Chaves deixadas para trás. Os bordados. Receitas de família… A partir de testemunhos materiais, “Palestina Revelada” conta mais de um século de histórias e resistência ao sionismo – e o que o arquivo oficial cala: o cotidiano antes da Nakba, o terror da ocupação e as intifadas. Compartilhamos do Outras Palavras trecho da obra de Hanan Kattan, que promove sessão de autógrafos às 19h30 desta segunda-feira (2), na 72ª Feira do Livro de Porto Alegre
Estamos em 1977. Minha irmãzinha Aida, com menos de um ano de idade, chora nos braços da minha mãe enquanto somos repreendidas por soldados israelenses, que nos ordenam que saíamos do ônibus quente e lotado que nos levava pela ponte Allenby, na fronteira, que liga a Jordânia à Palestina ocupada.
Todos nós, palestinos, saímos e caminhamos até uma guarita. Estamos acostumados com esse processo. É sempre assim quando voltamos à terra natal ocupada, onde as famílias da minha mãe e do meu pai viveram por gerações e gerações. A guarita fica entre nós e um conjunto de grandes edifícios, onde seremos obrigadas a esperar por horas, ou até mesmo o dia inteiro, submetidas a checagens.
Logo no ônibus, um soldado das Forças de Defesa de Israel (FDI, ou IDF em inglês) abre a bolsa de bebê que minha mãe carrega, pega a fórmula infantil, as mamadeiras e todas as fraldas de Aida, jogando-as em uma grande lixeira, juntando-as a uma série de outros itens pessoais retirados das pessoas que desembarcaram antes de nós.
Ao ver as fraldas e a comida da bebê irem para o lixo, minha mãe fica estressada. Ela implora aos soldados, sabendo que poderíamos ficar na fila por mais oito horas à espera de uma autorização para viajarmos – de Amã a Jerusalém e depois a Belém – o que deveria levar menos de duas horas de carro. Os soldados riem. Um deles zomba da minha mãe. Sinto-a enrijecer, vejo suas bochechas corarem, sinto-a reprimir uma resposta, enquanto lida com a dor da humilhação. Detesto vê-la assim, sendo desrespeitada dessa maneira.
Mas não temos escolha. A ponte Allenby continua sendo, até hoje, a press kit restrito 22 PALESTINA REVELADA única passagem oficial entre a Cisjordânia e a Jordânia1, onde vivem milhões de palestinos – palestinos2 como minha família, que foram expulsos à força durante e desde a Nakba (do árabe, catástrofe) de 19483; e é o único ponto de saída/entrada designado para os palestinos da Cisjordânia4.
O resto do dia é uma névoa na minha memória. Eu era adolescente. Lembro-me do calor, do edifício ecoante cheio de viajantes e soldados, das filas intermináveis para passar de um tipo de vistoria para outra. Mas as revistas íntimas ficaram na minha memória; a humilhação de me despir, ficando apenas com a roupa íntima, sob o olhar dos soldados israelenses que gostam de ver as pessoas a se contorcer, que as passam por máquinas e revistas com varinhas e depois ainda apalpam cada parte do corpo com mãos ásperas. O mesmo acontece com os gritos, dirigidos a qualquer pessoa que ouse sentir-se confusa, fazer uma pergunta ou olhar nos olhos deles. Os soldados chamavam mulheres como a minha mãe de sharmouta (prostituta) ou homens da idade do meu pai de hmar (burro). Tudo isso, é claro, ainda visceral, como a emoção que surgiu em mim naquele momento.
Esse constante desrespeito, essa instilação deliberada de medo por parte dos soldados israelenses, constitui o que significa ser palestino há várias gerações: a humilhação sistemática e ritualizada é o preço a pagar por querer visitar nossa família em nossa própria terra natal roubada e ocupada. O sistema tem um objetivo: tornar cada visita o mais traumática possível para que menos pessoas voltem no ano seguinte.
