Ganhou placa e discursos. A ordem de início foi assinada, fotografada, celebrada e transformada em ato político no gabinete do então prefeito Cristian Wasem (MDB), com direito a autoridades federais, falas épicas e a promessa de que Cachoeirinha, enfim, enterraria uma de suas feridas urbanas mais antigas: o Arroio Passinhos.
A obra, porém, nunca começou.
Agora, sob o governo da prefeita interina Jussara Caçapava (Avante), a narrativa oficial muda de tom — e de endereço.
Em nota ao Seguinte:, a Prefeitura afirma que a obra não saiu do papel porque faltava uma autorização ambiental obrigatória do Governo do Estado, condição sem a qual qualquer execução seria ilegal.
Na prática, o governo Jussara classifica como “formal, sem validade prática” a ordem de início assinada pela gestão anterior — tratando como fake news administrativa a ideia de que a obra estivesse liberada para começar. Um factóide pré-impeachment.
Segundo a explicação oficial, o entrave estava na ausência de autorização do Departamento de Recursos Hídricos (DRH), vinculada à Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema). Sem esse documento, não havia respaldo legal para iniciar qualquer intervenção no arroio.
Nesta segunda-feira, o secretário municipal de Planejamento e Orçamento, Gustavo Novakoski, esteve em Porto Alegre em reunião com a Sema para tratar das pendências herdadas.
– Sem a autorização do DRH, a obra não poderia iniciar. Agora a parte técnica foi resolvida e pedimos prioridade na análise para que a licença seja liberada o quanto antes – afirmou Novakoski, após a reunião articulada pelo deputado estadual Dimas Costa (PSD), ‘embaixador’ do governador Eduardo Leite (PSD) em Gravataí e que, no governo Jussara, busca exercer o mesmo papel para Cachoeirinha.
De acordo com a Prefeitura, toda a documentação foi corrigida e reapresentada, e a sinalização do Governo do Estado foi positiva. A expectativa é que a autorização seja concedida nos próximos dias, permitindo finalmente o início das obras.
A obra que ainda não existe — mas segue prometida
A explicação do governo interino joga luz sobre um contraste incômodo: em 9 de dezembro de 2025, Cristian Wasem assinou a chamada “ordem de início” da revitalização do Arroio Passinhos em um evento amplamente divulgado, apresentado como marco histórico após duas décadas de espera da comunidade.
Na ocasião, discursaram representantes do governo federal, deputados, secretários e lideranças políticas; leia mais em ‘Oração a São PT’ ganha fiéis: a manhã que aproximou Cristian de quem pode salvar seu mandato em Cachoeirinha.
Falou-se em dignidade, reconstrução, superação da enchente de 2024 e transformação urbana. O investimento anunciado somava R$ 20 milhões, sendo R$ 17,7 milhões do Governo Federal e R$ 2,3 milhões de contrapartida do município.
O que não se disse — ou não se esclareceu — é que faltava a licença ambiental essencial para que qualquer máquina pudesse entrar em operação.
À luz da nota do governo atual, o ato de dezembro foi mais encenação política do que liberação administrativa.
Segundo o governo Jussara, o projeto permanece o mesmo: recuperação de 880 metros do Arroio Passinhos, novo asfalto na Avenida Telmo Silveira Dorneles, no bairro Jardim Atlântico, investimento total de R$ 20 milhões e conclusão prevista para maio de 2027.
A diferença é que, agora, o discurso vem acompanhado do reconhecimento explícito de que a obra nunca esteve legalmente apta a iniciar, apesar do anúncio público feito pela gestão cassada.
O Seguinte: procurou o prefeito cassado Cristian Wasem para comentar a explicação apresentada pela atual administração e esclarecer se tinha conhecimento da ausência de licença ambiental no momento da assinatura da ordem de início.
Até o fechamento desta reportagem, não houve resposta.
Ao fim, a obra do Arroio Passinhos, que em dezembro virou púlpito político, hoje retorna ao chão duro da burocracia ambiental. O que antes foi tratado como “início histórico” passa a ser descrito como ato sem eficácia jurídica.
Se a autorização estadual sair, aí sim as máquinas finalmente poderão substituir os discursos.






