Declaração de Múcio em meio a tensão com EUA e às portas das eleições escancara o custo de manter o Partido Fardado intocado após a tentativa golpista do 8 de janeiro. Compartilhamos o artigo de Pedro Marin, publicado pelo Opera Mundi
Que tipo de animal é José Múcio, o ministro da Defesa do Brasil? Esta foi a questão que busquei responder num artigo de fevereiro de 2025, “O bestiário de José Múcio”. Um bestiário é um tipo de publicação típica da Idade Média em que se buscava dar descrição das bestas, isto é, dos animais e criaturas reais ou fantásticas. No de José Múcio, algumas das características que observei na criatura-ministro foram: raposa; discreto; mede a temperatura; sofista; dissimulado; conciliador; e, segundo ele mesmo, ignorante sobre a Defesa e “meio-campista” entre o governo e as Forças Armadas.
Concluía argumentando que a criatura tinha por seu criador não o governo, que o indicou ao cargo de ministro da Defesa, mas as Forças Armadas, que, podendo pôr o governo abaixo, deveriam ter suas posições e demandas reivindicadas e defendidas pelo ministro sempre, ainda quando estas se opusessem ou contradissessem o governo ou os interesses nacionais. Seguem alguns trechos, que esclarecem os hábitos da criatura: “Múcio pede para sair; os militares, pelos cotovelos, ameaçam que as relações com o governo, caso isso ocorra, retrocederão; Lula pede para que Múcio fique. Múcio fica, do ponto de vista de Lula, para tranquilizar os militares; os militares se tranquilizam, porque têm no ministro da Defesa uma extensão de suas gargantas, senão de suas cabeças; Múcio tranquiliza os militares, mas também pressiona o governo com suas reivindicações, e a República com seus pronunciamentos […] Daí que, sob a fórmula florestal do ‘meio de campo’, o ministro esconda tão bem sua folha: que a razão de ser deste homem em tudo ignorante no campo que chefia é a manutenção da tutela, vista não como uma ação ilegítima das Forças Armadas, mas como fonte de legitimidade de qualquer governo civil, na medida em que o poder estaria, afinal, em última instância, acessível à mão armada, se esta assim desejasse [..] Ao fim, o ministro Múcio, querendo ‘mediar’ relações entre uma organização que não tem legitimidade própria e o Executivo, do qual decorre a legitimidade da primeira, torna-se um aríete da primeira em relação ao segundo, e percebe que é somente sendo aríete que ele pode ser ministro; e que somente por meio deste aríete é que o governo pode ser governo. O que significa dizer, ao fim, que não há ministro da Defesa nem governo: há um poder tutelado e um mecanismo da tutela.”
Na última terça-feira (4), a criatura José Múcio declarou, em evento na Confederação Nacional da Indústria (CNI), que numa eventual invasão norte-americana ao Brasil, o melhor seria “abrir o portão, porque a gente não tem equipamento para enfrentá-los nem tem dinheiro para consertar o portão. Eu prefiro abrir o portão.” É evidente que a declaração, partindo de qualquer liderança política, é um escárnio contra a soberania nacional e efetivamente um favorecimento ao entreguismo. Fosse declaração de um membro da família Bolsonaro, seria usada pelo governo e seus apoiadores como prova da sabujice da extrema-direita. Neste caso, no entanto, que farão? Calar-se.
Ocorre que a declaração não foi dada por qualquer liderança política, mas pelo ministro da Defesa, e não ocorre num cenário em que uma invasão norte-americana é mero exercício hipotético, mas sim em tempos em que o governo Trump promove uma escalada aberta contra o Brasil, com o governo Lula (de quem Múcio somente em tese é ministro) debilmente tentando levantar a bandeira da soberania nacional em resposta.
Se a declaração seria inaceitável partindo de qualquer liderança, e mais ainda de qualquer ministro da Defesa, de qualquer país do mundo, ela se torna particularmente grave no cenário em questão. Múcio o sabe; mas, como já havia escrito, não é ministro da Defesa, mas instrumento de tutela dos militares contra o governo. Sua declaração inscreve-se na tradição da criatura de agir como mecanismo de chantagem contra o governo: como sabe que é besta dos militares (e gosta de sê-lo), tensiona em nome destes contra o governo, para dele melhor obter vantagens a seus mestres.
