Religião, família, pátria, raça e gênero se tornaram marcadores de pertencimento político, enquanto igrejas, redes sociais e organizações comunitárias disputam a definição de quem representa o Brasil. Compartilhamos o artigo de Maurício Alfredo, publicado em Diálogos do Sul Global e Opera Mundi
Ao amanhecer após um dia de votação, a crônica política costuma se apressar em produzir suas tabelas de acertos e erros. Multiplicam-se as análises de gabinete empenhadas em responder às perguntas de sempre: Quem venceu? Quem perdeu? Qual marqueteiro acertou o tom? Qual candidatura errou a estratégia na reta final? Essa aritmética eleitoral, contudo, é insuficiente para apreender a transformação mais profunda que se move por baixo do resultado das urnas.
Tomar o resultado de um primeiro turno apenas pelo prisma da eficiência das campanhas é confundir a febre com a infecção. A eleição não é o ponto de partida para explicar o Brasil; é um sintoma que revela, no momento, o estágio de transformação em que a sociedade se encontra.
I. Para além das urnas: a eleição como sintoma
Para interpretar o cenário desenhado pelas urnas, é preciso deslocar o eixo da pergunta. O debate relevante não está apenas em saber por que determinado candidato obteve êxito ou naufragou em sua estratégia, mas em formular uma questão sociológica essencial: que sociedade é esta que tornou possível, desejável e representativo esse resultado?
A urna eletrônica registra uma escolha feita em um determinado momento, mas aquilo que ela expressa não foi produzido nos poucos meses de campanha e de propaganda oficial. O voto é o resultado de processos sociais, econômicos, culturais e simbólicos que se acumulam muito antes da abertura das urnas.
Ele é atravessado pelas experiências concretas do cotidiano, pelas relações de trabalho, pela percepção de segurança e de pertencimento, pelas igrejas, pelas redes sociais, pelas conversas nos aplicativos de mensagem e pelas formas como cada indivíduo interpreta o mundo e reconhece a si mesmo dentro dele.
Por isso, reduzir a eleição ao cálculo das alianças, ao desempenho dos marqueteiros ou ao tempo de televisão é olhar apenas para a superfície de um processo muito mais amplo. A política não se organiza exclusivamente em torno de programas, propostas e interesses materiais.
Ela também mobiliza valores, identidades, afetos, medos, expectativas e formas de pertencimento. O eleitor não escolhe apenas entre diferentes maneiras de administrar o Estado; em determinadas circunstâncias, escolhe também a comunidade política à qual deseja pertencer e a visão de sociedade que reconhece como legítima.
É nesse deslocamento que a eleição deixa de ser apenas um resultado a ser explicado e passa a ser um fenômeno a ser interpretado. O voto do último domingo não revela somente quem venceu ou perdeu uma disputa eleitoral. Ele expõe, ainda que de maneira fragmentária, as fraturas e transformações que atravessam a sociedade brasileira. Para compreender o mapa das urnas, é preciso olhar menos para os candidatos e começar a encarar a sociedade que os produziu.
II. O nó do pertencimento: a fratura entre o material e o simbólico
A política não deixou de ser uma disputa entre programas de governo. Mas, para parcelas importantes da sociedade, ela passou a incorporar com força crescente dimensões de identidade, pertencimento, comunidade, reconhecimento e modo de vida. É nesse terreno que aparece um dos paradoxos centrais das últimas décadas: conquistas sociais importantes não foram acompanhadas, na mesma proporção, por uma transformação das estruturas que produzem e reproduzem as desigualdades brasileiras.
Os avanços sociais foram reais. Milhões de pessoas tiveram acesso a direitos, renda, educação, consumo e políticas públicas que alteraram concretamente suas condições de vida. O problema foi interpretar esses avanços como se eles, por si mesmos, fossem capazes de enfrentar as raízes mais profundas do subdesenvolvimento brasileiro.
Melhorar a conjuntura da vida das pessoas não significa, necessariamente, transformar as estruturas que organizam a sociedade. A concentração de renda e patrimônio, a desigualdade territorial, a concentração fundiária, o racismo estrutural, a dependência econômica e a precarização do trabalho continuaram operando, ainda que sob novas formas.
