A política tem uma linguagem cifrada. Com o perdão do trocadilho infame, o cifrão da entrega de uma emenda parlamentar de R$ 200 mil do deputado estadual Valdir Bonatto à Prefeitura de Gravataí emite outra moeda — a eleitoral.
Formalmente, tratava-se de uma agenda de governo: recursos para saúde e mobilidade urbana. O roteiro foi o tradicional da liturgia pública: prefeito Luiz Zaffalon agradecendo, deputado entregando, secretários acompanhando, fotografia institucional produzindo a imagem da cooperação republicana.
Mas, no etéreo da política — onde quase nunca importa apenas o que está dito — o encontro desenhou algo maior: o ensaio público de uma dobradinha eleitoral entre o vice-prefeito Dr. Levi Melo, pré-candidato a deputado federal, e Bonatto, que busca novo mandato na Assembleia.
E talvez a principal evidência disso seja justamente o fato de ninguém precisar dizer. Porque a política raramente anuncia suas alianças no momento em que as constrói. Primeiro testa. Mede temperatura. Observa reações. Só depois oficializa.
A emenda, neste caso, foi menos o centro da agenda e mais o cenário onde os atores começaram a ocupar posições.
Há uma racionalidade eleitoral evidente nessa aproximação. Levi e Bonatto dialogam com eleitorados semelhantes. Não necessariamente iguais — semelhantes. E, em política proporcional, isso importa muito.
Se Levi reúne médicos, profissionais liberais e setores ligados à saúde em sua caminhada, faz sentido apresentar como parceiro um deputado que carrega o ativo de ex-prefeito de Viamão, empresário bem-sucedido e dono de instituição privada de ensino.
E o movimento inverso também funciona. Bonatto, ao circular entre empresários, gestores e setores conservadores do eleitorado metropolitano, encontra em Levi um ativo eleitoral raro: um médico de forte reconhecimento regional, proprietário de uma das clínicas mais conhecidas do Rio Grande do Sul e figura que mistura capital técnico, inserção comunitária e densidade emocional após o drama pessoal vivido nos últimos meses.
Porque há um componente humano que atravessa a candidatura de Levi — e talvez seja impossível compreender sua dimensão eleitoral sem passar por ele.
Depois de 78 dias internado, enfrentando uma mielite transversa autoimune rara, Levi voltou à vida pública carregando algo que a política normalmente não sabe produzir artificialmente: autenticidade dramática.
A política gosta de narrativas de superação. Mas quase sempre as fabrica em laboratório. A de Levi veio da UTI.
O vice-prefeito reapareceu não como o personagem hiperativo que trabalhava “das seis da manhã às dez da noite”, mas como alguém reconstruindo literalmente a própria vida. Um homem reaprendendo movimentos básicos, submetido a fisioterapia diária, tentando reorganizar corpo, rotina e identidade.
Isso altera a percepção pública. Porque, em determinado momento, a política deixa de enxergar apenas o candidato e passa a enxergar o sobrevivente. E isso produz empatia — inclusive em ambientes ideológicos onde a trajetória empresarial e médica de Levi já encontrava aderência natural.
A aproximação com Bonatto, portanto, não nasce apenas de cálculo partidário. Surge também da convergência de perfis eleitorais.
O fato de Levi estar no Podemos e Bonatto no PSD talvez dissesse muito sobre política anos atrás. Hoje, diz pouco. Os partidos seguem existindo formalmente. Organicamente, nem sempre.
A política contemporânea opera cada vez mais por redes de projeto, afinidades eleitorais e conveniências regionais — uma espécie de condomínio pragmático onde a ideologia frequentemente serve mais como decoração do que estrutura.
É o que já chamei, em outros momentos, de ficção organizada. Os que estão, às vezes não estão. E os que não estão, estão.
A agenda da emenda escancarou exatamente isso. Porque seus reflexos ultrapassam Gravataí. Em Viamão, por exemplo, a presença do vereador Clebes Mendes ao lado de Bonatto talvez tenha produzido mais ruído político do que a própria emenda.
