Davi Severgnini, mais longevo secretário da Fazenda da História de Gravataí, 11 anos no cargo e 14 de Prefeitura, coordenador político do governo Luiz Zaffalon e, em 2024, articulador da maior aliança eleitoral já registrada no município, pediu demissão. O prefeito não quer aceitar.
Criei para Davi o sobrenome ‘Zaffa do Zaffa’, pelo meio político, até por sua fidúcia nas relações, simpatizar com seu nome para a sucessão do prefeito, em 2028.
Repetiria ele, de certa forma, a escolha que fez o prefeito Marco Alba, em 2020, lançando como candidato Zaffa, que tinha um legado em cargos públicos, mas era um estreante nas urnas — o que na política se convém chamar outsider.
Quando a informação circulou em conversas de políticos, mensagens e prints, custei a acreditar. A parceria entre os dois parecia inquebrantável.
Confirmei a informação.
Se a lealdade continua, arrisco antecipar não será mais entre companheiros de governo.
Davi está irredutível. Já tomou sua decisão. Foi difícil fazê-lo falar.
Instiguei com os fatos, aqueles chatos que atrapalham argumentos. Ele pediu demissão dia 12. No meio político se tornou uma informação, um fato apenas adiado. Já era assunto até em cidades vizinhas. No Palácio Piratini, inclusive.
A simpatia de alguns, a devoção de outros, ou mesmo a festa silenciosa dos urubus, porém, fazia com que políticos evitassem confirmar. Ninguém quer ter a fama da intriga.
Davi é, hoje, um peso pesado da política de Gravataí. Mesmo que sua discrição (não tem rede social e não vive a vida instagramável de 11 em cada 10 políticos) ainda circunscreva sua influência aos bastidores.
Ouvi Davi e Zaffa.
Está acontecendo.
– Fiz uma reflexão nas férias. Meu filho tinha um ano quando entrei na Prefeitura. Hoje tem 15. Sou grato por tudo, aos três prefeitos com os quais trabalhei. Acho que tive mais acertos do que erros. Gravataí é uma cidade única, maravilhosa. Acredito que deixo um bom legado – disse.
Davi começou sua jornada na Prefeitura no governo de Acimar da Silva (em memória), eleito prefeito pelos vereadores após o impeachment da prefeita Rita Sanco. Foi diretor do Gabinete de Planejamento, secretário do Orçamento, até assumir a Fazenda.
Guardou o cofre público por seis anos no governo de Marco Alba. Com Zaffa, por cinco.
– Ruídos são normais em qualquer família, ainda mais na política. Mas saio para me dedicar, de corpo e alma, a um novo desafio: a reeleição do Dimas. Sigo torcendo pelo governo do Zaffa – diz, novamente cometendo sua característica discrição, sem revelar algum motivo bombástico, e anunciando foco na coordenação da campanha do deputado estadual Dimas Costa, o ‘embaixador’ do governador Eduardo Leite em Gravataí.
– O Zaffa me pediu para permanecer até dia 2, quando volta de férias – explica.
Na Quarta-Feira de Cinzas, Davi chegou às 8h na Prefeitura e já foi recebido por Dimas. Bateram foto e o deputado postou em suas redes, com louvores ao secretário e, hoje, aparentemente seu principal parceiro político.
Dimas não fala baixo ao dizer, pelos 463.5 km² de Gravataí e nos municípios que visita como deputado, que Davi é seu candidato a prefeito — mesmo sendo ele, Dimas, já experimentado nas urnas como vereador, candidato a prefeito e deputado.
– Saio da Prefeitura, mas não da política – garante Davi.
No que chama de “transição”, Davi toca a Fazenda, mas já não opera na articulação política. Não é ele a construir com a Câmara de Vereadores, por exemplo, a aprovação do novo contrato com a Santa Casa, que administra o Hospital Dom João Becker.
Dilamar Soares, prefeito interino nas férias de Zaffa, e devido à licença-saúde do vice-prefeito Dr. Levi Melo, é quem conversa com os vereadores.
Dila é, para permanecer na personagem, um exemplo da habilidade de Davi na condução política. Foi eleito presidente da Câmara mesmo tendo relações conturbadas com colegas de parlamento.
Simbólico: recebeu os votos de Anna Beatriz da Silva, esposa de Dimas, irmão com o qual sempre manteve uma relação de distância familiar e política.
Davi conseguiu cortar a distância política dessa equação complicada — eu, como amigo de mais de década dos dois filhos da Dona Margarida, testemunho o feito.
Chegamos ao chefe, o Zaffa.
O prefeito atendeu ao Seguinte: em suas férias e não escondeu a intenção de demover Davi do pedido de demissão.
– Davi é fundamental para o governo, por todo seu conhecimento na Fazenda, e para nosso projeto político, em 2026 e 28. Não concordo com a demissão. Vamos conversar. Uma briga aqui, outra lá, é coisa normal em qualquer família. Ele vai ter que ser muito bom para me convencer que vai sair – disse Zaffa.
– Não abro mão dele. Ele é importante para todo time. Para tudo tem um jeito. Vamos conversar dia 2. Vamos nos acertar. O Davi é nosso – concluiu.
Ao fim, apenas a confirmação do pedido de demissão já é uma notícia-bomba.
E, por mais que o prefeito manifeste esperança em manter Davi, parece que a decisão já está tomada pelo advogado de 53, que assim como Zaffa adotou Gravataí para morar.
É, reputo, o mais forte “Bem-vindo à política” que experimenta o hoje ex-outsider Zaffa. Confronta-se o prefeito com aquela máxima de que o líder não precisa apenas vencer adversários; precisa, sobretudo, manter seus aliados.
Se Davi sair, mais do que achar alguém para cuidar das contas, Zaffa precisará recompor a articulação política do governo. Assumir ele próprio o desafio, permito-me não recomendar, porque o rei precisa antes de tudo ser protegido — e, como conheço Zaffa faz 30 anos, até por temperamento.
Um incompetente para a função já não deu certo, em outro momento. Mas isso é material para outro artigo.
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