O MDB gaúcho saiu unido do congresso estadual de sábado. Mas essa unidade não tem viagem marcada para Gravataí. Ao contrário: a pré-candidatura de Gabriel Souza ao Governo do Estado tende a produzir aqui um fenômeno político: apoios iguais em palanques diferentes.
É o que se desenha quando se olha para os atores locais.
De um lado, o casal Alba — Patrícia, deputada estadual e pré-candidata a federal; Marco, ex-prefeito e pré-candidato a estadual — celebrou o ato em Porto Alegre como se o MDB “voltasse para casa”. Fizeram foto, post, flame emojis e promessas de “Vamos juntos para 2026”.
De outro, o prefeito Luiz Zaffalon (PSD) e o deputado Dimas Costa (PSD) — o ‘embaixador de Eduardo Leite em Gravataí’ — observam de longe e silenciosos. Mas ambos devem seguir Leite, colega de PSD, que no sábado tirou qualquer dúvida ao declarar que Gabriel é o candidato da base governista.
É possível que o eleitorado de Gravataí veja Marco Alba e Zaffa de novo apoiando o mesmo candidato ao Palácio Piratini — em 2022, apoiaram Onyx Lorenzoni (PL), abrindo dissidência no MDB. O que é quase impossível é vê-los no mesmo palanque, na mesma foto, na mesma sala — para não dizer no mesmo churrasco.
Aquela que em 2024 nominei III Guerra Política de Gravataí (a I, Abílio x Oliveiras; a II, Bordignon x Stasinski) resta ainda uma Guerra Fria, após a reeleição do prefeito.
A coluna anterior que escrevi sobre o assunto já apontava esse prognóstico: acho difícil, ao menos em 2025, testemunhar estreitamento de inimizades num mesmo palanque em Gravataí; leia em As viagens de Gabriel: candidatura ao Piratini pode colocar Zaffa e Marco Alba no mesmo palanque em Gravataí? Acho difícil.
Difícil? Hoje eu diria: improvável.
O vice-governador sabe disso. E sabe que, quando começar sua turnê pelo Estado, terá de tratar Gravataí como quem visita pais separados.
Uma vinda para o palanque dos Alba; outra para o palanque de Zaffa e Dimas.
Marco e Patrícia estão alinhados ao MDB, claro, mas também atentos ao que pode acontecer em 2026. Se Eduardo Leite concorrer ao Senado ou à Presidência, ele precisará deixar o governo em abril.
E, nesse cenário, a influência dos Alba aumenta — Gabriel é correligionário, amigo pessoal em uma relação reatada, frequentou a mesa de jantar do casal, como mostrei no artigo de dezembro, Vice-governador Gabriel Souza jantou na casa de Marco e Patríca Alba, em Gravataí.
Zaffa e Dimas, por outro lado, são PSD — aliados, sim, mas não em posição de comando num eventual governo Gabriel sem Leite.
Para completar o cenário, Dimas, que é suplente, e o candidato de Zaffa é Assembleia Legislativa (leia mais em: “Assino embaixo”: Zaffa confirma Dimas como aposta máxima do governo para 2026; assista), deixa o mandato em abril, para concorrer à reeleição.
Dali até a eleição, por exemplo, se Gabriel visitar Gravataí como governador, a cidade terá apenas uma deputada a recebê-lo, institucionalmente: Patrícia Alba.
Dá para simplificar ainda mais a equação: no governo Gabriel sem Leite, o MDB manda mais que o PSD. Logo, os Alba mandam mais que Zaffa e Dimas.
E todos sabem disso.
Inclusive dos potenciais reflexos que isso pode ter na eleição pela Prefeitura em 2028.
A Real Politik de alfaiates e ferreiros
Rosane de Oliveira, em GZH, descreveu bem o clima do Congresso do MDB: unidade, abraços, reconciliações improváveis, méritos de Gabriel na costura.
Sebastião Melo, prefeito de Porto Alegre, também tinha apoiado Onyx em 22.
Mas os discursos sobre “superar rótulos” e “fazer um movimento que una” têm tradução específica quando descem a RS-118: unir no RS; coexistir em Gravataí.
Sabedor de que não há como arbitrar as brigas locais, Gabriel precisará ser hábil para ao menos manter com ele duas máquinas políticas, duas estruturas, dois mundos que não convivem na aldeia.
E coexistir, aqui, significa manter distância regulatória — aquela em que ninguém pode ser confundido com aliado do outro.
Marco Alba não sobe no palco do Zaffa.
Zaffa não sobe no palco do Marco.
Quando sentaram à mesma mesa, frente a Leite e Gabriel, não se cumprimentaram nem com o olhar; leia mais em Leite assina ordem de início para escola de R$ 37 milhões em Gravataí; No Palácio, o primeiro reencontro de Zaffa e Marco Alba.
Já Dimas transita com Leite, mas não com Marco.
E Patrícia vota com Leite, mas faz campanha com Marco.
Ao fim, no último artigo em que projetei esse cenário que deve ser um Dos Grandes Lances dos Piores Momentos da eleição de 26 em Gravataí, recomendei aos mais realistas que o rei — seja coroado ou posto — trecho de “Pragmatismo”, do Millôr.
“Todo mundo fala, hoje, em pragmatismo, que o pragmatismo é fundamental à manutenção da estabilidade nacional, etc. Mas pragmatismo mesmo, era o da cidadezinha de Tropolitar, em Ruanda, onde, tendo um ferreiro cometido um crime hediondo, a Justiça local, depois de um processo rumoroso, enforcou um alfaiate. A cidade tinha dois alfaiates e só um ferreiro”.
É a Real Politik. Ferreiros e alfaiates há em toda aldeia.