Dez anos antes, em 1967, com apenas cinco anos de idade, aprendi outra coisa sobre ser palestino. Acolhido no peito da minha mãe, em um porão úmido em Amã, na Jordânia, ouço, acima de nós, os jatos israelenses rugindo como trovões5. Trovões que duram muito tempo, sacudindo janelas, dentes, ossos, sanidade. Minha mãe segura a mim e à minha irmã mais nova, que na época tinha três anos de idade. Tento ser corajosa, por ambas. Mas, para ser sincera, estou apavorada. Ouvi nossos vizinhos, lá embaixo conosco, conversando em voz baixa sobre como as caldeiras ao nosso redor poderiam explodir com um único tiro. Observo os grandes contêineres metálicos de gás, esperando que explodam.
No entanto, mesmo naquele porão, cercados pelas máquinas de uma guerra destinada a nos exterminar, algo inquebrantável persistia. O aroma do chá de cardamomo que minha mãe estava preparando quando as sirenes de ataque aéreo começaram a soar. O perfume dela, que permanecia em sua clavícula. O toque tranquilizante da mão do meu pai em meu ombro. A suave canção de ninar em árabe que ela cantarolava para nos dar algo para ouvir, sob o barulho dos caças.
Aprendi uma verdade, talvez inconscientemente, mas senti no meu íntimo: não importa quem tente nos exterminar, a cultura palestina permeia, sobrevive e até prospera em nossas famílias, nossas histórias, nossas memórias, nossas canções, nossos corações. Aquelas noites amontoados no porão foram durante a guerra de 1967, que viu Israel lançar um ataque devastador e expansionista contra os países vizinhos e ocupar o resto da Palestina, bem como as Colinas de Golã, na Síria, e o Sinai, no Egito6. Mas os cinco dias naquele porão não são onde nossa história começa. Ela teve início na virada do século, mas, por enquanto, vamos voltar a 1948, quando, para minha mãe e tantos outros, essa história em particular começou.
“Tínhamos uma linda casa em Jerusalém Ocidental, habibti”, minha mãe, Nawal, começava a contar. Sinceramente, estávamos todos um pouco cansados de ouvir a mesma história, mas tentávamos ouvir com paciência mesmo assim. Parecia algo que ela precisava contar. “Morávamos todos lá – eu, meus irmãos, nossos pais. E tínhamos um prédio em Haifa, no Monte Carmelo”.
Nawal Shukri Halaby nasceu em Haifa e suas histórias sobre como foi crescer na Palestina, em sua casa em Jerusalém, chegaram até nós por uma voz que expressava tristeza e raiva, mas também resistência e determinação – como se ela sentisse que, se eles podiam roubar nossas casas, pelo menos nunca poderiam nos roubar nossa essência. Os palestinos ainda carregam as chaves de suas casas roubadas. Chaves passadas de geração em geração, de latão e ferro desgastadas, que eram tudo o que nos restava das casas que nos foram roubadas, das quais sentíamos saudade e pelas quais ansiávamos7. Mas os meus avós não guardavam as chaves apenas como símbolos e lembranças, guardavam-nas como prova, tangível, de que as casas de suas famílias ainda cheias de móveis lhes pertenciam. Prova de que o slogan sionista de que a Palestina era “uma terra sem povo” não passava de propaganda, uma mentira conveniente para disfarçar o roubo de suas casas8.
Minha mãe tinha apenas dez anos em 1948, quando entre 750 mil e um milhão de palestinos foram vítimas de limpeza étnica, expulsos por grupos terroristas sionistas e forçados a viver como refugiados da noite para o dia, desesperados para escapar dos massacres e assassinatos sistemáticos de palestinos que aconteciam em sua terra natal9.
Como a maioria dos palestinos, meus avós nem sequer empacotaram seus pertences pessoais, pensando, razoavelmente, que a violência iria diminuir; que eles voltariam para casa em poucos dias, ou semanas, no máximo. Eles nunca foram autorizados a voltar. Minha mãe acabou indo para um internato no Líbano. Ela se formou aos dezesseis anos e foi para a Universidade Americana de Beirute estudar psicologia, graduando-se com honras. Ela recebeu uma bolsa Rhodes para fazer pós-graduação na Universidade Brown, mas decidiu se casar com meu pai. Minha mãe também era uma artista talentosa, uma das poucas mulheres na Jordânia que estudou com a renomada artista Princesa Fahrelnissa Zeid. Ela expôs suas obras, mas sempre as presenteava, respeitando o desejo de meu pai de que ela não vendesse suas pinturas.
