Gravataí voltou a sangrar na noite desta sexta-feira (16). Não foi em um beco escuro, nem num acerto entre facções. Foi na rua José Pacheco, no bairro Monte Belo, por volta das 19h50min. Em plena via pública. Em horário de trabalho. Um gari morreu baleado após uma discussão de trânsito.
Trabalhava.
Coletava lixo.
Cumpria sua jornada.
Não conhecia o homem que o matou.
A comunicadora Gysa Santana, do Gravataí 24 Horas, estava lá e testemunhou o sofrimento da família do gari.
Segundo a Brigada Militar, o desentendimento foi banal, um motivo torpe, como quase sempre são esses conflitos que terminam em morte quando há uma arma de fogo envolvida. Houve a discussão, o disparo, e o trabalhador caiu ali mesmo, morto no local.
A Polícia Civil investigará as circunstâncias, mas o roteiro é conhecido demais para causar surpresa — apenas indignação.
A Prefeitura de Gravataí divulgou nota de pesar, lamentando a morte do funcionário da coleta de lixo, terceirizado da empresa Urban. Solidarizou-se com familiares, amigos e colegas, prometeu investigação e punição aos responsáveis. Comunicou ainda que a coleta de lixo resta suspensa neste sábado.
É o protocolo institucional. Necessário, mas insuficiente diante da repetição dos fatos.
Porque este não é um caso isolado. É parte de uma sequência.
Em dezembro, também em Gravataí, um mecânico foi atropelado de forma proposital dentro de uma ferragem. O carro foi usado como arma.
O motorista, sem qualquer relação com a vítima, jogou o veículo contra o trabalhador, derrubou o portão do estabelecimento e ainda o agrediu após a queda.
O suspeito acabou preso, teve a preventiva decretada — e morreu na cadeia, neste mês.
O Estado agora investiga as circunstâncias do óbito no sistema prisional, mas o ponto central permanece: mais uma vítima escolhida ao acaso, mais uma explosão de violência sem motivo, mais uma vida atravessada pela fúria.
Também no ano passado, um guarda municipal matou um inocente, com tiros pelas costas, após perseguição no trânsito; leia em Pai amoroso, trabalhador, ficha limpa e fã do Grêmio e heavy metal: quem era Leandro de Andrade, morto por guarda municipal em Gravataí.
E há um espelho incômodo nesse crime de Gravataí.
No ano passado, em Minas Gerais, o gari Laudemir de Souza Fernandes foi morto a tiros enquanto trabalhava, após uma discussão de trânsito com um empresário irritado porque o caminhão de lixo “atrapalhava” sua passagem.
O suspeito, Renê da Silva Nogueira Júnior, foi preso horas depois — em uma academia de luxo. Tentou justificar o assassinato dizendo que estava “no lugar errado, na hora errada”.
Não estava.
Quem estava no lugar errado era a arma em suas mãos.
Quem estava na hora errada era uma sociedade que normalizou que qualquer descontrole termine em morte.
O paralelo assusta porque não é forçado. Em Minas, como agora em Gravataí, a vítima era um gari em serviço. Em Minas, como agora, tudo começou com uma discussão de trânsito. Em Minas, como agora, alguém decidiu que tinha o direito de atirar.
O resultado foi o mesmo: um trabalhador morto, uma família destruída e uma pergunta sem resposta — até quando?
Há quem trate esses crimes como “tragédias”. Prefiro chamá-los pelo nome correto: consequência.
Consequência do “liberou geral” das armas. Consequência de uma cultura que transforma o automóvel em instrumento de poder, a rua em território de disputa e o revólver em argumento final. Consequência de políticas frouxas — de Bolsonaro a Lula — que permitem que gente despreparada, desequilibrada ou simplesmente violenta tenha acesso facilitado a armas de fogo.
Já escrevi — e repito — que não existe arma neutra. Todas as armas que hoje matam nasceram legais. Quanto mais armas circulam, mais mortes acontecem.
Não é opinião, é estatística. É só comparar países com níveis semelhantes de desenvolvimento: onde há mais armas, há mais homicídios. Simples assim.
Por isso, não basta a nota de pesar. Não basta o lamento protocolar. É preciso rigor. É preciso investigação rápida, prisão do responsável e resposta clara da Justiça. E é preciso dizer, dar nome às coisas, que cada flexibilização no controle de armas tem endereço certo: o chão onde tombam trabalhadores como este gari de Gravataí.
Que o matador de Gravataí seja preso. Esteja ele numa vila, ou numa academia de luxo. Não esqueçamos do gari, que nem nome divulgado teve ainda.
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