Se a política é, como já escrevi, o estreitamento de inimizades, também é a arte de evitar constrangimentos desnecessários. Às vezes, o movimento mais eloquente não é o de entrada, mas o de saída.
A confirmação de Régis Fonseca como coordenador da pré-campanha de Dr. Levi Melo a deputado federal, acompanhada de sua desfiliação do Novo, é um desses movimentos que dizem mais pelo que evitam do que pelo que anunciam.
Evita-se, aqui, o constrangimento. É a crise que não aconteceu.
Na reportagem ‘Filho político’ de Alba, Alan Vieira vai para partido da base de Zaffa — e a polêmica já vem junto, apontei o risco: a chegada do ex-vereador Alan Vieira ao Novo criava um curto-circuito potencial dentro da base do governo Luiz Zaffalon (PSD).
De um lado, um ex-aliado de Marco Alba (MDB), que protagonizou ataques duros ao atual prefeito. De outro, o partido abrigando secretários estratégicos da gestão — entre eles, Régis, homem de confiança de Levi.
A equação era simples, mas explosiva: o secretário da Saúde de Zaffa e coordenador da campanha de Levi presidia um partido que agora dava guarida a um potencial adversário direto.
Não era sustentável.
A solução veio na forma mais clássica da política contemporânea: desfiliação estratégica.
Ao deixar o Novo — movimento acompanhado também pelo secretário do Desenvolvimento Urbano Bruno Palaver — Régis desmonta a armadilha antes que ela se feche. Retira Levi do centro de um conflito que não era seu e preserva Zaffa de ter, dentro de casa, uma contradição difícil de administrar.
Não é apenas uma saída partidária. É uma operação de contenção de danos.
Se havia dúvida sobre quem seria o sócio principal da caminhada de Levi, ela não existe mais.
Régis não apenas assume a coordenação — reafirma uma parceria de mais de 15 anos. É o seu número 1. Foi assim em campanhas anteriores, inclusive em 2020 e 2024. Segue sendo agora.
E isso dialoga diretamente com o momento que descrevi no artigo A volta do Dr. Levi — o que realmente importa.
Porque, enquanto a política tenta enquadrar Levi em cenários, projeções e disputas, há uma camada mais profunda: a reconstrução de uma vida.
Levi, que luta contra uma doença rara, voltou — mas não ao mesmo lugar.
Nesse contexto, ter ao lado alguém que conhece seus tempos, seus limites e sua trajetória não é apenas estratégia eleitoral. É estabilidade.
A política pode até ignorar isso. A realidade não.
Mas o movimento não para na desfiliação. Régis e Palaver optam por não se filiar ao Podemos. E, aqui, a política deixa de ser apenas narrativa e volta a ser matemática.
Se migrassem para o partido de Levi, o Podemos passaria a concentrar cinco secretarias no governo Zaffa. Romperia o equilíbrio da coalizão construída na reeleição. Criaria uma crise onde hoje há apenas tensão administrada.
Ao ficarem “sem partido”, permanecem “no projeto”. Ocupam aquilo que se chama ‘cota pessoal’ do prefeito.
É o tipo de solução que não resolve o problema estrutural, mas impede o colapso imediato.
Dos grandes lances dos piores momentos
O episódio revela, mais uma vez, um daqueles que chamo ‘Dos Grandes Lances dos Piores Momentos’.
Porque o que se vê hoje em Gravataí é um retrato quase didático da falência dos partidos como estruturas orgânicas.
Os que estão, parecem não estar. E os que não estão, estão.
Explico — porque a política, às vezes, precisa ser traduzida: Régis e Palaver coordenam a campanha de Levi sem estarem filiados ao seu partido. Enquanto isso, o presidente da Câmara, Dilamar Soares, segue formalmente no Podemos — mas seu gabinete inteiro já saiu. Permanece no partido, mas não no ‘Projeto Levi’.
E mais: Dilamar não apoia Levi para federal. Apoia o ‘estrangeiro’ Maurício Dziedricki (Podemos).
No mesmo evento em que se discutiam dobradas eleitorais de Levi, circulou uma lista que ignorava um vereador do próprio partido, Paulinho da Farmácia, mas incluía Bombeiro Batista, de outra sigla, o Republicanos.
Se parece confuso, é porque é. E não por acaso.
Resta a política como ficção organizada. Há, aqui, uma inversão silenciosa: o pertencimento formal deixou de ser determinante. O que importa é o alinhamento real — ainda que informal, ainda que provisório.
Partidos viraram, muitas vezes, plataformas eleitorais temporárias. Espaços de conveniência. Não de identidade.
O caso de Régis é emblemático: sai do partido para continuar no projeto. Em outros tempos, seria contradição. Hoje, é pragmatismo implacável.
Ao fim, o movimento de Régis resolve mais do que aparenta: protege Levi de um desgaste desnecessário no início de sua caminhada pós-retorno e poupa Zaffa de administrar uma incoerência interna de difícil explicação, além de estreitar, ainda que provisoriamente, inimizades na base governista.
Mas também escancara algo maior: a política segue funcionando. Os partidos, nem sempre. E, nesse jogo, talvez a melhor definição seja a mais simples — e a mais incômoda: há os que estão sem estar; e os que não estão, mas estão.
No fim, todos jogam. Mesmo quando dizem que saíram de campo.