Meu pai estava em um internato em Jerusalém na época da Nakba. Com cerca de onze anos, ele também foi forçado a sair e continuar os estudos em Beirute, uma cidade completamente nova para ele, antes de poder retornar, alguns anos depois. Após o ensino médio, ele se formou em Economia pela London School of Economics.
Meus pais falavam e estudavam três idiomas fluentemente. Meu pai continuou com os negócios da família e atuou como cônsul honorário da Jamaica. Se a Jamaica parece aleatória, vou explicar que uma de suas irmãs, Aida Kattan, casou-se com Johnny Issa, um palestino de Belém da Jamaica. A diáspora em curso espalhou nossa família por toda parte: minha tia, Laila Kattan Sousa, a irmã mais velha do meu pai, mudou-se para Paris; seu irmão, Tony, para a Suíça; e sua irmã mais nova, Zein, para Portugal.
Foi preciso esforço, tempo e perseverança para voltar à Palestina enquanto crescia, mas guardo com carinho as lembranças dessas visitas a Belém, passando tempo com parentes que viviam firmemente sob ocupação. Lembro-me do frescor das pedras da casa da nossa família ancestral, rodeada por oliveiras antigas e retorcidas, carregadas de frutos e de um forno tabun no jardim, no qual se assava pão fresco todos os dias. Tínhamos refeições familiares deliciosas e abundantes que duravam horas, com conversas que entrelaçavam o passado e o presente. Nossas tias passavam longos dias preparando compotas frescas com frutas palestinas da estação – em especial a incrivelmente perfumada mishmish mistkawi, um tipo específico de damasco palestino de temporada muito curta, mas que tem um sabor divino, seja fresco ou concentrado em conservas doces.
A David Ben-Gurion (nascido David Grün, na Polônia)10, primeiro a ocupar o cargo de primeiro-ministro11 de Israel é atribuída a afirmação de que os idosos na Palestina morreriam e os jovens se esqueceriam12. Setenta e sete anos após a Nakba de 1948, acho que é seguro dizer que ele estava errado. Os palestinos se lembram de tudo. A primeira geração de sobreviventes da Nakba lembra-se do perfume de jasmim que subia pelas paredes de seus casarões em Jerusalém, do padrão específico dos azulejos de suas cozinhas e do cheiro dessas cozinhas à noite, quando o jantar era preparado. Eles lembram-se dos nomes de seus vizinhos palestinos – cristãos, muçulmanos e judeus que viveram lado a lado por gerações.
A memória tem alguma importância? É real? É uma prova? Para todo um povo que foi morto ou expulso e forçado a partir sem seus pertences, fotografias, roupas – sim, a memória é a única coisa real. Nós, palestinos, aprendemos que nossos bens e nossas casas podem ser roubados. Mas nossas memórias não.
As consequências do dia 7 de outubro de 2023 trouxeram uma revelação que destruiu tudo o que eu pensava saber sobre a compreensão do mundo em relação à Palestina. Na grande mídia, era como se a história tivesse começado naquele dia, sem qualquer referência ao cerco cruel – e ilegal – de Gaza, que havia começado décadas antes. Com o passar do tempo, enquanto assistia a um genocídio transmitido ao vivo, ignorado pelos governos ocidentais e pela mídia tradicional, ou acompanhado de narrativas distorcidas para sugerir que matar milhares de civis era de alguma forma aceitável, percebi algo que me mudou para sempre: muitas pessoas no Ocidente não sabiam praticamente nada sobre os palestinos – nem sobre nossa história, nossa cultura, nem mesmo reconheciam nossa humanidade básica.
“É complicado” era uma frase que eu ouvia com frequência. As pessoas achavam que o conflito era antigo, complexo e quase impossível de compreender.
De certa forma, essa é uma conclusão compreensível. Todos têm assistido a variações desse “conflito” há tantos anos que ele realmente parece avassalador e, sim, complexo. Mas, enquanto eu estava em Londres nos meses após o 7 de outubro de 2023, vendo famílias palestinas serem exterminadas enquanto governos ocidentais forneciam inteligência e armas13 ao governo de Israel, comecei a entender que essa chamada complexidade não era acidental; ela era fabricada. Cuidadosamente construída para criar uma profunda ignorância que permitisse a continuação da limpeza étnica dos palestinos e que agora culminava em um verdadeiro genocídio.
