A manhã parecia litúrgica no gabinete de Cristian Wasem (MDB). E não apenas pela assinatura da ordem de início da revitalização do Arroio Passinhos, obra de R$ 19 milhões do governo federal, somados a R$ 2,3 milhões de contrapartida da Prefeitura. O que se viu foi uma celebração ecumênica da política, onde adversários recentes, antes em trincheiras opostas, hoje comungam a mesma prece: a da “democracia”.
E, em Cachoeirinha, como já escrevi, Cristian é um homem de fé. Sua narrativa da crise ao Seguinte:, como “batalha espiritual”, não foi mero recurso retórico. Só que, nas últimas semanas, a súplica ganhou endereço político: a Oração a São PT — como batizei.
Agora, parece operar um milagre.
PT — de adversário a fiador da sobrevivência do governo
Estavam todos lá: o ex-ministro e atual deputado federal Paulo Pimenta (PT), o secretário nacional de reconstrução Maneco Hassen (PT), a deputada estadual Laura Sito (PT), o ex-candidato a prefeito David Almansa (PT), o vereador Gustavo Almansa (PT) e duas das três presidentes escolhidas para comandar o partido em Cachoeirinha, Paula Almansa e Dani Rosa.
A única ausência foi a de Leo da Costa (PT), cuja principal bandeira — a preservação do Mato do Júlio — recebeu, mesmo sem ele, uma garantia pública.
O secretário de Planejamento, Paulo Garcia, com anuência de Cristian, afirmou solenemente: “Não canalizaremos o Arroio no Mato do Júlio. É inegociável”.
Há tempos não se via uma cena tão improvável: petistas e emedebistas celebrando obra, defendendo o mesmo discurso e, sobretudo, oferecendo as peças para desmontar o gatilho da cassação.

Dois impeachments, 50 testemunhas e janeiro no horizonte
A reaproximação ocorre quando Cristian enfrenta, politicamente, potencial extrema unção. Os dois impeachments, 1.0 e 2.0, caminham paralelamente após decisões judiciais que reconheceram a correção nos ritos — nestes processos, tão importante quando as denúncias ou os votos.
Prazos correm e oitivas começaram, com mais de 50 testemunhas sendo ouvidas e previsão de julgamento em janeiro de 2026.
Cristian e João Paulo precisam de seis votos para escapar. O PT tem dois. É matemática simples: dois votos que valem uma Prefeitura inteira.
Como escrevi semanas atrás, “a oração tem endereço”.
O milagre político em construção
David Almansa — que até um ano atrás estava em campanha para derrotar Cristian — já tinha dito ao Seguinte: que impeachment, agora, é “o caminho ruim” e que o Decreto-Lei 201/67, a mãe dos impeachments municipais, é uma “arma da ditadura usada como arma política”.
“Cidade de faroeste”, descreveu.
Repetiu na solenidade desta terça: “Não faço política com revanchismo”.
E, ao lado dele, Pimenta e Maneco — dois dos homens mais fortes do governo Lula no pós-enchente — ouviram Cristian elogiá-los nominalmente, citar Lula (“nosso presidente”, segundo Garcia) e reforçar a parceria que salvou centenas de famílias após a enchente de 2024.
A estimativa do próprio governo federal é de que cerca de R$ 60 milhões foram destinados ao município no pós-enchente — de auxílios emergenciais à compra assistida de casas.
Igrejas têm suas indulgências; na política, chamam-se investimentos.


Os contrastes da missa política: quem estava e quem surpreendeu
A solenidade juntou vereadores que votaram contra o impeachment — Claudine Silveira (PP), Uilson Droppa (Podemos), Cleo do Onze (MDB) e Edson Cordeiro (Republicanos) — com dois que votaram a favor da abertura dos processos: Gustavo Almansa e, para surpresa geral, Flávio Cabral (MDB).
Se a presença significa mudança de voto? A política tem seus símbolos, apesar de nunca garantir certezas. Ninguém é santo.
Fato é que dois votos do PT selam o milagre. E, se Cabral também optar por salvar Cristian da crucificação política, a matemática vira oração respondida com apenas um dos petistas.
Arroio, Lula, PT e MDB — ingredientes do improvável
A assinatura da ordem de início de obra virou púlpito perfeito para exibir um novo arranjo político que parecia impossível em novembro: MDB e PT dividindo foto, discurso e estratégia.
Almansa — adversário de ontem — virou ponte.
Pimenta — pré-candidato ao Senado — virou fiador.
Cristian — antes isolado — virou parceiro.
Não se deixou de lembrar o “golpe” contra a presidente Dilma Rousseff (PT) — e, na vizinha Gravataí, contra a prefeita Rita Sanco (PT) e o vice Cristiano Kingeski (PT) —, além dos planos golpistas de Jair Bolsonaro.
A assinatura da obra de quase 1 km do Arroio Passinhos foi celebrada como “marco histórico”. Mas pode acabar entrando para a história política de Cachoeirinha como o dia em que o impeachment começou a ruir.
Não há como dissociar uma cena da outra: Cristian agradecendo Lula, Garcia chamando o presidente de “nosso” e Almansa e Pimenta defendendo “democracia”. O PT inteiro — menos Leo — ocupando o gabinete.
É mais do que obra: é gesto. Mais do que parceria: é sinal.
E sinal, em política, é profecia.



E se o milagre se confirmar?
Falta o julgamento. Falta janeiro. Falta a tal votação com 12 dos 17 votos — ou com os 6 que salvam prefeito e vice.
Mas, pela primeira vez desde o início da crise, é inegável que resta uma manhã em que para Cristian e Delegado é possível acreditar que, sim, o milagre é possível.
Não pelos céus — mas pelos votos.
Como concluí na análise da Oração a São PT: é uma prece aos homens.
Ao fim, ironicamente, Dos Grandes Lances dos Piores Momentos, o PT pode ser a tábua de salvação de Cristian.
Se isso não for milagre, não sei o que é.
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