Não é uma frase, é um sintoma. Ao dizer ao podcast do Jornal de Glorinha que “na minha casa petista não entra” e que não quer convivência com “gente do lado esquerdo da coisa”, o vereador Alemão Schmidt não está apenas expressando uma preferência política. Está demarcando território moral. Está dizendo, em essência, que há pessoas que podem e outras que não podem atravessar a soleira da sua humanidade.
O problema é que o mundo real não funciona assim.
O feijão que Alemão come, alguma mão de esquerda ajudou a plantar, colher, ensacar. O papel que limpa a boca também. O asfalto que sustenta o carro, a luz que acende a casa, o remédio que cura a dor, em algum ponto da cadeia, passou por alguém que ele descartaria como indesejável.
Até a arma que ele usa para caçar javalis, em alguma etapa do processo industrial, teve o trabalho de alguém que talvez ele preferisse não “deixar entrar”.
E, como lembrou na postagem um internauta com precisão incômoda: a bolsa de sangue — que tomara não precise — não vem com etiqueta ideológica. O sangue, não é de esquerda nem de direita, apesar de vermelho.
O que há, portanto, é uma contradição elementar: a vida em sociedade exige convivência com a diferença. Negá-la não é força. É simplificação grosseira da realidade.
Mas há algo mais grave do que a contradição: há o flerte com a desumanização.
O United States Holocaust Memorial Museum documenta como regimes autoritários historicamente recorreram à marcação simbólica de grupos para segregá-los. O chamado ‘distintivo judaico’ — ou ‘distintivo nazista’, imposto de forma sistemática pelos nazistas entre 1939 e 1945, não era apenas um pedaço de tecido: era um instrumento de estigmatização, controle e exclusão social. Um passo decisivo no processo que culminaria na deportação e no extermínio.
Guardadas, evidentemente, todas as proporções históricas — e elas são imensas —, o mecanismo simbólico guarda semelhança inquietante. Quando um agente público declara que não admite sequer a presença de quem pensa diferente, ele cria um “distintivo moral”. Não costurado na roupa, mas colado na identidade: “esses não entram”.
É assim que começa a erosão da civilidade.
O jornalista Reinaldo Azevedo, em artigo recente, descreveu com precisão esse fenômeno ao analisar o bolsonarismo: a “hiper-humanização” dos aliados e a “coisificação” do inimigo. De um lado, o “mito”; de outro, o descartável. De um lado, o humano pleno; do outro, aquilo que pode ser ridicularizado, excluído — ou pior.
A fala de Alemão Schmidt é produto de um ambiente político em que o adversário deixou de ser adversário e passou a ser visto como intruso, ameaça, contaminação.
E isso não é pouca coisa — sobretudo quando parte de um vereador bem votado, investido de representação pública. Porque o mandato não é propriedade privada. Não é “casa” onde se escolhe quem entra. É espaço institucional, onde a regra é exatamente o contrário: conviver com o diferente, representar inclusive quem discorda de você.
É desonestidade intelectual justificar que “não recebeu voto de nenhum petista”. A eleição para legislativos é proporcional. Os eleitos representam 100% dos votos em um município.
Ao transformar divergência em exclusão, o discurso deixa de ser opinião e passa a ser irresponsabilidade.
A democracia não exige que se goste do outro. Exige algo mais difícil: que se reconheça o outro como legítimo. Quando esse reconhecimento se perde, o resto, a violência inclusive, é apenas uma questão de tempo.
Ao fim, posso admirar mais a um javali do que ao caçador de javalis, mas não seria irresponsável ao ponto de colar nele alguma espécie de ‘distintivo nazista’.