Não é possível ignorar um genocídio – e, uma vez que você o vê, compreende que tudo o que lhe foi dito sobre a Palestina ser “complicada” foi feito para ocultar uma verdade simples: esta é uma história de povos indígenas sendo sistematicamente eliminados por colonizadores14.De repente, o porão em Amã fez sentido. No fim das contas, não estávamos nos escondendo de uma única guerra – estávamos nos escondendo de uma campanha de eliminação que nunca realmente parou.
A história da minha família é apenas um fio numa tapeçaria que remonta a milênios. Eu queria compartilhar minha perspectiva, tanto através do podcast The Enlightenment, que comecei para discutir pontos de vista e ideias sobre a Palestina que são ignorados pela mídia tradicional, quanto agora através deste livro. Porque, uma vez que você entende quem os palestinos realmente são, e sempre foram, todas as mentiras que lhe foram contadas desmoronam.
Não sou historiadora, política ou acadêmica. Mesmo assim, gostaria de pensar que este livro conta uma história muito negligenciada, que abrange alguns eventos políticos e históricos surpreendentes e de tirar o fôlego. Mas, neste capítulo, estou compartilhando as histórias e a herança da minha família, não para mostrar nossas conquistas (embora sejam muitas e eu tenha orgulho delas), mas como um primeiro passo para convidar você a reconsiderar tudo o que lhe foi dito sobre a Palestina.
Venha comigo até a casa do meu avô, em Amã, na década de 1960; um belo casarão de pedra situado no Terceiro Círculo, hoje um patrimônio histórico, com amplos jardins que recebiam reuniões semanais. O aroma do café árabe sempre sendo preparado. O som de conversas animadas em árabe, inglês e francês. Chá de menta fresco. Mesas repletas de tantos pratos que parecia sempre um dia de festa. Um fluxo constante de visitantes que vinham ver meu avô: refugiados palestinos em busca de ajuda, empresários em busca de parcerias, intelectuais debatendo o futuro da Palestina e da região.
Meu avô paterno, Tewfic Mathias Kattan – carinhosamente conhecido como Sido para nós e El Basha e Abu Fuad para os outros – foi o homem que me ensinou que os palestinos não eram apenas sobreviventes, mas líderes que continuavam a construir mesmo no exílio. Se a narrativa colonial gostava de afirmar que os palestinos eram uma cultura “primitiva”,15Tewfic Kattan virou essa ideia de cabeça para baixo. Ele era uma força da natureza que falava cinco idiomas, ao mesmo tempo em que servia ao seu povo no governo e construía um império empresarial.
Tewfic foi membro do parlamento em Belém, de 1950 a 1956, até perder temporariamente a visão. Recebeu o título de Pasha do rei Abdullah I da Jordânia por suas contribuições econômicas, industriais e filantrópicas. Foi cônsul honorário da Suíça na Jordânia e recebeu a medalha dos Cavaleiros de Malta – o Chevalier de Malte – por ajudá-los a estabelecer uma base em Belém.
Mas suas conquistas foram muito além da política e da diplomacia. Além de estabelecer negócios relacionados à distribuição, lojas de varejo de eletrônicos e concessionárias de automóveis, Tewfic fundou o primeiro entreposto alfandegário privado da Jordânia – um depósito isento de impostos que revolucionou o comércio. Ele foi cofundador da primeira e única empresa de energia elétrica da Jordânia, uma sociedade anônima de capital aberto na qual atuou como vice-presidente e na qual meu pai, Fuad, mais tarde se tornou membro do conselho.
Meu avô também fundou a Intaj, um grande complexo industrial com fábricas de detergentes, sabonetes, biscoitos, sorvetes, tintas, produtos de higiene pessoal e embalagens. Ele atuou como presidente até sua morte, em 1975, quando meu pai assumiu o comando. Meu avô tinha outra fábrica de mármore e azulejos, e meu pai mais tarde fundou uma fábrica de tapetes. Mais presente em minha memória está a fazenda de oliveiras Al Zaitouneh, do meu avô, nos arredores de Amã. Com mais de vinte mil oliveiras, ela produzia um delicioso azeite de oliva; um sabor que lembro até hoje e uma riqueza que ele compartilhava generosamente com a família e os amigos.
