CRISE CLIMÁTICA

Sem avanço do dique, Cachoeirinha teme repetir tragédia de 2024, dizem vereadores

A ameaça do Super El Niño, a possibilidade de novos eventos climáticos extremos e a proximidade de mais um período de chuvas intensas colocaram novamente a prevenção de enchentes no centro do debate político em Cachoeirinha. Na quinta-feira (11), a Frente Parlamentar de Prevenção de Enchentes e Eventos Climáticos reuniu vereadores, integrantes do governo municipal, especialistas e representantes da sociedade civil para discutir ações de proteção da cidade e cobrar avanços em obras consideradas estratégicas.

O encontro ocorreu no Plenário Osvaldo Corrêa da Câmara Municipal e foi marcado por críticas à demora do Governo do Estado em tirar do papel projetos estruturantes, especialmente a ampliação do dique de proteção até o limite com Canoas.

Presidente da Frente Parlamentar, o vereador Tiago Eli (Progressistas) lamentou a ausência do secretário estadual da Reconstrução Gaúcha, Pedro Capeluppi, que havia sido convidado para participar da reunião.

Segundo ele, a preocupação é que obras consideradas fundamentais para a proteção da cidade avancem em ritmo mais lento do que o necessário.

“Temos que começar a fazer. O importante dessa frente é fazermos algo, não podemos ficar para trás em relação aos municípios vizinhos. Vou marcar novamente reunião com o governo do Estado”, afirmou.

Grande parte da discussão girou em torno da necessidade de intervenções de maior porte para evitar que as cenas das enchentes de maio de 2024 se repitam.

O presidente da Câmara de Vereadores, Gilson Stuart (Republicanos), destacou que a população continua cobrando respostas e soluções.

“Sei bem o que é isso, já entrou água na casa da minha mãe. Explico para as pessoas que a Prefeitura está limpando bueiros, fazendo hidrojateamento. Nós, vereadores, não podemos parar de cobrar os governos”, disse.

O secretário-geral da Frente Parlamentar, vereador Flávio Cabral (MDB), ressaltou que o município vem realizando ações de manutenção e prevenção, como limpeza de arroios, hidrojateamento e desassoreamento.

“Como vereadores, temos que criar e cobrar políticas públicas do governo federal, estadual e municipal”, afirmou.

Vice-prefeito critica demora do Estado

O tom mais contundente partiu do vice-prefeito Mano do Parque (PL), que cobrou maior atenção do Governo do Estado para as demandas de Cachoeirinha.

Segundo ele, informações repassadas ao município indicam que o anteprojeto da ampliação do dique poderá levar mais de um ano para ser concluído.

“A informação que temos é que o anteprojeto da continuação do dique só estará pronto daqui 13 meses. Estamos limpando bueiros, desobstruindo a rede, tudo isso vai ajudar, com certeza, mas sem a obra do dique sofreremos por falta de ação do governo do Estado. O dinheiro para fazer as grandes obras está lá”, declarou.

Representando a prefeita Jussara Caçapava (Avante), o secretário-geral de Governo, Samuel Serra, afirmou que o foco da administração municipal é buscar soluções concretas para a prevenção de enchentes.

Ele explicou que, atualmente, Cachoeirinha não conta com recursos estaduais ou federais específicos destinados a obras de contenção porque projetos não haviam sido formalmente apresentados nos últimos anos.

Segundo Serra, diante desse cenário, a Prefeitura decidiu buscar alternativas próprias.

“Foi por isso que o governo municipal tomou atitude e buscou um financiamento de R$ 200 milhões, em que parte dos recursos será investida em obras de contenção das enchentes. Não podemos ficar dependentes apenas do governo estadual e federal”, afirmou.

Município tenta acessar recursos do Funrigs

O secretário municipal de Planejamento e Orçamento, Gustavo Novakoski, detalhou as tratativas para que o município possa acessar recursos do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), criado pelo Governo do Estado para financiar ações de reconstrução e adaptação climática após as enchentes.

Segundo ele, a atual gestão precisou reorganizar processos administrativos e apresentar documentação necessária para habilitar o município a receber recursos.

“Em menos de 15 dias apresentamos o cartão CNPJ do fundo, conta corrente para receber os recursos e definimos servidores responsáveis. Hoje o município tem condições de receber valores e ter um debate técnico qualificado para apresentar soluções para a comunidade”, afirmou.

Novakoski também informou que a Prefeitura está contratando uma empresa especializada para elaborar um anteprojeto que irá diagnosticar as necessidades das casas de bombas e do sistema de diques da cidade.

“A Prefeitura está se mexendo, está trabalhando. Hoje já existe termo de referência, requisição de compras e um processo técnico estruturado. Temos preocupação, estamos em cima e fazendo a coisa rodar”, garantiu.

Além das obras tradicionais de drenagem e contenção, a reunião também apresentou iniciativas voltadas à inovação.

Representando a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade, o professor David Cafruni destacou uma parceria envolvendo o Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH-UFRGS), o Senai, a Cesuca e a empresa FLG.

O projeto prevê o desenvolvimento de um protótipo de bueiro inteligente capaz de evitar entupimentos causados por resíduos e facilitar a limpeza da estrutura.

O engenheiro e professor da UFRGS, Gino Gehling, apresentou detalhes da proposta aos participantes.

Outro anúncio feito durante a reunião foi o reforço na estrutura da Defesa Civil Municipal. O secretário de Defesa Civil e Resiliência Climática, Alexandre Braz, informou que foram criados dez cargos de agentes operacionais concursados para fortalecer o quadro técnico do órgão.

A expectativa é melhorar a capacidade de resposta em situações de emergência e ampliar o monitoramento preventivo em períodos de maior risco climático.

Ao final do encontro, vereadores reforçaram a necessidade de acelerar investimentos e manter a mobilização em torno das medidas de prevenção.

Dois anos após a maior tragédia climática da história recente do Rio Grande do Sul, o sentimento predominante entre autoridades e moradores ainda é de urgência.

Enquanto a Prefeitura destaca ações de limpeza, manutenção e busca por recursos, lideranças políticas cobram que as obras estruturantes avancem antes que novos eventos extremos coloquem novamente a cidade à prova.

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