Desde que o escândalo envolvendo a ex-secretária de Bem-Estar Animal de Canoas veio à tona, surgiu um movimento previsível: procurar culpados secundários antes mesmo de enfrentar a questão principal.
Tentaram transformar o caso em disputa partidária. Tentaram colocá-lo na conta do prefeito Airton Souza (PL). Tentaram associá-lo ao deputado federal e pré-candidato ao Palácio Piratini Luciano Zucco (PL).
Mas, até aqui, o nome que aparece no centro de todas as investigações é apenas um: Paula Lopes, presa nesta segunda-feira (15).
Agentes da 3ª Delegacia de Polícia Civil de Canoas cumpriram três prisões preventivas e 12 mandados de busca e apreensão, nesta segunda fase da Operação Carrasco. Além da ex-secretária, foram presos dois médicos veterinários apontados como integrantes de um suposto esquema de eutanásias irregulares de cães e gatos, associação criminosa e estelionato.
Segundo a investigação, animais que poderiam receber tratamento teriam sido encaminhados para a morte, enquanto campanhas de arrecadação continuavam sendo promovidas nas redes sociais para custear procedimentos que, na prática, jamais ocorreriam.
A delegada Luciane Bertoletti afirma que a nova fase da investigação aprofundou a análise do material apreendido durante a primeira etapa da Operação Carrasco, realizada em setembro de 2025. Na ocasião, o foco era a atuação da então Secretaria Especial de Bem-Estar Animal de Canoas (Sebea), onde a polícia identificou um número considerado alarmante de eutanásias.
Conforme a Polícia Civil, a investigação revelou indícios de que a atuação da ex-secretária ultrapassava os limites da estrutura pública e se estendia à ONG ligada ao seu nome. A suspeita é de que animais resgatados fossem utilizados para sensibilizar doadores, enquanto nos bastidores havia decisões para interromper tratamentos e realizar eutanásias.
Em um dos episódios citados pela polícia, uma veterinária teria questionado a necessidade de confirmar um diagnóstico antes de qualquer decisão definitiva. A resposta atribuída à investigada, segundo os autos, teria sido a autorização para prosseguir diretamente com a eutanásia. Paralelamente, conforme os investigadores, pedidos de ajuda financeira continuavam sendo divulgados para custear um tratamento que não seria realizado.
Os fatos conhecidos até agora mostram que foi a própria prefeitura que a afastou quando as denúncias explodiram. Em entrevista à Rádio Gaúcha, Airton Souza afirmou que sequer retornou contatos da ex-secretária para evitar qualquer interferência nas apurações.
– Se for verdade, eu me sentirei muito traído por ela – declarou.
A frase resume bem o sentimento de muita gente.
Porque Paula não era uma servidora anônima. Não era uma técnica desconhecida dos bastidores. Ela construiu uma imagem pública baseada justamente na defesa dos animais. Era ela quem aparecia nos resgates. Era ela quem mobilizava campanhas. Era ela quem pedia confiança, apoio financeiro e solidariedade.
Por isso, se as acusações forem confirmadas, não estaremos diante apenas de um caso policial. Estaremos diante de uma das maiores fraudes morais já registradas na causa animal gaúcha.
Há quem queira transformar o episódio em um julgamento de governos, partidos ou padrinhos políticos. É um desvio conveniente. Afinal, é mais fácil procurar culpados coletivos do que encarar a responsabilidade individual de quem ocupava o centro da operação.
Socorro-me, inclusive, de uma experiência pessoal. Milito há décadas na causa animal e jamais ouvi qualquer relato consistente sobre as práticas atribuídas a Paula Lopes antes da explosão do escândalo.
Se protetores, ativistas e voluntários não sabiam, é difícil sustentar a tese de que políticos teriam conhecimento prévio daquilo que agora a Polícia Civil afirma ter descoberto após meses de investigação, perícias, quebras de sigilo e análise de milhares de documentos.
Ao fim, como sempre escrevo, não sou delegado, promotor nem juiz. A Constituição consagra a presunção de inocência, e ela deve ser respeitada. Mas há uma sentença que já foi executada, independentemente do que ocorrer nos tribunais. O dano à causa animal.
Se as acusações forem confirmadas, o prejuízo não será apenas financeiro ou criminal. Será um golpe na confiança.
Quem paga essa conta não é Paula. São os protetores que acordam às cinco da manhã para recolher animais atropelados. Aqueles que fazem rifas para comprar ração. São os voluntários que parcelam tratamentos veterinários no cartão de crédito. São as ONGs sérias que agora terão de responder, mais uma vez, à pergunta que nenhum protetor honesto deveria ouvir: “Como sei que o dinheiro não vai parar no bolso de alguém?”.
Segundo a Polícia Civil, mais de 14,5 mil pessoas fizeram doações acreditando estar ajudando animais em sofrimento. Em cinco anos teriam sido arrecadados R$ 672,6 mil em 549 campanhas. Se a investigação estiver correta, não foi apenas dinheiro que teria sido desviado. Foi confiança. E confiança, quando quebrada, é muito mais difícil de reconstruir.
O estrago, portanto, já resta feito.
A Justiça dirá se Paula Lopes é culpada ou inocente dos crimes que lhe são atribuídos. Mas a simples existência de acusações tão graves, sustentadas por uma investigação dessa dimensão, já produziu um efeito devastador: lançou suspeitas sobre uma causa que sobrevive graças à boa-fé de milhares de pessoas.
E isso talvez seja o aspecto mais cruel de toda essa história.






