RAFAEL MARTINELLI

‘Deu PT’: Executiva estadual atropela diretório de Cachoeirinha e orienta voto pelo impeachment; Almansa fala em “vergonha” e “mancha na história do partido”

Projeção de bastidores é de que Cristian possa ser cassado por até 16 votos a 1, nesta sexta

A guerra interna no Partido dos Trabalhadores de Cachoeirinha saiu definitivamente do plano dos bastidores e entrou no campo da intervenção aberta.

‘Deu PT’, de ‘Perda Total’, como já analisei em PT contra impeachment, vereador a favor: partido entra em modo ‘perda total’ interna em divergência sobre cassação de Cristian em Cachoeirinha.

Contrariando a decisão do diretório municipal — que havia fechado questão contra a cassação do prefeito Cristian Wasem (MDB) e do vice-prefeito Delegado João Paulo Martins (PP) — a Comissão Executiva Estadual do PT divulgou, nesta quarta-feira (31), uma orientação de voto favorável ao impeachment em tramitação na Câmara Municipal.

O documento é assinado pelo secretário-geral do PT-RS, Cícero Balestro, e foi aprovado, segundo o texto, na própria quarta. A orientação ocorre após o vereador Leo da Costa recorrer formalmente à direção estadual, pedindo autorização para descumprir a decisão municipal e votar pela cassação.

A resposta da estadual caiu como uma bomba política no PT local — e provocou reação imediata e duríssima de David Almansa, uma das principais lideranças do partido na cidade, que classificou a decisão como “vergonhosa”, “uma mancha na história do PT gaúcho” e “um atropelo ao estatuto”.

A crise se instala às vésperas do julgamento do Impeachment 2.0, marcado para esta sexta-feira (2), às 10h, quando o plenário decidirá se cassa ou não os mandatos do prefeito e do vice.

A nota da estadual: oposição ao governo e sim ao impeachment

Na orientação enviada ao diretório municipal, a Executiva Estadual do PT constrói um argumento político que combina três eixos: oposição histórica ao MDB em Cachoeirinha, denúncias de corrupção e legitimidade do processo de impeachment.

O texto afirma que o município “convive há alguns anos com gestões caracterizadas pelo descaso com a população” e sustenta que, na atual administração de Cristian, esses problemas “se agravam”.

A nota menciona ainda “graves casos de corrupção e improbidade” e lembra que o próprio PT ajuizou uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) contra a chapa vencedora do último pleito — ação que, segundo a Executiva Estadual, “serviu de base para um dos processos de impedimento”.

Embora reconheça formalmente “a legitimidade do debate político realizado pelo Diretório Municipal de Cachoeirinha”, a Executiva Estadual conclui com uma orientação direta:

“A Executiva Estadual do PT orienta ao Diretório Municipal de Cachoeirinha para que se posicione favoravelmente ao impeachment em tramitação na Câmara Municipal, bem como orienta que nossa bancada municipal vote conjuntamente nesse processo.”

Na prática, a estadual escolheu o impeachment — e espera que os dois vereadores petistas sigam essa linha.

A reação de David Almansa: “Não nos curvaremos” — e o WhatsApp

A resposta de David Almansa veio em tom de ruptura.

Para ele, a decisão da Executiva Estadual não apenas desautoriza o diretório municipal, como viola frontalmente o estatuto partidário e ignora o processo democrático interno que levou o PT local a fechar posição contra a cassação.

– Abomino qualquer tipo de golpe que desrespeita o voto popular – afirmou Almansa, lembrando que o diretório municipal debateu o tema “por longo período” e decidiu, por ampla maioria, votar contra o impeachment.

Segundo ele, a decisão da estadual foi tomada de forma “envergonhada”, sem debate formal, “em reunião por WhatsApp”, e baseada em denúncias que nem sequer constam no relatório final da comissão processante.

– O relatório não acusa o prefeito de roubar um real, de enriquecimento ilícito. Mesmo assim, a estadual cita irregularidades que não estão no parecer – criticou.

Almansa também traçou comparação com o caso Dilma Rousseff.

– Pedalada fiscal a gente lembra bem quem teve o mandato cassado e o que aconteceu com o Brasil quando um governo interino e golpista tomou conta – disse.

No caso específico do Instituto de Previdência, um dos pilares do relatório, ele argumenta que o parcelamento foi aprovado pelos próprios vereadores:

– Se isso é crime, então esses vereadores e vereadoras também deveriam ser cassados.

O ataque direto a Leo da Costa e à direção estadual

David Almansa foi além. Mirou diretamente o vereador Leo da Costa, a quem atribui a origem da intervenção estadual.

– Vereador que nunca se manifestou divergente internamente decidiu pedir guarida a seus apoiadores na direção estadual – disparou.

Para Almansa, o episódio revela um problema estrutural do PT gaúcho: dirigentes “desconectados das cidades”, que “não saem de gabinetes” e “ouvem relatos parciais”.

Ele cita, inclusive, a menção à AIJE na nota estadual.

– Esse dirigente cita uma ação que eu movi e nunca me chamou para explicar o conteúdo. Isso mostra como esse tipo de dirigente destrói o partido – afirmou.

E concluiu com um recado político direto, mantendo a ameaça de acionar votos dissidentes em comissão de ética, o que poderia levar em última instância à cassação de mandato parlamentar por infidelidade partidária:

– O PT é maior que qualquer vereador, deputado, prefeito ou senador. Nenhum mandato está acima do partido. Quem quer vencer disputa interna, que o faça pela democracia, não esperneando ou chorando para defender acordos escusos.

Apesar da orientação da estadual, Almansa sustenta que não há intervenção formal no diretório municipal e que, estatutariamente, a decisão local segue válida:

– Há uma orientação, mas o que vale é a decisão regulamentada, legitimada por esmagadora maioria, contra a cassação.

O 16 x 1

A orientação da Executiva Estadual pode confirmar uma conta de até 16 x 1, cuja possibilidade antecipei na terça-feira, em Cristian e Delegado devem ser cassados sexta por ‘pedaladas’ semelhantes a Dilma; veja detalhes do relatório final — e a conta dos votos.

Para cassar prefeito e vice são necessários 12 votos entre os 17 vereadores.

O placar já se desenhava amplamente desfavorável ao governo, mas a divisão interna do PT adiciona um elemento simbólico decisivo.

Se Leo da Costa seguir a orientação estadual, votará a favor da cassação. Gustavo Almansa, por sua vez, restaria teoricamente liberado pela direção estadual para mudar o voto — contra o impeachment — que deu no diretório municipal.

E tudo isso ocorre sob uma ironia central da crise, um Dos Grandes Lances dos Piores Momentos da história recente de Cachoeirinha: ao tentar salvar Cristian com a chamada ‘Oração a São PT’, o governo acabou perdendo o voto do pastor Edison Cordeiro — exatamente o voto que não podia perder.

Agora, o PT reza dividido.

E o julgamento já tem data, hora e transmissão ao vivo.


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