Desde o momento em que comecei a andar, passei inúmeras horas na casa do meu avô em Amã, observando-o conduzir negócios em vários idiomas. Durante as férias escolares, ele me levava (orgulhosamente, carregando minha minipasta) para seus escritórios no centro de Amã para que eu pudesse “trabalhar” e para suas fábricas durante suas visitas regulares ao local. Eu era a mais velha de seis meninas e não tínhamos irmãos. Sido sempre me incentivou a entrar no mundo dos negócios e ser independente. As famílias palestinas, como tantas comunidades no exílio, tendem a valorizar muito a educação e as realizações de seus filhos, independentemente do gênero16.
Tewfic Kattan tinha dezoito anos quando se estabeleceu entre a Jordânia e a Palestina, dando continuidade aos negócios de seu pai. Quando a Nakba eclodiu, em 1948, ele estava em posição de ajudar os palestinos que tiveram tudo roubado pelos israelenses e que nunca foram autorizados a retornar para recuperar suas casas, terras e negócios.
Mas o que me impressionou, mesmo quando criança, foi que os palestinos que chegavam à sua porta não eram casos de caridade em busca de esmolas. Eram professores, médicos, engenheiros, artistas, empresários e líderes cívicos que tiveram tudo roubado da noite para o dia. Pedir ajuda era motivo de vergonha, mas, para cuidar de suas famílias, eles pediam uma oportunidade de reconstruir, uma chance de recomeçar, mas não pediam piedade; nunca pediam piedade.
A generosidade do meu avô era lendária, mas era uma generosidade incrivelmente informada – combinando pessoas qualificadas com oportunidades, criando redes que se estenderiam por décadas. Só compreendi isso verdadeiramente anos mais tarde, quando visitei a Palestina e a Jordânia, já adulta, e ouvi histórias dos filhos e netos das pessoas que ele tinha ajudado. Para essas famílias, o legado do meu avô era algo apreciado e discutido como parte da sua história familiar. Foi uma experiência muito comovente.
Essa era a sociedade palestina na época do meu avô: sofisticada, educada, colaborativa. A generosidade de Tewfic era tão conhecida que ele era chamado por Raja Al Issa, proprietário de um importante jornal diário chamado Filasteen (Palestina), de Kareem Al Difatein, que pode ser traduzido como “o generoso das duas margens” (referindo-se à Cisjordânia e à Margem Oriental). Muitos outros escreveram sobre ele e suas realizações, incluindo Elia Nuqul, que começou sua carreira na empresa do meu avô e que fala sobre Tewfic em sua maravilhosa biografia The Boy From Ramleh.
O nome Kattan estava entrelaçado na história da Palestina, mesmo quando não sabíamos que nosso destino estava sendo decidido nas capitais europeias por pessoas que nunca haviam pisado na Palestina. O avô de Tewfic, Moussa Kattan, foi prefeito de Belém, em 1925.17Meu trisavô, Jiries Kattan, do lado da família Kattan da minha avó, era um juiz proeminente em Belém, representando gerações de especialistas jurídicos palestinos. A árvore genealógica se espalhou por continentes – minha avó Margaritte tinha cinco irmãos e três irmãs, e a maioria deles emigrou para todo o mundo, incluindo o Sudão, o Chile, o Japão, a Índia e a Inglaterra, tornando-se muito bem-sucedidos na fabricação de têxteis e outros negócios. Sua irmã, Victoria Kattan Hirmas, tornou-se empresária no Chile, com sua própria fábrica de botões.
Minha avó – Teita Margo – também era uma Kattam de Belém, mas de outro ramo da família. Ela falava cinco idiomas fluentemente e atuou como vice-presidente do Crescente Vermelho, em Amã, por mais de uma década, prestando assistência humanitária a refugiados palestinos. Era uma católica devota, profundamente caridosa, mas de maneira discreta. Nos fins de semana, ela me lia romances em francês e espanhol, sua voz dando vida aos personagens em idiomas que fluíam musicalmente de sua língua.
Na época, é claro, eu não sabia disso, enquanto estávamos sentadas no salão iluminado pelo sol, lendo juntas, mas cada conversa com ela era mais uma prova que desmentia a propaganda colonialista. Os palestinos são atrasados? Essa mulher discutia literatura em vários idiomas, lia e rezava em latim.