Clebes é presidente do PSDB de Gravataí. E o PSDB é justamente o partido do prefeito de Viamão, Rafael Bortoletti — hoje adversário feroz de Bonatto, apesar do ex-prefeito ter sido uma espécie de seu ‘Grande Eleitor’ em 2024.
A política, às vezes, parece escrita por alguém especializado em ironias institucionais. Bonatto ajudou a eleger Bortoletti. Hoje, são arqui-inimigos políticos. E, agora, aparece publicamente ao lado de um dirigente tucano de Gravataí justamente no momento em que Clebes vive seu período de maior fragilidade política.
Porque Clebes chega a 2026 sob forte constrangimento eleitoral após a operação policial que cumpriu mandados em seu gabinete e residência no âmbito de investigação por suposto estupro de vulnerável.
O caso segue sob sigilo. Há investigação policial em andamento. Há relato formalizado em ocorrência, diligências autorizadas judicialmente e apreensões realizadas. Há também a negativa enfática do vereador e de sua defesa, que alegam falsidade das acusações e denunciação caluniosa.
Na Câmara de Gravataí, o movimento institucional tem sido o da suspensão assistida: a Comissão de Ética existe formalmente, mas a tendência predominante é aguardar eventual avanço ou indiciamento policial antes de qualquer medida mais contundente.
Algo como um limbo político. Nem absolvido politicamente. Nem condenado institucionalmente. Apenas suspenso no tempo. E o tempo, em política, raramente é neutro. Porque, ao mesmo tempo em que esfria pressões imediatas, reorganiza sobrevivências.
Clebes lançou pré-candidatura a deputado estadual poucos dias após o registro da ocorrência policial. Mas, nos bastidores, cresce a percepção de que sua caminhada eleitoral tornou-se profundamente constrangida.
E é aqui que a presença dele no ato com Bonatto ganha densidade política. Caso sua candidatura estadual não prospere — hipótese hoje considerada plausível em diferentes ambientes políticos —, abre-se espaço para redistribuição de apoios regionais. Bonatto pode ser um dos beneficiários disso.
A cirurgia plástica política
Não por acaso, a política começa a aproximar personagens muito antes de formalizar alianças. Primeiro aparecem juntos em agendas institucionais. Depois dividem fotos. Mais adiante dividem eleitorados. Até que, um dia, a aliança já existe antes mesmo de ser anunciada.
Há também reflexos internos em Gravataí. Porque, até aqui, desenhava-se como preferencial a possibilidade de uma dobradinha entre Levi e o vereador Bombeiro Batista, do Republicanos, o mais votado da cidade nas duas últimas eleições.
Outra construção, ainda mais tímida, envolvia o ex-deputado estadual Dimas Costa, ‘embaixador’ político do governador Eduardo Leite em Gravataí.
A aparição de Bonatto reconfigura parcialmente a geometria das alianças. Não necessariamente rompe pontes. Mas altera prioridades, espaços e expectativas. Porque campanhas proporcionais funcionam como mercados simultâneos de votos, estruturas e símbolos. E símbolos importam.
A imagem de Levi ao lado de Bonatto, num ato institucional, produz mensagem para além da fotografia. Comunica aproximação. Comunica teste de viabilidade. Comunica que há conversa acontecendo.
E talvez o mais revelador seja justamente o fato de tudo isso ocorrer num ambiente em que os partidos parecem cada vez menos capazes de organizar coerência política. A ideologia virou uma peça secundária diante da engenharia eleitoral.
Ao fim, talvez estejamos vendo apenas o começo do período mais típico da política pré-eleitoral: a temporada das dobradinhas.
Nem sempre elas ocupam os mesmos palanques estaduais. Nem sempre dividem os mesmos projetos nacionais. Às vezes sequer compartilham identidade partidária consistente. Mas compartilham interesse.
E isso, na política contemporânea, frequentemente basta. É o tal pragmatismo implacável. A Realpolitik.
É mais ou menos como dizia Millôr Fernandes: “Agora, que todas as ideologias falharam, só nos resta cirurgia plástica”.
Na política de 2026, talvez nem isso seja necessário. Basta uma boa fotografia institucional.