Mudou-se muito na vida cotidiana, mas não se transformou suficientemente a estrutura que produz as desigualdades. E essa contradição teve consequências que ultrapassam a dimensão econômica.
Enquanto se imaginava que a inclusão material seria capaz de consolidar uma nova experiência de cidadania, enfraqueciam-se os espaços coletivos nos quais essa cidadania poderia produzir vínculos, solidariedade e identidade política.
Sindicatos, associações comunitárias, organizações de trabalhadores e bases partidárias perderam parte de sua capacidade de organizar a vida coletiva, pressionados pela precarização do trabalho, pela fragmentação social, pela uberização e pelo individualismo associado à lógica neoliberal.
Não se trata de idealizar essas estruturas nem de supor que tenham desaparecido. Trata-se de reconhecer que se enfraqueceram algumas das instituições que historicamente transformavam indivíduos em sujeitos coletivos.
É nesse ponto que a dimensão simbólica ganha centralidade. A política não se sustenta apenas na entrega de políticas públicas. Ela também precisa produzir vínculos, reconhecimento, identidade e sentido de comunidade. Quando essas formas de pertencimento se enfraquecem, abre-se um espaço que será necessariamente disputado.
E nenhum espaço social permanece vazio por muito tempo.
Na ausência dos laços comunitários tradicionais, o sentimento de desamparo e o desejo de comunidade foram acolhidos por novas estruturas.
Redes de templos neopentecostais, ecossistemas de influenciadores digitais, fóruns em redes sociais e movimentos de reação conservadora passaram a oferecer não apenas um discurso político, mas uma verdadeira comunidade imaginada.
Uma rede de solidariedade concreta, acolhimento espiritual, suporte econômico informal e uma gramática moral capaz de dar sentido ao caos do mundo cotidiano, oferecendo algo que muitas vezes é mais poderoso do que um programa de governo: a sensação de pertencimento a um “Nós” coeso contra o “Eles”.
A força eleitoral de candidaturas tão distintas quanto as de Nikolas Ferreira (jovem articulador das pautas cristãs, conservadoras e antipetistas), Lucas Pavanato (igualmente jovem, alinhado ao antifeminismo e à oposição às pautas identitárias) e Erika Hilton (expressiva voz da população LGBTQIA+, dos movimentos negros e do campo progressista) é altamente simbólica e ajuda a revelar essa transformação. Seus eleitorados não são homogêneos, nem podem ser reduzidos a uma única identidade. Mas suas trajetórias expressam, em campos políticos distintos, a capacidade de transformar identidade, reconhecimento e pertencimento em linguagem de mobilização.
A questão, portanto, não é afirmar que os eleitores deixaram de se preocupar com políticas públicas ou interesses materiais. É perceber que esses elementos passaram a ser interpretados, cada vez mais, a partir de comunidades de pertencimento e de visões de mundo compartilhadas.
Essa reorganização do pertencimento reflete-se diretamente no perfil da representação política eleita. A força de candidaturas tão distintas quanto as de Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Erika Hilton é altamente simbólica e ajuda a revelar essa transformação. Seus eleitorados não são homogêneos, nem podem ser reduzidos a uma única identidade. Mas suas trajetórias expressam, em campos políticos distintos, a capacidade de transformar identidade, reconhecimento e pertencimento em linguagem de mobilização.
Por isso, o que se manifesta nas urnas não pode ser compreendido simplesmente como rejeição às conquistas sociais ou como uma reação irracional a elas. Há algo mais profundo em movimento. Melhoramos a conjuntura, mas não transformamos suficientemente a estrutura. E a estrutura permaneceu produzindo condições sociais, econômicas e simbólicas para que diferentes projetos de sociedade disputassem o imaginário brasileiro.
III. A batalha pelo imaginário e a invenção do “povo”
Deslocar a leitura da eleição da engenharia partidária para o campo das disputas por identidade e pertencimento conduz a uma questão ainda mais profunda: quem tem o poder de definir o que é o povo brasileiro?
