CARLOS WAGNER

Os motivos que unem e separam Lula e Trump

Tive a minha atenção despertada para um detalhe que ficou solto na história da fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos, na terça-feira (27), dois dias após ter sido derrotado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 81 anos, no segundo turno das eleições presidenciais. O senador não admitiu a derrota, alegou uma suposta interferência no processo eleitoral e disse que fugiu do Brasil por estar sofrendo perseguição política. Pelo que já publicamos, a operação da fuga teve participação de assessores do presidente da Argentina, Javier Milei, 56 anos, e do secretário de Estado americano, Marco Rubio, 55 anos – toda a história pode ser lida “dando um Google”.

Sobre as eleições no Brasil, adianto que mais de 20 partidos, incluído o PL do senador, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, 54 anos, e mais de 120 países atestaram que as eleições foram limpas. Na manhã de quarta-feira (28), Flávio e sua família (mulher e duas filhas) chegaram a Miami, na Flórida. No final do dia, ele leu uma carta de três páginas, que teve duas versões e foi descrita como “golpista” pela imprensa e o meio político, inclusive seguidores do pai do senador, o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 71 anos – matérias na internet. Para finalizar esse trecho da nossa conversa: Lula fez 51,79% dos votos válidos (64,2 milhões) contra 48,21% (59,8 milhões) de Flávio, uma diferença de 4,4 milhões de votos. Amarrei bem essa primeira fase da nossa conversa para dizer o que vem a seguir. O fato concreto: as eleições foram legítimas. Depois que Flávio e a família se instalaram em território americano, em quatro oportunidades os repórteres perguntaram para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre as eleições brasileiras e as acusações de terem sido fraudadas. Em todas as suas respostas ele saiu pela tangente. Em uma delas, disse o seguinte, conforme publicado pela imprensa: “Eu não governo o Brasil. Eu governo os Estados Unidos. Gosto do Lula. Me dou muito bem com ele, mas a prorrogação concedida foi muito estranha”. Foi uma referência ao adiamento do fechamento das urnas para as 19h, concedida pelo ministro Cristiano Zanin, 50 anos, do Supremo Tribunal Federal (STF). O adiamento foi pedido pelas chapas de Lula e Flávio por motivos diferentes – há uma enorme abundância de matérias disponíveis. Por que Trump não comprou a versão do senador sobre as eleições brasileiras? Na quinta-feira (29), ele respondeu à pergunta para os jornalistas: “O presidente (Lula) pediu para não intervir, não tomei partido”. Acrescentando: “Vou conversar com Lula. Achei as eleições estranhas”. Nos próximos dias 14 e 15 de dezembro, Trump, Lula e outros presidentes vão participar da reunião dos 20 países mais ricos do mundo (G20), que acontecerá em Miami. Aqui vou lembrar para os meus colegas que a relação entre Trump e Lula começou de uma maneira que não é comum entre presidentes.

Essa história começou em 2025. Em janeiro daquele ano, Trump tomou posse para o seu segundo mandato na presidência dos Estados Unidos. Semanas depois, tarifou as exportações de vários países para o mercado consumidor americano. O episódio ficou conhecido como “tarifaço do Trump”. O Brasil recebeu a maior tarifa, 50%, e um aviso de que só haveria negociação para reduzi-la se fosse interrompido o processo judicial que resultou na condenação do ex-presidente Bolsonaro por tentativa de golpe de estado. Houve uma intensa negociação entre os empresários dos dois países, incluindo os donos de grandes empresas brasileiras com filiais nos Estados Unidos. Como é tradição, em setembro o presidente brasileiro foi o primeiro a discursar na Assembleia Geral da ONU. Na ocasião, Lula defendeu a soberania nacional e reclamou das medidas unilaterais dos Estados Unidos. Ao terminar o discurso, nos corredores da ONU, Lula cruzou com o presidente americano e ambos tiveram uma conversa de uns 30 segundos. Em público, Trump surpreendeu a todos afirmando que houve uma “química excelente” entre eles, disse que Lula é “um cara muito legal” e que só faz negócios com quem gosta. Aqui criou-se uma espécie de “protocolo não oficial” entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos. Sempre que as coisas “esquentam entre os dois países”, Trump e Lula conversam e seus ministros “descascam o abacaxi”. Aqui quero lembrar o seguinte. Durante um dos seus discursos, Lula afirmou ter dito a Trump o seguinte, assim documentado pela Agência Brasil: “Disse para o Trump: nós dois, com 80 anos, governamos as duas maiores democracias do Ocidente. A gente não pode passar discórdia, desavenças para o restante do mundo”. No primeiro turno das eleições presidenciais, Flávio ganhou de Lula por uma diferença de 2 milhões de votos. No segundo turno, Lula reformulou toda a campanha e demonstrando um enorme vigor físico conseguiu ganhar uma eleição que a maioria já considerava perdida.

Para arrematar. Abri a nossa conversa dizendo que tinha ficado uma ponta solta na história da fuga do senador Flávio para Miami. A ponta que ficou solta foi que a decisão dos dois presidentes de conversar antes de brigar faz toda a diferença e evita muitos problemas. Há outra coisa que me intriga nesse episódio. Quem disse ao senador que Trump abraçaria a história da fraude nas eleições do Brasil? O cara é muito bom de papo porque o convenceu a virar as costas para 59,8 milhões de eleitores e uma bancada no Congresso de 155 parlamentares (senadores e deputados) feita pelo seu partido.

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