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Foi constrangedor o féretro de reações de alguns políticos apoiadores do bolsonarismo em Gravataí após a vitória de Lula (PT). Nas redes antissociais, esses políticos, assim como fez na noite do domingo o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), em seu momento ‘Flavinho di Papai’, flertaram com a molecagem antidemocrática e com teses conspiratórias de curso primário de golpismo.
Em meio ao mimimi, foi o Policial Evandro Coruja (PL) quem demonstrou a grandeza que faltou ao seu desde sempre ‘Zero Um’ nacional (já está em fuga? Sério? Olha aí a oportunidade para a direita se livrar do sequestro ideológico da família…). Justo o ‘bolsonarista-raiz’ da aldeia.
Aquele que já chamou Lula de “9 dedos” — expressão que, convenhamos, custou o debate da Globo para o filho de Jair — não foi carpideira como colegas vereadores e outros políticos (alguns que talvez caibam na descrição “gambiarra”, que o próprio parlamentar usou na campanha para os bolsonaristas de última hora).
Coruja, que já carimbou na eleição seus 12.755 votos para deputado estadual (sendo 8.155 em Gravataí), optou pela democracia. Logo após o encerramento da apuração, gravou vídeo reconhecendo a vitória de Lula:
“O resultado das urnas não foi o que esperávamos, mas a nossa convicção permanece a mesma. Seguiremos firmes na defesa dos nossos valores (…) Faremos uma oposição forte, firme e incansável ao governo do PT. A luta não termina nas urnas.”
Comentei lá na publicação do parlamentar: “Temos diferenças imensuráveis, mas esse teu pronunciamento demonstra grandeza. A eleição acabou. As urnas decidiram em primeiro e segundo turno. O sol nasce pra todos nós amanhã”.
Infelizmente, a caixa de comentários do vereador foi tomada por questionamentos ao pleito. Arrisca perder votos, assim como não caiu bem na bolha, conforme pesquisa da Quaest, Flávio ter pedido desculpas a Lula no debate sobre o “9 dedos”.
Enquanto Coruja comportou-se como um democrata, o novato Hiago Pacheco (PP) entregou um cálculo tão pueril quanto o do governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) — que, antes da apuração, mostrando sua competência para vender imagem de competente e técnico, passou cinco minutos em vídeo aplicando um ‘modelo matemático’ para antecipar uma vitória de Flávio por 6 milhões de votos.
Hiago postou nas redes sociais: “A direita fez a maior bancada da história na Câmara Federal. A direita fez a maior bancada da história no Senado. Elegeu governadores nos estados mais populosos. Mas todos esses eleitores preferiram votar em Lula. A conta não fecha…”.
O eleitor não sabe em bolha, vereador. #FicaDica.
O veterano Clebes Mendes (PSDB) preferiu embarcar numa molecagem antidemocrática semelhante, comparando o processo eleitoral brasileiro ao regime da Venezuela. Já Bombeiro Batista (Republicanos) tentou ser mais equilibrado, mas não resistiu e tocou o ‘apito de cachorro’ ao insinuar sobre “as duas horas mais longas…”.
A qual prorrogação o vereador se referia? À extensão de duas horas requerida por ambas as campanhas e concedida após as 17h — consequencia da inação do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques (com ‘K’, indicado pelo próprio Jair Bolsonaro), e do presidente do STF, Edson Fachin. O próprio ministro Kassio reconheceu a lisura do pleito em rede nacional após a apuração.
Ah, os fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos… Vamos à matemática — essa matéria chata que a maioria dos políticos não curte:
No cenário do primeiro turno nacional, Flávio Bolsonaro liderava com 56.104.503 votos (47,03%), e Lula aparecia em segundo com 53.879.538 votos (45,16%). Na etapa decisiva do segundo turno, Lula reverteu o quadro ao atingir 64.256.232 votos (51,79%), superando os 59.826.041 votos (48,21%) obtidos por Flávio Bolsonaro.
Na virada do segundo turno, Lula agregou 10.376.694 votos à sua votação nacional, garantindo o quarto mandato no Planalto com uma margem de vantagem final de 4.430.191 votos sobre o adversário.
Durante o horário estendido da votação (entre 17h e 19h), o TSE registrou exatos 34.330 votos computados em todo o território nacional. Sustentar que 34 mil votos apurados no período estendido alteraram um resultado definido por mais de 4,4 milhões de votos de diferença é desonestidade intelectual. Se não malícia, trata-se de analfabetismo matemático.
No mesmo exercício de lógica, fica a pergunta: por que os pretensos comunistas manipuladores de urna teriam permitido que o primeiro turno elegesse a maior bancada de direita na Câmara dos Deputados e transformasse o Senado em um ambiente dominado por influencers extremistas? Ou eleito um senador conservador e outro que temo cruzar nas ruas e ouvi-lo gritar que vai pedir meu impeachment? A tese de fraude desmorona diante da própria contradição.
A ressaca do Parcão e a ‘ideologia dos números’
Em vez de lamentar a derrota ou incentivar discursos radicais, os derrotados deste domingo deveriam superar a ressaca dos eventos no Parcão — onde a festa estava montada e apoiadores postaram vídeos comemorando a vitória antes do tempo — e examinar a movimentação real das urnas no município e região.