Ao refletir sobre a formação histórica e cultural do país, Darcy Ribeiro mostrou que o povo brasileiro não é uma realidade pronta, anterior à própria história. Ele é resultado de um processo longo, contraditório e violento, no qual povos indígenas, populações africanas e europeias, submetidos a relações profundamente desiguais de dominação, produziram uma sociedade nova, marcada simultaneamente pela mistura e pela hierarquia, pela diversidade e pela desigualdade. A brasilidade, nesse sentido, não é uma essência imutável: é uma construção histórica.
É justamente por isso que a identidade nacional não pode ser tratada como algo neutro ou definitivamente estabelecido. Se o Brasil foi historicamente construído por diferentes povos e experiências, permanece aberta a disputa sobre qual Brasil deve ser reconhecido como legítimo. Quem pertence verdadeiramente à comunidade nacional? Quais valores podem ser apresentados como autenticamente brasileiros? Quem pode falar em nome do povo? E, sobretudo, quem tem autoridade para definir quem pertence ao “nós”?
O imaginário nacional participa diretamente dessa disputa. Ele não se resume a símbolos folclóricos, hinos ou imagens oficiais. É uma estrutura de representação que organiza a maneira como uma sociedade interpreta a si mesma: de onde veio, quais valores considera legítimos, quais ameaças reconhece, quem identifica como parte de sua comunidade e que futuro considera desejável. Disputar o imaginário, portanto, é disputar a própria definição da realidade nacional.
É nesse terreno que parte dos conflitos políticos contemporâneos ganha uma dimensão que ultrapassa programas de governo. Religião, família, pátria, raça, gênero, tradição e moralidade deixam de ser apenas dimensões da vida social e passam a funcionar como marcadores de pertencimento. A disputa já não consiste somente em definir quais políticas públicas devem ser implementadas, mas em estabelecer quais valores podem falar em nome da sociedade e quais grupos podem reivindicar a condição de representantes legítimos do Brasil.
Os símbolos nacionais tornam-se, assim, objetos de disputa. Nossa Senhora Aparecida é um exemplo particularmente revelador. Ao longo da história, sua imagem foi incorporada a diferentes representações da identidade brasileira, inclusive como símbolo de uma sociedade marcada pela diversidade e pela experiência religiosa popular.
Mais recentemente, porém, outros discursos procuram associar a identidade nacional a uma determinada concepção cristã de sociedade, sintetizada em expressões como “Brasil de Jesus”. Não se trata apenas de uma disputa teológica. Trata-se também da tentativa de estabelecer quais valores religiosos, morais e culturais devem ocupar o centro da representação legítima do país.
É nesse contexto que a recuperação contemporânea de expressões como “Deus, Pátria e Família” ganha significado político. O lema, associado historicamente ao integralismo brasileiro, movimento de inspiração fascista dos anos 1930, reaparece ressignificado em novos contextos e linguagens, especialmente no campo conservador brasileiro. O que importa analiticamente não é apenas sua origem histórica, mas aquilo que sua recuperação revela: a tentativa de articular religião, nacionalidade, família e ordem em uma determinada representação do que deveria ser o Brasil. Sob essa lógica, a pátria deixa de ser o espaço comum da pluralidade para se tornar o monopólio de uma maioria moral legítima.
O debate eleitoral, portanto, descola-se das propostas de gestão e atinge o seu núcleo mais inflamável. Quando categorias como religião, raça, classe, família e patriotismo são instrumentalizadas para estipular a “autenticidade” do cidadão, a disputa do primeiro turno revela sua dimensão mais radical: o embate não é mais apenas sobre qual projeto de governo aplicar, mas sobre quem tem o direito de ser e de falar em nome do Brasil.
IV. Imaginário é poder: a infraestrutura da hegemonia
Constatar que a política se converteu, em parte, em uma disputa pelo imaginário nacional e pelo sentido de pertencimento é apenas metade do diagnóstico. Para não recair em uma leitura idealista da realidade, é preciso dar um passo adiante e reconhecer uma premissa fundamental: imaginários não flutuam no ar. Eles são produzidos, sustentados e difundidos por relações materiais de poder.