Meu avô Tewfic tinha oito irmãs notáveis, cada uma com sua própria história de resiliência e conquistas. Deixe-me contar-lhe sobre apenas uma delas, Julia (tia Joujou para nós). Em 1972, quando o mundo tentava esquecer que os palestinos alguma vez existiram, a tia Joujou fez algo extraordinário. Ela fundou um museu na sua qualidade de líder da União das Mulheres Árabes. Baituna Al Talhami – Nossa Casa em Belém – fica na Rua Star, perto da Igreja da Natividade, e apresenta casas tradicionais palestinas ao redor de um hosh (pátio palestino), com exposições do patrimônio cultural local, incluindo trajes tradicionais, utensílios domésticos e objetos históricos, artefatos doados por famílias palestinas determinadas a preservar um registro de sua cultura indígena.
A própria União das Mulheres Árabes organizou oficinas que proporcionaram emprego às mulheres palestinas, preservando ao mesmo tempo o tatreez, as técnicas tradicionais de bordado palestino que contavam histórias através de trabalhos de costura intricados que refletiam a identidade, o caráter, a personalidade e as origens específicas da mulher que os criava.
A tia Joujou compreendeu algo que levei alguns anos para perceber: a cultura não se preserva apenas nos museus, ela é vivida no dia a dia. As abundantes refeições familiares que ela organizava em Belém reuniam nossa família e amigos para saborear pratos tradicionais palestinos, preparados a partir de receitas transmitidas de geração em geração. O árabe que ela insistia que todos falássemos corretamente tinha o sotaque característico da região em torno das antigas pedras de Belém. Nossas raízes em Belém eram profundas, mas nosso ramo em Jerusalém era igualmente sofisticado – e seu destino ainda mais comovente.

NOTAS
- Al Jazeera, Por que Israel fechou a fronteira da Cisjordânia com a Jordânia, 9 de setembro de 2024.
↩︎ - UNRWA, Onde Trabalhamos: Jordânia.
↩︎ - Nações Unidas, UN.org, Sobre a Nakba.
↩︎ - B’Tselem, Israel Anexou de Facto o Vale do Jordão, fev. de 2006.
↩︎ - CIA.gov Reading Room, Comentários da CIA sobre a Campanha Aérea Israelense: 5–10 de junho de 1967. ↩︎
- Resoluções do Conselho de Segurança da ONU 233–236 (junho de 1967), digitallibrary.un.org. ↩︎
- Al Jazeera, Símbolos da Palestina, 20 de novembro de 2023.
↩︎ - Nações Unidas, UN.org, Origens e Evolução da Questão da Palestina: 1917-1947. ↩︎
- Walid Khalidi (ed.), All That Remains (Institute for Palestine Studies, 1992), e Ilan Pappé, A Limpeza Étnica da Palestina (Oneworld, 2006) p. 30.
↩︎ - Tom Segev, A State at Any Cost (Head of Zeus, 2019).
↩︎ - Tom Segev, A State at Any Cost (Head of Zeus, 2019).
↩︎ - Ari Shavit, Minha Terra Prometida (Spiegel & Grau, 2013); Benny Morris, Vítimas Justas (Vintage, 1999); Tom Segev, A State at Any Cost (Head of Zeus, 2019). ↩︎
- Human Rights Watch, O Crime de Extermínio de Israel, Atos de Genocídio em Gaza, 19 de dezembro de 2024.
↩︎ - Duke University Press, Social Text, Bomba do Colonialismo de Povoamento de Israel, Vol. 43, junho de 2025.
↩︎ - Melissa Weiner, Apagamento e Desumanização Palestina em Textos Introdutórios de Sociologia, ResearchGate, novembro de 2022.
↩︎ - Anne E. Irfan, Educando Refugiados Palestinos: As Origens do Sistema Escolar Único da UNRWA, Journal of Refugee Studies, Vol. 34, Nº 1 (Oxford University Press, 2021), pp. 1037–1059; também Banco Mundial, Cisjordânia e Gaza — Análise do Setor de Educação.
↩︎ - Bethlehem-city.org, Ex-Prefeitos. ↩︎
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