Não é preciso conhecer o mundo desde o fim para afirmar que a entrevista de Cláudio Ávila ao POA 24 Horas faz muita gente em Cachoeirinha e Gravataí revisitar 2011. Afinal, não é qualquer um a dizer que um prefeito “caminha a passos largos para a cassação”.
Ávila é o advogado que assinou o processo que derrubou a prefeita Rita Sanco (PT) e o vice-prefeito Cristiano Kingeski (PT), em Gravataí, e o mesmo que ajudou o ex-prefeito Miki Breier (PSB) a escapar de dois processos de impeachment em Cachoeirinha — ainda que Miki tenha sido cassado depois, mas pela Justiça Eleitoral.
Hoje vereador de segundo mandato em Gravataí, Ávila não comenta o suposto envolvimento nos atuais processos de impedimento em Cachoeirinha — dois contra o prefeito Cristian Wasem (MDB) e um restante contra o vice, João Paulo Martins (PP) —, mas até as macrófitas do Rio Gravataí sabem de sua participação.
E é impossível ignorar o peso de suas palavras.
O ‘encantador de serpentes’ conhece o roteiro, sabe onde ocorrem as rachaduras institucionais e tem incontestável peso uma narrativa sua de que o governo está perdendo sustentação política e pode não concluir o mandato.
O diagnóstico que fez no programa Raio-X, do publicitário Arthur Lencina, é de uma fratura política exposta em Cachoeirinha.
A tríade de desgaste: poder, família e bastidores
Ávila constrói sua análise a partir de três elementos impalpáveis, mas que, para quem vive os corredores da política, podem ser determinantes no colapso de um governo.
Acusa o advogado uma suposta “embriaguez pelo poder”, um distanciamento de Cristian em relação à Câmara e a criação de inimigos desnecessários.
Desvela uma suposta influência exagerada da primeira-dama, Fabi Medeiros, filha do falecido ex-prefeito Francisco Medeiros — um paralelo imediato às críticas que Janja recebe em Brasília, e que remete ao caso de Rita Sanco, cuja filha foi acusada (sem comprovação cível ou criminal) de se beneficiar profissionalmente.
Narra Ávila um suposto poder do assessor especial André Lima — já insinuado pelo comunicador Alexandre Mota, em rede estadual, como “o prefeito de verdade”, influência que viria desde o governo Miki Breier.
O enredo de Ávila permite a comparação com 2011, onde o ex-prefeito Daniel Bordignon (PT) era apontado como influência nos bastidores do governo Rita.
A analogia é evidente: se Rita caiu politicamente porque perdeu condições de governar, Cristian estaria percorrendo a mesma trilha.
– Rita sempre foi uma mulher honesta, mas não tinha mais condições de governar. Foi uma cassação política – lembrou Ávila.
– Cristian se encastelou – disse, ao narrar episódios como demissões em madrugada de CCs ligados a vereadores.
A fronteira entre política e jurídico — e o alerta de Ávila
Mas o ponto que reputo mais sensível da entrevista não está na subjetividade dos bastidores. Está no potencial desdobramento jurídico das atitudes do governo após a abertura dos processos de impeachment.
Ávila revelou que os CCs demitidos em retaliação aos votos pela admissibilidade não receberam suas rescisões. Segundo ele, seria uma forma de pressionar vereadores — o que configuraria tentativa de influenciar o curso do processo político.
A lembrança é imediata: Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar por interferência no curso de processo. A comparação não é de mérito, nem de tipo penal (processos de impeachment não levam a cadeia), mas de lógica: usar o aparelho estatal para influenciar julgamentos tem consequências.
No caso municipal, Ávila sugere que o tema pode gerar ação judicial, imputação de violação ao princípio da impessoalidade e até afastamento cautelar do prefeito.
– Deu calote para influenciar no processo – acusou.
Mesmo sem falar abertamente, Ávila praticamente antecipou que esse tema não veio à tona por acaso — e dificilmente ficará apenas na entrevista.
O cenário institucional: dois impeachment(s) em marcha
Enquanto Ávila desenha o ambiente político, a Câmara segue ritmando o processo institucional.
O vice João Paulo Martins escapou do Impeachment 1.0, já que o relator acolheu sua ilegitimidade passiva: nenhum ato foi praticado por ele enquanto prefeito em exercício. Mas segue no Impeachment 2.0, que trata de atos na interinidade — contrato emergencial de R$ 500 mil e abertura de créditos especiais de R$ 4,8 milhões sem lastro.
Cristian, por sua vez, responde a três denúncias no Impeachment 1.0, incluindo repasse de R$ 2,75 milhões durante as enchentes, uso da comunicação institucional em benefício eleitoral, e suposto superfaturamento na compra de telas interativas (caso que Ávila não deixou de lembrar ter ocasionado “visita policial na casa do prefeito”).
É alvo, ainda, de outras acusações no Impeachment 2.0.
Pelo que o Seguinte: apurou, os dois julgamentos podem ir ao plenário até dezembro.
Se apenas Cristian cair, João Paulo assume a Prefeitura; se os dois forem cassados ainda em 2025, a presidente da Câmara Jussara Caçapava (Avante) assume até eleição suplementar — repetindo o roteiro que derrubou Miki Breier e Maurício Medeiros em 2022.
O cenário é tudo, menos estável.
O ‘prefeito tiktoker’
Ávila também criticou a estratégia de comunicação do prefeito após a absolvição na Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) pela Justiça de Cacheirinha: “Tenta vender a ideia de que foi absolvido, mas são processos diferentes na Justiça Eleitoral e na Câmara”.
Para provocar, comparou Cristian a Rodrigo Manga, prefeito de Sorocaba investigado pela PF por liderar organização criminosa — não no mérito, mas na estética ‘prefeito tiktoker’ que tenta driblar a crise com vídeos leves enquanto o noticiário político é devastador.
Ao fim, essa é uma síntese do olhar de Ávila no Raio-X — e feita por alguém que o conhece desde a adolescência: eu.
Um roteiro que, ao menos na análise de sua narrativa, carrega todos os elementos da fratura política e institucional de 2011 em Gravataí.
O leitor pode ter conclusões diferentes. Reproduzo abaixo a entrevista na íntegra — a polêmica acontece principalmente a partir de pergunta no minuto 40.