Disputar quem é o “povo brasileiro” ou qual moralidade deve reger a nação não é um mero exercício de oratória. Essa disputa exige infraestrutura, financiamento, presença territorial e controle sobre os meios de mediação da vida social. O imaginário é o terreno no qual a hegemonia se constrói, mas a hegemonia depende de uma infraestrutura capaz de fazer determinadas visões de mundo circularem, encontrarem comunidades que as reconheçam e se transformarem em senso comum.
É nesse ponto que a dimensão estrutural do poder aparece em sua forma mais concreta. A pergunta sobre quem tem autoridade para definir o Brasil desdobra-se em outra, talvez ainda mais decisiva: quem dispõe dos meios para fazer essa definição prevalecer? Quem controla ou influencia os canais de comunicação e as plataformas digitais que organizam a circulação das informações?
Quem dispõe de recursos econômicos para financiar redes permanentes de comunicação, produção cultural e formação de opinião? Quem possui presença capilarizada nos territórios e oferece, por meio de igrejas, associações, redes de solidariedade e outros espaços comunitários, não apenas serviços, mas também acolhimento, sociabilidade e sentido de pertencimento? E quem consegue ocupar instituições e espaços de formação de opinião a ponto de transformar valores particulares em referências aparentemente universais?
A questão, portanto, não é apenas quem fala, mas quem consegue ser ouvido, por quem, em quais espaços e com quais recursos. É essa desigualdade na capacidade de produzir e fazer circular sentidos que transforma determinadas interpretações do país em referências dominantes, enquanto outras permanecem restritas, marginalizadas ou invisíveis.
A vitória eleitoral de um projeto de sociedade, nesse sentido, não começa no período oficial de campanha. As urnas registram, em determinado momento, o resultado de processos de socialização política que se desenvolvem muito antes delas. Enquanto a política institucional frequentemente se concentra no calendário eleitoral, nas alianças partidárias e nas disputas imediatas pelo governo, outras formas de organização atuam continuamente sobre a vida cotidiana, articulando recursos econômicos, presença territorial, redes comunitárias, comunicação e tecnologias digitais.
A disputa pelo poder passa, assim, também pela capacidade de construir comunidades, produzir identidades e definir aquilo que parece natural, legítimo ou desejável.
É sob essa perspectiva que o resultado eleitoral não pode ser explicado apenas pela eficiência de uma campanha ou pela escolha racional entre diferentes programas de governo. A eleição expressa também uma disputa anterior e mais profunda pela produção de sentidos: quem consegue oferecer uma interpretação do país na qual determinados indivíduos se reconhecem, quem consegue transformar inseguranças e expectativas em uma narrativa comum e quem consegue estabelecer os limites simbólicos entre o “nós” e os “outros”.
Por essa razão, reconhecer que a política se tornou também uma disputa pelo pertencimento e pelo imaginário não significa abandonar a luta por transformações econômicas e sociais. Significa compreender que não há transformação estrutural duradoura sem disputar também as formas de pertencimento, os vínculos comunitários e os sentidos por meio dos quais uma sociedade interpreta a si mesma. A estrutura produz desigualdades, mas a permanência dessas desigualdades também depende das representações que as tornam aceitáveis, naturais ou inevitáveis.
A eleição passa. O resultado das urnas também. A disputa pelo poder de definir o Brasil, porém, continua no dia seguinte — nos territórios, nas igrejas, nas redes, nas instituições, nas escolas, nos meios de comunicação e em todos os espaços nos quais se produz aquilo que uma sociedade reconhece como seu “nós”. É ali, muito antes da próxima eleição, que continua sendo disputado o direito de dizer o que é o Brasil e quem tem o direito de falar em seu nome.
BIBLIOGRAFIA
ALFREDO, Mauricio. Entre Aparecida e o “Brasil de Jesus”: religião, poder e disputa pelo imaginário nacional. Le Monde Diplomatique Brasil, 2 de outubro de 2026. Disponível em: https://diplomatique.org.br/religiao-poder-e-disputa-pelo-imaginario-nacional/
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.






