Faltou coragem — se não ‘hoje’, ‘ontem’ — a Bombeiro Batista (Republicanos) e Hiago Pacheco (PP). Os vereadores foram desligados da base aliada do prefeito Luiz Zaffalon (PSD), em Gravataí. A comunicação foi feita em um grupo dos parlamentares pelo líder do governo, Alex Peixe (PSDB). Como o segredo de aborrecer é dizer tudo (Voltaire), explico neste artigo a covardia política.
O próprio prefeito sintetizou ao Seguinte: o pragmatismo implacável da ruptura:
“Eles se opõem a muitas ideias do governo por serem impopulares, quando não bem explicadas e justificadas ao eleitor. Inclusive neste ano que não é eleitoral. Pensam demais, na minha opinião, nos seus mandatos e pouco na cidade. O que é um direito sagrado deles e, eu respeito. Sair da base os deixará com maior liberdade e menos constrangimento; poderão criticar mais abertamente e até se juntar a outros grupos de oposição. Ser Governo não é nada fácil, em momentos difíceis ou até apenas necessários e obrigatórios, de arrumação. Tem que ter muita coragem. São pessoas de bem e decentes, que já ajudaram o governo. Hoje não querem mais e eu agradeço pelo tempo que estiveram comigo”.
Sigamos. Há uma realidade que se impõe às narrativas instagramáveis. No momento em que a cidade exige correções de rumo em meio a uma crise fiscal brutal, os dois parlamentares optaram pelo conforto imediato de salvar a pele. Em momento algum — salvo engano — apresentaram alternativas técnicas viáveis para a crise de caixa do município ou propostas concretas para suprir a perda de receitas. Olharam, sim, para o umbigo dos mandatos.
A postura expõe a crônica dificuldade de lidar com o que chamo de sabor agridoce de ser governo. Ser situação não se resume a aparecer no selfie da inauguração ou colher os bônus de investimentos públicos; exige a disposição de subir à tribuna para votar temas duros, suportar a pressão de plenários lotados e defender a sustentabilidade financeira da cidade.
Bombeiro Batista, o vereador mais votado nas últimas duas eleições municipais, sempre operou como um fio desencapado na base governista. Com um estilo moldado pelo algoritmo e marcado pela aversão ao desgaste digital, o parlamentar coleciona episódios de atrito que atravessam governos. Votou contra a reforma da previdência no passado, mas desfrutou dos mais de R$ 250 milhões em espaço fiscal gerados por ela; entrou mudo e saiu calado em votações estruturantes; e, mais recentemente, envolveu o governo em constrangimentos como o episódio da destinação de doações da enchente para armazenamento na Neópolis (onde não alagou) em 2024 e o suposto uso de núcleos esportivos municipais em evento partidário — situações que resultaram na exoneração de indicados seus no Executivo; detalho as polêmicas em O ‘sequestro’ de carretas de donativos de Camboriú para Gravataí: Prefeitura e vereador explicam; Entre a fake e a real news; A bagunça na base de Zaffa: vereador pede demissão de secretário, o caso da carreta, a denúncia da patrola e o “guri de m.” e Bombeiro não deveria ter colocado núcleos patrocinados pela Prefeitura para dançar no lançamento de sua candidatura em Gravataí.
Somado a isso, Bombeiro colhe a ressaca das urnas estaduais de 2026. Ao insistir na aventura de uma candidatura a deputado estadual que rivalizou com o projeto vitorioso de Dimas Costa — o único eleito pela cidade (e que já era o deputado do governo Zaffa) —, o vereador perdeu densidade eleitoral na própria Aldeia e viu esvaziar-se a articulação para a presidência da Câmara em 2027, espaço em que hoje desponta o nome do Guarda Moisés (Republicanos) com o possível aval do centro do governo; leia mais em #DasUrnas | Bombeiro não foi mal, mas também não foi bem — e sai com ‘xis na testa’ para 2027 e 2028 em Gravataí e #DasUrnas | Dimas sem cortes: “Sou deputado, não candidato a prefeito”; A primeira entrevista do único eleito por Gravataí — assista na íntegra.
