RAFAEL MARTINELLI

A grande obra de Airton é invisível — e decisiva para Canoas

Há obras que se medem em metros cúbicos de concreto. Outras, em quilômetros de asfalto. A de Airton Souza (PL) em 2025 é menos visível, mas talvez a mais estruturante de todas: diálogo institucional.

Em tempos de polarização belicosa — e dentro de um partido que faz oposição formal aos governos Lula e Eduardo Leite — o prefeito de Canoas optou por não calçar ferradura ideológica. Preferiu algo mais raro: conversar.

– Nosso grande feito de 2025 foi a capacidade do governo de dialogar com todas as esferas de poder: governo estadual, governo federal e judiciário – disse no podcast AldeiaCAST, de Rodrigo Becker e Marco Leite.

A frase poderia soar protocolar. Não é.

Airton governa pelo PL. Seu deputado federal é o amalucado Bibo Nunes (PL). Posta foto com Flávio Bolsonaro (PL) e diz, sem rodeios: “Há coisas que não precisa dizer toda hora”. Confirmou “ter lado”.

Mas também afirma, sobre o deputado federal Paulo Pimenta (PT), ex-ministro da Reconstrução do RS: é “um baita parceiro de Canoas”, que “abre portas” no governo Lula.

Não rompe pontes. Mantém todas.

E essa escolha não é ideológica. É fiscal.

A matemática obriga a pacificação

Airton lembra que 47% da receita do município vai para o funcionalismo, 25% para educação e 22% para saúde. Restam 6% para investimento.

Se Canoas quiser reconstruir diques, recuperar ruas que ficaram 20 dias submersas, manter passe livre e ainda sonhar com a federalização do Hospital Universitário, precisa de Brasília e do Piratini.

Não há ideologia que mude essa conta.

O Governo Federal mobilizou mais de R$ 111,6 bilhões para apoiar o Rio Grande do Sul após as enchentes de 2024. Canoas foi um dos municípios que mais receberam Auxílio Reconstrução: cerca de R$ 401,17 milhões pagos a famílias afetadas.

Do lado estadual, o governo Eduardo Leite confirmou R$ 179,7 milhões via Fundo a Fundo da Reconstrução para Canoas, com 35% já depositados, destinados à recuperação de diques, hidrojateamento de redes e modernização de casas de bombas.

São recursos provenientes da suspensão do pagamento e juros da dívida do RS com a União.

Na visita recente a Canoas, Leite sinalizou novos repasses, inclusive para cobrir o aumento de custo do Dique da Mathias Velho — que saltou de cerca de R$ 68 milhões para aproximadamente R$ 90 milhões — e para a extensão do Dique da Niterói, estimada em R$ 23 milhões.

Airton recebeu o governador. Sem vaias. Sem bravatas. Com pauta técnica.

– Não precisamos de guerra e sim de pacificação – diz o prefeito. “É o que procuramos desde o primeiro dia: nos unir para reconstruir a cidade. E todo mundo entendeu”.

Entenderam porque os diques não perguntam em quem você votou.

Conforme reportagem de Ana Stobbe, no Jornal do Comércio, Canoas destinou R$ 32.320.014,40 de recursos próprios em 2025, majoritariamente para obras de reconstrução e resiliência. Desse total, R$ 22,27 milhões foram aplicados em proteção contra cheias.

O dique entre o Arroio Araçá e a BR-448 recebeu mais de R$ 11,4 milhões no ano. O da Mathias Velho, R$ 6,18 milhões. O sistema dos bairros Fátima e Rio Branco, R$ 2,27 milhões.

Não é discurso. É execução orçamentária.

O Muro da Cassol já ultrapassa 87% de execução. O Dique Niterói passa de 83%. A Mathias Velho avança. O Rio Branco está em obras.

– Seremos a primeira cidade do RS a entregar obra de reconstrução – projeta Airton.

Pode ser otimismo. Pode ser estratégia. Mas não é inação.

Brasília na agenda

O diálogo também pavimenta o túnel da Domingos Martins, sob a BR-116 — obra de 40 anos no papel, hoje com 60% de execução.

A visita da Caravana “Na Boleia do Brasil” aconteceu em Canoas. O ministro Renan Filho anunciou investimentos federais de aproximadamente R$ 300 milhões na Região Metropolitana em 2026.

Paulo Pimenta celebrou: “Quando os governos trabalham juntos, quem ganha é a comunidade”.

O prefeito obteve o compromisso de Renan de apresentar ao Ministério das Cidades projeto de elevação de 2,4 quilômetros do Trensurb. O projeto inicial de rebaixamento, engavetado pelo alto custo, ressurgiu como elevação após sugestão sua, em março. Por menos da metade do orçamento.

Airton fez o que um prefeito precisa fazer: foi a Brasília, conversou com DNIT, apresentou alternativas técnicas, buscou incluir projetos no PAC.

Também quer federalizar o Hospital Universitário (HU) via Grupo Hospitalar Conceição (GHC). Chama de “um sonho”.

A articulação institucional já fez Canoas iniciar 2026 com a contratação de 1,6 mil cirurgias em 180 dias, pelo SUS, tornando-se o primeiro município gaúcho a operar o programa federal Agora Tem Especialista.

Quer manter o passe livre. Os números ajudam no argumento: antes da gratuidade, a média mensal era de 852 mil passageiros; depois, saltou para 1,45 milhão. Em dezembro de 2025, bateu 1 milhão de utilizações no mês.

– Somos um case nacional – diz. “Quem critica é quem não utiliza”.

Não há política pública mais concreta do que aquela que o cidadão sente no bolso.

O bolsonarista pragmático

Airton não deixou de ser bolsonarista. Apenas não governa como militante.

Posta foto com Flávio Bolsonaro — e recebe milhares curtidas. Mantém base fiel.

Mas também recebe Renan Filho. E agradece Leite.

E chama Pimenta de parceiro.

Isso, no Brasil de 2026, é quase subversivo.

Há prefeitos que transformam divergência ideológica em trincheira. Airton escolheu transformá-la em ponte.

Tem ao lado Rodrigo Busato (União Brasil), herdeiro político do pragmatismo implacável do pai, o deputado federal Luiz Carlos Busato. A estratégia é necessária: Canoas acima da guerra.

– A gente fez força tarefa – conta.

Ligou para todos os vereadores pedindo emendas. Confirmou mais de R$ 10 milhões. Agregou todos os entes políticos.

– É um movimento que nunca existiu na história de Canoas – afirma.

Pode ser exagero retórico. Mas há um dado objetivo: quando os governos conversam, os recursos chegam.

Airton gosta de mostrar diques, túneis e muros. Mas a grande obra é outra.

É a capacidade de estar com Flávio Bolsonaro na rede social e com Paulo Pimenta no telefone.

De receber Leite sem constrangimento.

De buscar no governo Lula o que a cidade precisa.

De entender que 6% de margem orçamentária não permite bravata.

No Brasil da polarização permanente, talvez a maior ousadia seja governar sem guerra.

Ao fim, entre o Planalto de 2026 e os diques de Canoas, Airton parece ter escolhido o que importa: reconstruir a cidade.

Sem ferradura ideológica.

Com ponte.


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