A declaração de Múcio não foi deslize ou inocente piada; foi feita de caso pensado, seguindo fórmula também já exposta em seu bestiário: “no geral discreto, o ministro prepara suas posições públicas, testando suas teses possivelmente polêmicas com declarações pontuais, medindo a temperatura da água antes de entrar. Quando as consolida, seja por encontrar a fórmula retórica perfeita – quase sempre por intermédio do sofismo –, seja por ter sido aparentemente aceita no debate público, ele a consagra como ditado, repetindo-a incessantemente. Em resumo, a criatura Múcio, quando fala, se especializou em erguer florestas para esconder folhas.”
O fato de que o governo que deveria representar esteja erguendo a soberania e a questão da defesa como bandeiras principais bandeiras para a disputa eleitoral de outubro não acanha a criatura; pelo contrário, a estimula. Múcio, como Lula, sabe o que significaria sua demissão, para o público em geral mas para os militares em particular, às portas das eleições. Por isso sabe, como Lula, que não será demitido por vexar e aviltar o presidente e a Nação. No entanto, cabe não esquecer que o atual governo também tem culpa pela posição em que se encontra, não só porque Lula escolheu Múcio para a pasta da Defesa, nem porque o manteve no cargo apesar muitas ocasiões em que a criatura agiu de forma similar, mas especialmente porque o governo decidiu adiar o urgente combate contra o Partido Fardado, buscando pôr panos quentes na sua relação com a caserna, mesmo após a tentativa golpista de 8 de janeiro: a escolha e manutenção de Múcio na Defesa foram parte deste primeiro objetivo. Lula colhe, três anos depois, um ministro da Defesa que, em meio a uma confrontação com a maior potência militar do planeta e às vésperas da eleição, usa sua posição como elemento de pressão e tutela em prol das demandas das Forças Armadas – contra o governo e, como a frase pronunciada em si deixa patente, contra o Brasil.
O que Múcio disse na CNI já havia sido dito pelos comandantes militares meses antes, quando disseram que “não poderiam fazer nada” frente um ataque dos EUA. Com a diferença de que eles o disseram para Lula; foi a Múcio quem coube, no período eleitoral, dizê-lo publica e abertamente.
Há, por fim, um elemento que não pode ser ignorado. No mesmo evento, a criatura-ministro fez uma metáfora com planos de saúde e os investimentos no setor da Defesa, que ele demanda que sejam aumentados: “a gente escolhe o melhor, torcendo para não usar”. Ocorre que, numa confrontação com os Estados Unidos, o “melhor” plano de saúde pode ser o pior. Como publicamos recentemente, as importações militares brasileiras são altamente dependentes da OTAN – 95,7% delas provém de países-membros ou parceiros da aliança. São excelentes equipamentos para usar nas tarefas de repressão interna, para fazer exercícios conjuntos com os norte-americanos ou para medir capacidades com outras repúblicas sul-americanas, mas inúteis num confronto contra os EUA e seus aliados – o que é sabido também por nossos militares, que no entanto seguem demandando e escolhendo os equipamentos de empresas americanas e europeias. Múcio não precisaria “abrir o portão”, porque o “portão” foi construído, precisamente, com tecnologia norte-americana – é para reforçar este portão, em tudo aberto aos norte-americanos, que o ministro pede mais investimentos em Defesa.
Qualquer concepção de Defesa brasileira séria, que tome os EUA como um hipotético inimigo, haveria de se distanciar da concepção altamente dependente de altos investimentos em capital intensivo e se aproximar de uma concepção de Defesa irregular, tal qual fez a Venezuela – vencida, é verdade –, o Vietnã, vitorioso em duas guerras contra potências militares, e o Irã, que hoje põe Trump de joelhos. Mas estes são justamente os exemplos que Múcio e as Forças Armadas fazem questão de desprezar; preferem manter a Defesa brasileira como um simulacro, uma reprodução em pequena escala da norte-americana.
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