Mesmo com o histórico perfil conservador de Gravataí desde 2018 (onde Flávio Bolsonaro registrou 78.624 votos no primeiro turno e 86.415 no segundo turno de 2026), e apesar do apoio público de políticos de peso — englobando o prefeito Luiz Zaffalon, o vice Dr. Levi Melo, a deputada estadual Patrícia Alba, o ex-prefeito Marco Alba, o presidente da Câmara Dilamar Soares e vereadores como Coruja, Bombeiro, Hiago, Clebes, Carlos Fonseca, Mario Peres, Lemes, Áureo e Fábio Ávila —, o desempenho de Lula avançou na aldeia.
E não só. Os números registrados na Região Metropolitana entre o primeiro e o segundo turno de 2026 demonstram essa movimentação:
Em Gravataí: Lula passou de 47.237 votos (33,60%) no primeiro turno para 61.466 votos (41,56%) no segundo turno, obtendo um crescimento de 14.229 votos na cidade. No mesmo período, a abstenção local diminuiu de 23,02% (44.217 não comparecimentos) para 20,50% (39.368 não comparecimentos).
Em Cachoeirinha: Lula registrou 26.214 votos (34,76%) no primeiro turno e subiu para 33.857 votos (42,88%) no segundo turno, acumulando 7.643 votos adicionais. A margem que o separava de Flávio Bolsonaro (que fez 41.314 votos no primeiro turno e 45.094 no segundo turno) foi reduzida em 3.863 votos, encurtando a distância de 15.100 votos no primeiro turno para 11.237 no segundo turno. A abstenção em Cachoeirinha caiu de 23,35% (23.958 eleitores) no primeiro turno para 20,86% (21.401 eleitores) no segundo turno.
Em Canoas: Lula contabilizou 70.775 votos (38,15%) no primeiro turno e atingiu 90.451 votos (46,49%) no segundo turno, somando 19.676 votos adicionais. A abstenção no município recuou de 23,25% (58.847 eleitores) na primeira etapa para 20,73% (52.454 eleitores) na segunda etapa.
Em Viamão: Lula venceu. Contabilizou 53.863 votos (46,31%) no primeiro turno e chegou a 68.215 votos (54,80%) no segundo turno, somando 14.352 votos a mais. A abstenção no município recuou de 23,72% (38.350 eleitores) no primeiro turno para 20,56% (33.234 eleitores) no segundo turno.
Em Porto Alegre: Assim como nas capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Salvador, Recife, Belém, São Luís, Teresina, João Pessoa, Natal, Aracaju e Macapá, outra vitória de Lula. Contabilizou 377.252 votos (48,57%) no primeiro turno e chegou a 456.019 votos (55,84%) no segundo turno, conquistando 78.767 votos a mais. A abstenção na capital recuou de 24,00% (255.333 eleitores) no primeiro turno para 21,09% (224.371 eleitores) no segundo.
Gravataí fica a apenas 30 quilômetros da capital.
A hidra de Lerna e a ‘câmara escura’ da ideologia
Como bem analisou o jornalista Reinaldo Azevedo em artigo publicado no Metrópoles após a apuração, “Lula não sabia ser impossível e fez” ao buscar um ineditismo histórico: vencer uma eleição nacional tendo ficado em segundo lugar na primeira etapa.
Porém, citando Azevedo, a derrota do “irmão” do áudio com Vorcaro (um candidato tão suspeito, conforme o noticiário, não assustou?) não significa o fim do perigo: a hidra da extrema-direita não se domestica nem morre numa eleição; corta-se uma cabeça e outras nascem.
Azevedo nos lembra A Ideologia Alemã, clássico de Marx e Engels escrito em 1845. Nele, os autores explicam como a inversão da realidade funciona como em uma câmara escura: a guerra de valores e as paixões ideológicas são manipuladas de tal forma que mascaram a vida real dos homens e seus interesses objetivos.
Os políticos que foram às redes antissociais com suspeições infundadas agem exatamente no limite do “gattopardismo pelo avesso” apontado por Reinaldo: usam a linguagem institucional quando convém, mas tentam implodir a legitimidade das instituições por dentro quando o resultado das urnas contraria suas vontades. É mimimi antidemocrático.
Ao fim, o ‘bolsonarista-raiz’ Policial Evandro Coruja entendeu o recado das urnas e a responsabilidade do seu mandato — e de sua profissão, como policial federal da ativa. Já alguns ‘mick jaggers’ da política preferiram continuar performando para a bolha.
O sol nasceu nesta segunda-feira para todos nós. A eleição de 2026 acabou e Lula — assim como congressistas e governadores da direita ao extremo da ferradura ideológica — assume em janeiro para seu quarto mandato, com todas as dificuldades de um mundo em colapso. Aos vencidos, resta menos mimimi, mais respeito à democracia e um curso urgente de matemática básica.
Acompanhe os números — Para explorar o mapa completo da votação local e nacional, utilize a ferramenta interativa abaixo. O painel é fornecido pelo Seguinte: através do serviço do PautaHub e permite filtrar o desempenho das candidaturas e a taxa de abstenção em Gravataí, Cachoeirinha, Canoas e no Brasil.






