RAFAEL MARTINELLI

Após polêmica, Prefeitura dá 48 horas para revisar ciclofaixa pintada sobre piso tátil em Cachoeirinha; estava na hora

Ciclovia sobre piso tátil foi só o meme de uma obra que é case de incompetência pública

A Prefeitura de Cachoeirinha abriu expediente administrativo e estabeleceu prazo de 48 horas para que a equipe técnica apresente solução para os problemas na implantação das ciclofaixas no município — entre eles, o caso mais emblemático: a pintura da faixa para bicicletas sobre o piso tátil destinado a pessoas com deficiência visual.

A atual gestão trata a situação como herança da administração do ex-prefeito cassado Cristian Wasem e do ex-vice Delegado João Paulo Martins.

– Chegamos em uma cidade que não tinha o básico. Era um cenário de caos administrativo. A ciclofaixa é só mais uma herança – resume Cláudio Ávila, assessor especial da prefeita interina Jussara Caçapava, sobre a obra que integra o Pró-Transporte, um programa do governo federal.

O investimento orçado inicialmente em R$ 1.212.619,49, conforme o Portal da Transparência de Cachoeirinha, apresenta atrasos durante toda execução que começou em 2019. A investigação interna também vai verificar eventuais aditivos ao contrato.

O despacho determina a apresentação, em até 48 horas, de um plano detalhado contendo diagnóstico da situação atual, avaliação dos riscos à mobilidade e acessibilidade, propostas de correção ou revisão do traçado, além de estimativa de custos e prazos.

Também foi solicitado o envio imediato de documentos como contrato, projeto executivo, ordem de início da obra e informações sobre as medidas adotadas em relação à empresa responsável.

Segundo a administração, a prioridade é garantir segurança, legalidade e interesse público, “com a possibilidade de revisão de atos da gestão anterior sempre que houver risco à população”.

O caso ganhou dimensão estadual após denúncia do vereador Léo da Costa (PT). Só no Instagram, a postagem feita há cinco dias já alcançava, na manhã desta terça-feira, 77,7 mil curtidas, além de milhares de comentários, compartilhamentos e encaminhamentos.

Não é detalhe. É sintoma.

A força das redes acelerou o que, em outros tempos, poderia se arrastar por semanas nos corredores administrativos.

Ao fim, acerta o governo da prefeita interina Jussara Caçapava ao abrir investigação formal. Dá à polêmica a transparência que o tema exige.

O problema das ciclovias em Cachoeirinha não nasce agora. Vem desde o governo Miki Breier, atravessou a gestão Cristian e desemboca, agora, às cegas, no colo de Jussara.

Se houve erro de concepção, execução ou fiscalização, é preciso identificar. Se está errado, é preciso consertar.

A abertura do expediente administrativo não resolve o problema. Mas sinaliza algo relevante: o reconhecimento de que a cidade não pode naturalizar soluções improvisadas.

Entre a ciclovia e o piso tátil, há mais do que tinta sobre concreto.

Há o teste de uma gestão diante de um erro visível — e amplificado.

E, na política, o que é visível raramente volta a ser invisível.

Ainda mais nos 4,5 quilômetros de uma ciclovia que, por anos, já resta inscrita nos Grandes Lances dos Piores Momentos de Cachoeirinha.

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