Por problemas de saúde, Angeli decide parar com a tira Chiclete com Banana, publicada na Folha SP durante 33 anos.
É uma baita perda cultural: em 8 de maio Angeli anunciou ao mundo que interrompe definitivamente a criação das tiras Chiclete com Banana. Ele já tinha matado, aos poucos, sem dó nem piedade, vários personagens. Mas nas vezes anteriores tinha sido por encheção de saco: as criaturas já não diziam nada ao criador. Assim, das páginas diárias, desapareceram alguns adoráveis e também detestados ícones da contracultura, que tinham tido a glória de circular em revistas próprias. E trocentos milhares de leitores ficaram na saudade da Rê Bordosa, do Bob Cuspe, de Luke e Tantra, dos Skrotinhos, entre tantos outros.



Desta vez, o motivo do fim coletivo de tantos personagens é outro: Angeli confessa esgotamento criativo. Se sente sem ideias e se mostra preocupado com a saúde. Depois de vários médicos e exames, o diagnóstico: depressão. Assistido pelo médico Dráuzio Varella desde 2015, Angeli tenta mudar hábitos e precisa trabalhar menos. Das três carteiras de cigarro por dia (começou aos 9, roubando bitucas do pai) , fuma apenas meia. Da vida sedentária, passou a fazer caminhadas. Da volumosa produção contínua, reduziu tudo a poucas publicações na Folha: charges às 4as e 6ª feiras (o melhor do Brasil) e um cartum mensal na Ilustrada.



Enquanto não sentiu a barra pesar, Angeli (60 anos) não parou de reinventar sua criação (reciclar seria terrível para quem, como ele, não se curva pro politicamente correto) e a produzir uma profusão de motes. Suas tiras sempre vieram em séries, pra dar vazão a inquietações de todo tipo. Dono de virtuosismo gráfico (se uma imagem equivale a mil palavras, em cada charge dele essa equação parece incalculável), Angeli é capaz de sintetizar temas e definir criaturas como ninguém. E no reduzido espaço da tira, surpreende ora com grafismo transbordante, ora com minimalismo visual. Mas é a sua inesgotável imaginação que desde 73 segura os fãs.



O acervo do Angeli, nas contas dele umas 9.000 historinhas, está preservado. O jorro criativo, porém, parou domingo passado. O vazio que virá, pro autor e admiradores, é o da ausência de mais sacadas, novos personagens, outros enredos. Entre as séries, cabe o inventário das perdas, dignas de citação na despedida: República dos Bananas (magistral catálogo de tipos), Lovestórias (o idílio pode ser grotesco e vice-versa) Music Store (ironias musicais), Confissões, O Capital, Os Economistas, Jazz (homenagens gráficas), Os Ultimos Dias de Kraus Vogel, Dr Rusga e Dr Rabuja (impagáveis críticos), Museu da Arte Inútil, Walter Ego, Gêmeos Kowalski, Moska, Rhalah Ricota, Meiaoito e Nanico, Magralha, e mais umas 150 tags no blog.



Algumas séries são mais pessoais, e nelas cabem biografia, bagagem do artista, a memorabilia, tipo: o Fundo da Gaveta, o Caderno de Esboços (baú maravilhoso), Duas Coisas Que Eu Odeio (e uma que adora), Que Tudo Mais Vá Pro Inferno, e, claro, a mais reveladora das angústias autorais, Angeli em Crise. São 152 tiras que, em linha reta mas sem forçar na cronologia, mostram o grande artista gráfico devorando a si mesmo. Da auto gozação (às vezes impiedosa, noutras debochada) à autocrítica (fingida ou verdadeira), a série expõe a incansável trajetória de quem nunca cessou de se questionar. De quem evoluiu sem parar, até chegar aqui. Ao merecido repouso do guerilheiro gráfico.



Para saber mais sobre essa decisão de Angeli, acesse a matéria da Folha SP. Para curtir dez anos das séries de tiras do Angeli, acesse o blog Chiclete com Banana. Para conhecer a trajetória do chargista, cartunista e quadrinista Angeli, acesse seu perfil na Wikipédia.



: A tira acima foi a última no jornal, 8/5. É reprise, a original foi publicada em 17/5/10)






