Não foi uma visita qualquer. E já não é mais possível tratá-la como protocolar.
O novo contato de Canoas com uma comitiva chinesa, na terça-feira (17), reforça um padrão que começa a se consolidar: o interesse deixou de ser pontual e passa a ter método. Há recorrência. Há aprofundamento. E, sobretudo, há perguntas — muitas perguntas.
Desta vez, o roteiro levou o grupo até a Exatron, no Parque Canoas de Inovação (PCI), onde negociadores do governo Airton Souza e empresários locais foram colocados frente a frente com investidores estrangeiros. Não para discursos. Para teste de realidade.
Logística. Custos. Legislação trabalhista. Cadeia produtiva.
É nesse tipo de conversa que projetos começam — ou terminam — antes mesmo de serem anunciados.
A cidade, por sua vez, tenta se posicionar não apenas como território, mas como plataforma: proximidade com Porto Alegre, conexão com as BRs 290 e 116, acesso ao Aeroporto Salgado Filho e ligação estratégica com o Porto de Rio Grande. Um pacote logístico que, somado à base industrial e ao perfil educacional, busca responder à pergunta central de qualquer investidor: vale a pena produzir aqui?
Nos bastidores, a resposta ainda está sendo construída.
O interesse tem nome: BODO EBIKE
Diferentemente de outras visitas institucionais, esta tem um vetor mais claro.
A empresa chinesa BODO EBIKE, fabricante de motos, bicicletas e triciclos elétricos, está avaliando sua entrada no mercado brasileiro — e Canoas aparece como possível porta de entrada.
O plano, ainda em fase inicial, segue um roteiro já conhecido na estratégia industrial chinesa: começar com um centro de distribuição (CD) e, em um segundo momento, avançar para a produção local.
A estimativa inicial é de cerca de 200 empregos diretos já na fase logística. Não é pouco. Mas também não é o ponto final.
A ambição, segundo interlocutores envolvidos nas tratativas, é maior. Há quem, dentro do governo municipal, resuma de forma direta: “é coisa grande”.
A comparação ajuda a dimensionar: a ideia é replicar, em menor escala, um modelo semelhante ao da instalação da BYD na Bahia: distribuição primeiro, industrialização depois.

O que Canoas ofereceu — e o que os chineses quiseram saber
A aproximação não começou na visita ao parque.
Na Expodireto, dias antes, a Prefeitura já havia feito a primeira apresentação formal do município à comitiva, destacando posição estratégica na Região Metropolitana, infraestrutura logística consolidada, ambiente desburocratizado para negócios e condição de segundo polo educacional do Estado — o que significa mão de obra qualificada.
Mas o que marcou as reuniões não foi o que Canoas disse. Foi o que ouviu.
– Perguntaram mais do que nos informaram – resumiu ao Seguinte: a secretária de Desenvolvimento Econômico e Inovação, Patrícia Augsten, que conta que no governo o investimento passou a ser chamado de ‘GM das motos elétricas’; tal o interesse.
E o foco das perguntas revela muito sobre o estágio da negociação: custo do trabalho no Brasil, segurança jurídica, funcionamento da cadeia de fornecedores e capacidade industrial instalada.
Não são perguntas de curiosidade. São perguntas de decisão.
A comitiva também foi conectada a empresas já instaladas na cidade — e até a grupos estrangeiros, como os coreanos da Dongwon, que operam na cadeia da GM. O objetivo: validar, na prática, o ambiente de negócios.
Porque, nesse tipo de processo, a fala institucional é apenas o começo. O investidor quer ouvir quem já está dentro.
A gigante que não aparece
A BODO EBIKE não é um nome popular. E isso, longe de ser um problema, é quase uma característica.
Fundada em 1997, com quatro fábricas — três na China e uma na Alemanha —, a empresa opera no modelo OEM/ODM. Em outras palavras: produz para outras marcas.
É o que se chama de “fabricante invisível”.
Não lidera rankings globais de marca, como gigantes do setor de mobilidade elétrica, mas faz parte de um ecossistema industrial que sustenta o mercado. Um mercado, aliás, gigantesco: a China responde por mais de 90% da produção mundial de e-bikes.
Nesse contexto, a BODO se encaixa no chamado “tier 2” da indústria chinesa: empresas de médio porte, com escala relevante, presença global e capacidade de adaptação.
Traduzindo: não é uma startup. E também não é uma gigante.
Mas é exatamente o tipo de empresa que costuma se internacionalizar quando identifica oportunidade.

O tempo chinês não é o tempo ocidental
Para entender o que está acontecendo — e o que ainda pode acontecer —, é preciso olhar além dos números.
Negociar com chineses exige compreender um elemento que raramente aparece em relatórios: cultura.
No livro EUA x China – A luta pelo poder global, o cientista político Pedro Donizete da Costa Junior resgata um episódio emblemático: a visita do presidente Richard Nixon e do secretário de estado Henry Kissinger à China comunista, em 1972. A primeira de um presidente estadunidense a território chinês. E em plena Guerra Fria.
Esperavam objetividade diplomática. Encontraram outra lógica.
Foram orientados a descansar antes de qualquer reunião. No dia seguinte, ao serem recebidos por Mao Tsé-Tung, ouviram uma sugestão incomum: deixar acordos para depois e discutir, antes, ideias mais amplas — “o que pensa sobre a vida?”, perguntou Mao a Nixon.
Não era improviso. Era método.
A cultura de negócios chinesa é atravessada pelo conceito de guanxi — redes de confiança construídas ao longo do tempo. Relações que não se firmam em reuniões únicas, nem em apresentações institucionais.
Exigem presença. Repetição. Teste. E, principalmente, paciência.
Ao fim, o movimento em curso é óbvio: Canoas está sendo observada. A cidade reúne atributos que dialogam com o interesse chinês por polos médios, com capacidade industrial, boa logística e potencial de expansão.
Mas há um ponto essencial: interesse não é investimento. Ainda não. O que existe, neste momento, é algo anterior — e igualmente relevante: disposição para avançar.
Se a lógica chinesa for mantida, novas visitas virão. Novas perguntas também. E, aos poucos, o que hoje é análise pode se transformar em decisão.
Até lá, Canoas segue no que talvez seja o estágio mais importante desse processo: o momento em que está sendo avaliada. Em silêncio. Com atenção.
E, como ensina a própria história chinesa, é justamente aí que tudo começa.
O tempo chinês é milenar.






