RAFAEL MARTINELLI

Cassado, Cristian convoca eleitores contra vereadores que acusa de “traição” em Cachoeirinha

Cristian com a esposa Fabi, que pode ser sua candidata na eleição suplementar

Menos de 48 horas após ter o mandato cassado pela Câmara, o agora ex-prefeito de Cachoeirinha, Cristian Wasem (MDB), fez sua primeira manifestação pública. Não foi em entrevista, nem em nota oficial. Foi em vídeo publicado nas redes sociais, com um texto de apresentação que já sinalizava o tom: “Acharam uma nova fórmula para burlar a vontade do povo!”.

Na gravação, Cristian não reconhece legitimidade no julgamento que o derrubou por 14 votos a 3, após mais de 12 horas de sessão, e sustenta que foi afastado por “vontade meramente política”, sem imputação de corrupção, desvio de recursos ou crime.

“É uma situação extremamente grave. Cassaram os mandatos do prefeito e do vice, na Câmara dos Vereadores, por vontade meramente política, sem corrupção, sem desvio de dinheiro público, sem qualquer tipo de crime, sem improbidade administrativa”, afirma.

A estratégia discursiva repete — agora fora do plenário — o eixo central de sua defesa no chamado Impeachment 2.0: negar irregularidades e compará-las a um ataque direto à soberania do voto.

Cristian insiste na narrativa de ruptura democrática.

“Acharam uma nova forma de burlar a vontade do povo e virar prefeito, ou prefeita do nosso município”, diz, em referência indireta à ascensão de Jussara Caçapava (Avante) ao comando interino do Executivo até a eleição suplementar.

O ex-prefeito também volta a invocar o número que marcou sua trajetória política recente: os 72% dos votos válidos obtidos na eleição suplementar que o levou ao cargo.

“Rasgaram 47 mil votos, num ataque frontal à democracia”, afirma, sintetizando o enquadramento que pretende sustentar no debate público — e, possivelmente, tentar influenciar o Judiciário.

Mas o ponto mais contundente do vídeo não é a crítica institucional. É o chamado explícito à mobilização popular contra os vereadores que votaram pela cassação — inclusive ex-aliados.

Cristian afirma que, nos bastidores, ouviu a avaliação de que a reação popular seria passageira.

“O que se fala no meio político? Que o povo vai reclamar um pouco e logo esquece”, diz.

Na sequência, faz um apelo direto aos eleitores:

“Então quero pedir pra ti, que conhece o teu vereador, a tua vereadora, que cobre uma explicação, e que lembrem eles que o povo não vai esquecer daqueles que os traíram”.

A fala transforma o pós-impeachment em disputa narrativa aberta: de um lado, a Câmara que sustenta ter seguido o Decreto-Lei 201/1967; de outro, um prefeito cassado que tenta transferir o julgamento político para o campo da opinião pública, rotulando a maioria parlamentar como traidora da vontade popular.

O vídeo você assiste clicando aqui.

A esposa e os “traidores”

Como registrado no julgamento, não há imputação de corrupção, enriquecimento ilícito ou desvio de recursos contra Cristian ou o vice Delegado João Paulo Martins (PP).

A cassação se baseou em dois núcleos centrais: as chamadas pedaladas fiscais no instituto de previdência, estimadas em mais de R$ 20 milhões, e uma contratação emergencial irregular atribuída ao período em que o vice exerceu interinamente o Executivo.

No modelo brasileiro de impeachment municipal, isso basta.

O Decreto-Lei 201 não exige crime comum. Exige maioria política.

E ela, como mostram os números da sessão, ruiu de forma quase total: dos cinco vereadores do MDB, apenas um votou contra a cassação do prefeito do próprio partido. Dos Grandes Lances dos Piores Momentos, o PP do vice deu seus dois votos favoráveis à cassação.

A defesa de Cristian e do vice já sinalizou que irá judicializar o resultado, apostando em nulidades do rito — especialmente na discussão sobre impedimentos declarados e não declarados durante a sessão.

Paralelamente, a crise política ainda terá novo capítulo: o Impeachment 1.0, mais antigo, segue com julgamento previsto, mesmo após a perda do mandato no processo mais recente — movimento que pode reabrir o que chamo ‘loteria de toga’.

Enquanto isso, Cristian faz o que lhe resta politicamente: fala com sua base, reforça a tese de golpe e planta o discurso que pode alimentar a eleição suplementar — ainda que ele próprio esteja inelegível por oito anos, em sua última manifestação na noite do julgamento praticamente lançou a esposa, Fabi Medeiros, como candidata.

Conforme a legislação eleitoral, o novo pleito deve ser marcado em até 180 dias. Em política, é uma eternidade. E certeza de crise continuada. Nada, porém, que Cachoeirinha — que pela última década mistura o noticiário político com o policial — já não experimente cotidianamente.

Ah, e é crise sem dia para acabar. Já imaginaram se Fabi vence a eleição suplementar, como vai governar com os “traidores” que Cristian denuncia no vídeo? O pleito extra encerra neste semestre; os mandatos dos vereadores só em 31 de dezembro de 2027.


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