CARLOS WAGNER

A imprensa e a disputa de Lula e Flávio pelas alianças no segundo turno

Se ppersistir o atual empate técnico nas pesquisas de intenção de votos para as eleições presidenciais entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45 anos, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, que concorre à reeleição, as alianças entre os partidos terão um grande peso para a disputa do segundo turno. Em especial com os partidos do Centrão, o bloco político que costuma se alinhar a todos os governos, independentemente de quem vencer as eleições, que se declararam neutros no primeiro turno. Claro, como manda o manual do bom jornalismo, não podemos deixar de fora a possibilidade de que um candidato vença no primeiro turno. Mas a lógica indica que os eleitores voltarão às urnas no último domingo de outubro para escolher entre Flávio e Lula. Dentro dessa realidade, já é hora da imprensa começar a especular quem são os políticos que estão trabalhando na construção das alianças entre os partidos.

O ambiente mais difícil para negociar essa aliança será se for pequena a diferença de votos entre os dois candidatos que forem para o segundo turno. Lembro aqui o seguinte. No primeiro turno vários partidos aliados do bolsonarismo, entre eles os do Centrão, se declararam neutros porque não concordaram com a decisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 71 anos, de escolher o filho mais velho, o senador Flávio, para substituí-lo na disputa contra Lula. O preferido deles era o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), 51 anos, que sem o apoio do ex-presidente preferiu tentar a reeleição para o governo paulista. Dois motivos impedem Bolsonaro de concorrer: o primeiro é ter sido declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2023. O segundo, porque está cumprindo uma pena de 27 anos de prisão por ter se envolvido em uma tentativa de golpe de estado. Alegando a intenção de preservar na família o seu legado político, no final de 2025 Bolsonaro indicou Flávio para concorrer em seu lugar. Na época, a torcida dos aliados que defendiam a candidatura de Tarcísio era que o senador tivesse um fraco desempenho nas pesquisas eleitorais. “Quebraram a cara”. Bolsonaro conseguiu passar o seu prestígio político para o filho, que se mostrou competitivo e igualou Lula nas pesquisas. Em maio, Flávio chegou a perder 10% das intenções de votos por conta do seu envolvimento com o “Caso Vorcaro, do Banco Master”. Uma reportagem publicada no site The Intercept Brasil revelou áudios do senador cobrando do banqueiro Daniel Vorcaro, 41 anos, parcelas atrasadas de um valor total de R$ 134 milhões que ele teria prometido para custear a produção do filme Dark Horse, o Azarão, que conta os bastidores da campanha que elegeu Bolsonaro presidente em 2018. Vorcaro era dono do Banco Master, que foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro de 2025 por fraudes financeiras que causaram um prejuízo de R$ 52 bilhões a clientes e ao sistema bancário. Ele teria repassado R$ 68 milhões e Flávio pedia o restante. Preso preventivamente desde março, Vorcaro caiu em desgraça quando se descobriu a rede de influência e proteção que ele construiu em torno de si oferecendo favores e presentes a altas autoridades.

Flávio, no entanto, conseguiu recuperar os pontos perdidos nas pesquisas e voltou a empatar com Lula nas intenções de voto. O presidente também teve os seus contratempos durante a campanha – há abundância de reportagens na internet. Citei os dois problemas do senador, a descrença dos aliados de que conseguiria ser eleitoralmente competitivo e a perda e posterior recuperação de 10% nas pesquisas, para dizer que no segundo turno ele entra na disputa das alianças com outros partidos em pé de igualdade com Lula. O presidente da República não tem problemas para compor com os partidos da esquerda. Mas precisa também do apoio dos partidos do centro. Nessa disputa por apoios entre Lula e Flávio deverá ter um papel muito importante o presidente do PSD, Gilberto Kassab, 66 anos. Candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado (PSD-GO), 76 anos, Kassab é um dos políticos mais experientes e competentes na arte de construir alianças durante as campanhas eleitorais. O PSD é um importante partido do Centrão. Outra figura relevante na questão das alianças políticas é o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), um observador e operador competente. Além de Lula, Flávio e Caiado, mais 10 candidatos concorrem à Presidência da República, e eles serão procurados para apoiarem as chapas vencedoras do primeiro turno. Até aqui, descrevi o que poderá acontecer caso a diferença entre o primeiro e o segundo colocados do primeiro turno seja pequena. Caso seja superior a 15% dos votos válidos, por exemplo, o vencedor não terá problemas de formar alianças. Já vi acontecer. Não fui muito a fundo sobre as possíveis articulações no caso de uma diferença pequena no primeiro turno por julgar necessário fazer uma ampla avaliação do quadro atual, tendo em vista que a disputa de segundo turno é outra eleição. Faltam duas semanas para a votação em primeiro turno. Até aqui, é escasso o volume de reportagens a respeito das articulações das alianças no segundo turno. É hora da reportagem entrar em campo, como dizem os colegas da cobertura esportiva.

Para colocar um ponto final na nossa conversa. Vou repetir aqui uma história que tenho lembrado sempre que tenho oportunidade. A cobertura eleitoral atualmente tem um pequeno punhado de repórteres nas estradas procurando os brasileiros dos sertões para ouvi-los sobre a disputa. A maior parte das reportagens tem focado na análise dos números das pesquisas. Claro, são informações importantes e necessárias. Mas faz falta o olhar e a atenção do repórter para os eleitores dos sertões.

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