CARLOS WAGNER

Eleição de 2030 começa nos segundos seguintes ao anúncio do novo presidente

Foto: Paulo Pinto

Não encontrarão maiores dificuldades os historiadores que vão esmiuçar o que aconteceu na disputa eleitoral em 2026 para presidente da República, governadores, deputados (estaduais e federais) e senadores. Há uma abundância inédita de dados oriundos das pesquisas eleitorais, graças a novas técnicas adicionadas às perguntas feitas aos pesquisados, que lançaram luzes sobre questões que influenciam a intenção de voto e que antes ficavam de fora do levantamento e contribuíam para aumentar o grau de imprecisão do trabalho. Há dezenas de institutos de pesquisas atuando no Brasil. Dois deles, o Quaest e o Datafolha, que divulgaram suas pesquisas na quarta (21) e quinta-feira (22), estão dando empate técnico no segundo turno da eleição presidencial que será realizado no próximo domingo (25) entre o senador Flávio Bolsonaro (PL), 45 anos, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Segundo o Quaest, Flávio tem 45% das intenções de voto e Lula, 44%. No Datafolha, ambos aparecem empatados com 50%. Em situações como essa, o vencedor só é conhecido no final da apuração. Felizmente, graças às urnas eletrônicas, o resultado sairá no mesmo dia da eleição e, se não houver atraso na apuração, saberemos quem será o próximo presidente do Brasil por volta das 20h de domingo. É consenso entre os analistas políticos e estudiosos que uma fatia de 7% do eleitorado vai decidir a parada. Nesse grupo se destacam os chamados “indecisos”, eleitores que não têm vínculo com nenhum candidato e que costumam deixar para a última hora, às vezes já a caminho da urna, a decisão em quem vão votar. Tudo influencia nesse voto, até o clima: se estiver chovendo, o eleitor pode preferir não sair de casa para votar. Lembro que o voto é obrigatório para maiores de 18 anos e facultativo para analfabetos, maiores de 70 anos e jovens entre 16 e 18 anos. Aqui uma informação que considero importante. Existem no Brasil 17 milhões de eleitores com mais de 70 anos, portanto não são obrigados a votar. No primeiro turno, 8 milhões optaram por não votar. Essa geração foi a que redemocratizou o Brasil depois de 21 anos de ditadura militar. O golpe de estado de 1964 deixou um rastro de presos políticos mortos, torturados e desaparecidos, além de uma bagunça na economia que resultou numa hiperinflação. A ditadura terminou oficialmente em 1988, quando foi publicada uma nova Constituição. No meio desses 8 milhões de votos podem estar aqueles que elegerão o próximo presidente. Quem optar por não votar pagará uma multa muito pequena, entre R$ 1,05 a R$ 3,51 por turno. Caso não regularizar a sua situação perante a Justiça Eleitoral, a pessoa pode ter um grande incômodo, como ser impedida de tirar passaporte.

Tenho 76 anos, 50 na lida de repórter, 40 deles trabalhando em redação de jornal, e atualmente ando pelo Brasil procurando boas histórias para escrever. Dito isso, acrescento que aprendi que as articulações para a escolha do presidente da República que será eleito em 2030 começarão no segundo seguinte ao anúncio do vencedor do pleito deste domingo. Fiz essa lembrança para dizer o seguinte. As informações coletadas pelas pesquisas de opinião de votos em 2026 serão muito valiosas para orientar os candidatos na disputa de 2030, graças aos avanços tecnológicos que foram acrescentados para torná-las mais precisas. Portanto, serão ferramentas importantes para os organizadores das futuras campanhas eleitorais prospectarem eleitores. Vou citar um exemplo usando o caso dos mais de 8 milhões de eleitores acima de 70 anos que não votaram no primeiro turno deste ano. Baseados nos dados das pesquisas, os partidos deveriam ter um plano de convencimento para esse contingente “dos 70 mais”. Nas atuais campanhas eleitorais, toda informação é importante. Há outro fato que gostaria de colocar na conversa. A eleição de 2026 está sendo descrita como uma das mais polarizadas desde a redemocratização do país, em 1989. Não concordo e vou explicar o motivo. A atual polarização política começou na década de 90, entre Lula e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Entre 1994 e 2014, PT e PSDB dominaram a cena política nacional – há muitas informações disponíveis a “um Google”. Em 2018, o então deputado federal Jair Bolsonaro quebrou essa dualidade e se elegeu presidente. Começou ali uma nova polarização, desta vez entre petistas e bolsonaristas, como são chamados os seguidores do ex-presidente. Declarado inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de estado, Bolsonaro indicou o filho mais velho, Flávio, para concorrer à Presidência da República em seu lugar. A polarização política, portanto, há muito tempo faz parte do cenário eleitoral brasileiro. Não vou perder a oportunidade de voltar a tocar em um assunto que abordo sempre que posso. A cobertura da disputa eleitoral de 2026, do ponto de vista do “jornalismo de dados”, está perfeita. Há abundância de boas e relevantes informações estatísticas. Mas falta o olhar do repórter que vai lá no “interiorzão” do Brasil ouvir as populações locais. Simplificando: falta repórter na estrada contando a história dos eleitores dos sertões. Entendo que o perfil das redações mudou devido a vários fatores, entre eles a migração de receitas com anúncios e assinaturas para as plataformas digitais, que são operadas pelos “repórteres multimídia”, profissionais que fazem textos, vídeos, áudios, fotos e ainda editam o material.

Para arrematar a nossa conversa. O que não mudou no jornalismo é que custa caro esclarecer “a verdade dos fatos”, que é fundamental para manter o jornal e os demais noticiários relevantes para o leitor. Claro, as novas tecnologias de comunicação facilitaram a vida do repórter na apuração e diminuíram custos. Seja lá qual for resultado que sairá das urnas no domingo, a imprensa continuará sendo o principal esteio da democracia brasileira.

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