitada da gestão ambiental gaúcha. Em entrevista ao Sul21, o engenheiro geólogo Sérgio Cardoso, ex-presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Gravataí, validou ponto por ponto a argumentação que venho apresentando.
Ao criticar as “soluções imediatistas” adotadas pela Prefeitura de Porto Alegre, Cardoso explicou com clareza a mecânica do desastre.
“Na Bacia do Gravataí, perto do aeroporto, fizeram uma interrupção para não deixar o aeroporto embaixo da água. Evitaria que a água entrasse para dentro de Porto Alegre, mas essa água que não vai entrar em Porto Alegre vai para Alvorada e Cachoeirinha. Para algum lugar ela vai”, afirmou o geólogo.
Cardoso detalhou ainda o nefasto “efeito de remanso”, provocado quando o Guaíba sobe e faz o Gravataí — um rio de planície com desnível topográfico irrisório de apenas 10 metros ao longo de quase 100 km — inverter seu fluxo habitual. Com os canais e galerias bloqueados para salvar o Salgado Filho, a água represada nos banhados é retirada por bombas flutuantes e atirada na calha do rio.
“Eles colocaram aquelas bombas para, quando ficar cheio de água aqueles banhados, elas pegarem essa água e jogarem para dentro do Gravataí. Só que, do lado de fora, onde ela vai ser jogada, tem gente morando: Alvorada, Cachoeirinha e Gravataí”, destacou Cardoso.
Sérgio Cardoso cabe com exatidão no adágio popular: “mais sabe o diabo por ser velho do que por ser diabo”.
O ambientalista não ostenta apenas o saber técnico de sua formação como engenheiro geólogo. Ele carrega a própria memória viva da hidrologia gaúcha. Comandou os principais fóruns ambientais da Região Metropolitana de Porto Alegre nas últimas três décadas, acumulando vivência em governos, parlamentos e na Associação de Preservação da Natureza do Vale do Gravataí (APN-VG). Como testemunho: é um dos raros homens influentes do setor que continuam pobres apesar das milionárias polêmicas ambientais — se é que me entendem.
Uma primeira lição que tomei dele, ainda nos anos 90, foi ao ouvir a diferença fundamental entre políticas de governo e políticas de estado. As primeiras são imediatistas, passionais e, quase que invariavelmente, eleitoreiras; duram quatro ou oito anos e priorizam inaugurações de impacto visual instantâneo — como a barricada erguida em “ritmo chinês” para proteger o capital no aeroporto. As segundas são perenes, estruturantes e desenhadas para guiar a sociedade através de gerações. Cardoso apela sempre para que as políticas de estado sejam o farol indispensável para a navegação coletiva na crise climática.
E esse farol aponta para o descumprimento do artigo 171 da Constituição Estadual, que institui as bacias hidrográficas como unidades básicas de planejamento.
“Não tem como fazer planejamento de política pública município por município. Principalmente quando envolve a água. A água não obedece à territorialidade do prefeito ou dos vereadores”, resumiu Cardoso, na entrevista.
Enquanto o Dmae, o governo de Porto Alegre e o Ministério Público Estadual tentaram pacificar o debate com números — alegando que os estudos projetam elevação máxima de apenas “sete milímetros” (ou 5,5 mm no Arroio Feijó), o que o diretor Vicente Perrone comparou didaticamente a “pouquíssimos pingos d’água numa bacia de 2 mil km²” —, a desconfiança da população traumatizada é legítima. Como critiquei ao tratar do ‘populismo da enchente’, hidrologia exige dados e modelagem, não slogans. Se a modelagem de Porto Alegre aponta milímetros, ótimo; mas quando a régua sobe, qual é a margem de erro aceitável para quem já perdeu tudo?
O hiato e o significado real da ‘bacia das almas’
A realidade impõe um hiato assustador. O governo estadual abriu a licitação de R$ 5,7 milhões para atualizar os estudos da Bacia do Gravataí e destravar R$ 2,9 bilhões do Novo PAC (destinados aos diques em Cachoeirinha, Gravataí, Alvorada e barramentos no Banhado Grande). Porém, como os projetos executivos só estarão prontos em 2028, e a entrega assíncrona ameaça desviar a água para os elos mais fracos da correnteza, a Região Metropolitana viverá anos de extrema vulnerabilidade.
É aqui que a expressão ganha toda a sua força trágica. Historicamente, “ir para a bacia das almas” carrega duas origens profundamente marcantes.
Há a gênese das esmolas da igreja: refere-se às vasilhas dispostas nas portas das igrejas medievais para recolher pequenos trocados destinados às “almas do purgatório”, originando o sentido de adquirir ou fazer algo por uma ninharia, na liquidação do desespero.
E também a Extrema Unção: deriva dos rituais de fim de vida, em que a bacia com água e óleos sagrados ficava ao lado do leito do enfermo terminal, simbolizando o último instante, a situação crítica no limite do sufoco.
Ao selar a Zona Norte da Capital e jogar o excesso para o leito comum do Gravataí sem que a defesa de Cachoeirinha esteja pronta, a engenharia de Porto Alegre empurra a cidade vizinha para a ‘bacia das almas’. Condena-a ao limite do sufoco, sujeita à extrema unção hidráulica, forçada a aceitar o refugo d’água represado no aeroporto enquanto aguarda promessas que só se concretizarão na próxima década. Como citou o escritor moçambicano José Luandino Vieira: “A verdade e a mentira não podem ser separadas enquanto não soubermos tudo”. Hoje, com as revelações de Cardoso, sabemos mais.
Bebendo a tempestade
Para concluir esta leitura, vale recorrer a outro adágio de tintas diabólicas, atribuído ao general e ex-presidente mexicano Porfirio Díaz: “Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”.
Nesta realidade de forças desproporcionais da Região Metropolitana, Cachoeirinha e Gravataí restam tragicamente como o México.
Em parte, estão perto demais de Porto Alegre e da esmagadora força política da Capital, que impõe intervenções isoladas e ignora a gestão integrada das bacias. Em outra parte, estão perto demais do aeroporto — e da colossal força econômica que ele representa. Na hierarquia perversa da reconstrução pós-2024, o capital e a infraestrutura da Capital ganham muros de R$ 47 milhões erguidos em dois meses; aos municípios vizinhos e aos moradores do Parque da Matriz, restam os estudos para 2028, a conclusão das obras em 2031 e a torcida para que o céu não volte a fechar.
Na ‘bacia das almas’, enquanto negacionistas, populistas da retroescavadeira e gestores imediatistas seguem atropelando a ciência, a população assiste a tudo com a perplexidade retratada nos versos de Chico Buarque:
“Eu semeio o vento / Na minha cidade / Vou pra rua e bebo a tempestade / Vou pra rua e bebo a tempestade / Vou pra rua e bebo a tempestade”.
Ao fim, a pergunta de R$ 2,9 bilhões que paira sobre a Bacia do Gravataí continua sem resposta no curto prazo: as políticas de estado e a inteligência hidrodinâmica conseguirão prevalecer a tempo, ou a física impiedosa da natureza chegará primeiro outra vez?