Bombeiro não respondeu ao contato do Seguinte:.
Já Hiago Pacheco, que formalmente traçou sua linha vermelha na recusa em votar revisões tributárias, apressou um movimento que no bastidor era visto como inevitável. Presidente da CPI da Corsan, Hiago já vinha impondo resistências regimentais no Legislativo, culminando no travamento do pedido de urgência para a votação da reestruturação do IPTU. Ao avocar o compromisso com sua plataforma individual, o parlamentar prefere desembarcar a ter de justificar ao seu eleitorado ajustes fiscais que a administração aponta como obrigatórios.
“Já estava vacinado. A condição que impus ao entrar na base, em 2025, foi não votar aumento de impostos. É meu limite”, disse ao Seguinte:.
A ‘ideologia dos números’ e Zaffa sem reféns
A saída dos vereadores não ocorre em um vácuo. Ela é deflagrada no exato momento em que a Prefeitura de Gravataí protocola na Câmara o Projeto de Lei Complementar nº 6/2026, propondo a reestruturação da Planta Genérica de Valores (PGV) do IPTU — congelada desde 1997.
Como detalhei anteriormente no Seguinte:, a ideologia dos números é implacável. Gravataí enfrenta o epicentro de uma frustração orçamentária de R$ 100 milhões apenas neste ano, agravada pelo tombo de 42% no VAF da General Motors e pela retração do repasse de ICMS. A atualização da PGV atende a cobranças diretas do Tribunal de Contas do Estado (TCE/RS) para combater a renúncia de receita e projeta um incremento anual de R$ 35 milhões a partir de 2027.
A proposta do Executivo buscou amortecer o impacto social ao reduzir as alíquotas residenciais em mais de 50% e criar uma regra de transição suave em quatro anos, garantindo que imóveis populares em bairros como a Cohab A tenham ajustes irrisórios ou até redução no carnê, enquanto áreas de alta valorização, como o Alphaville, paguem proporcionalmente mais.
Sábado publiquei o artigo Novo IPTU de Gravataí aposta no ‘quem ganha mais, paga mais’: os argumentos do governo Zaffa para convencer vereadores e sociedade. Talvez os vereadores tenham dificuldade em sustentar que a cobrança seja maior em um dos novos condomínio de classe alta, do que nas periferias.
Ainda assim, é obvio que qualquer revisão tributária traz em si o peso do desgaste público. E é diante desse desgaste que a base governista se depura: de um lado, os que compreendem a gravidade fiscal e assumem o ônus do voto; de outro, os que batem em retirada para preservar o capital das urnas de 2028.
Ao exonerar os cargos indicados pelos dois vereadores e abrir caminho para saída de ambos da base, Luiz Zaffalon reafirma a disposição de não fazer reféns no parlamento — e nem se tornar refém dele, ainda com dois longos anos de mandato pela frente. Em um cenário no qual a margem de manobra do orçamento é nula e a Lei de Responsabilidade Fiscal impõe rédeas severas, o governo prefere a clareza de uma maioria consciente (ou minoria, ainda não se sabe) à ilusão de uma base inflada por parlamentares que só marcham quando há palanque e foto favorável.
Ao fim, a política sempre cobra a sua conta. Ao trocarem a responsabilidade do desgaste pela conveniência da oposição em um momento crítico para Gravataí, Bombeiro Batista e Hiago Pacheco podem até garantir palanque e curtidas imediatas nas redes antissociais. Contudo, ao abdicar do debate de fundo sobre como financiar os serviços essenciais da cidade — sem apontar de onde tirar o recurso que falta — deixam evidente que, na hora da tempestade perfeita, pesou mais o cálculo do mandato do que a coragem de encarar a dura ideologia dos números.
Aí, reputo é covardia política. Coragem seria se, publicamente, tivessem feito alertas antes. Mesmo que entre uma selfie e outra nas obras do governo.





