RAFAEL MARTINELLI

O Mercado Livre é de Gravataí: Seis anos depois, maior comércio online da América Latina confirma centro logístico; as ‘Malvinas’ de Zaffa

O Mercado Livre é de Gravataí.

Se, há seis anos, a desistência do investimento foi tratada como a perda de “uma Ford”, nesta sexta-feira (17) a história ganhou um desfecho oposto no governo Luiz Zaffalon (PSD). Gravataí finalmente recebe a sua ‘Ford da Logística’ — o novo centro de distribuição da maior plataforma de comércio eletrônico da América Latina.

Poucos investimentos privados carregam tamanho peso simbólico. Em 2020, a saída da empresa representou mais do que a perda de um centro de distribuição. Foi o retrato de um Rio Grande do Sul que ainda parecia especializado em transformar burocracia em repelente de investimentos. A expressão “burrocracia”, repetida à época pelo então prefeito Marco Alba, sintetizou um sentimento compartilhado pelo setor produtivo.

Naquele momento, Alba elevou o tom contra o governador Eduardo Leite. O rompimento político extrapolou o episódio do Mercado Livre e se tornou um dos fatores que contribuíram para a dissidência histórica do MDB gaúcho na eleição de 2022, quando o ex-prefeito decidiu apoiar Onyx Lorenzoni ao governo do Estado, e não a chapa liderada por Leite, que tinha Gabriel Souza, do próprio MDB, como candidato a vice-governador.

A analogia com a Ford nunca foi mero exagero retórico. Quando a montadora deixou o Rio Grande do Sul rumo à Bahia, no fim dos anos 1990, o Estado ao menos já comemorava a chegada da General Motors a Gravataí, consolidando uma nova cadeia automotiva. No caso do Mercado Livre, era diferente.

Tratava-se de perder o investimento que simbolizava o ‘novo normal’ da economia: centros de distribuição, comércio eletrônico, inteligência artificial, logística integrada e entregas cada vez mais rápidas. Era deixar escapar um setor inteiro que se consolidaria justamente nos anos seguintes.

Foi por isso que, em julho de 2023, durante as novas tratativas entre o governo do Estado e a empresa, quando a operação era direcionada para Sapucaia do Sul, o prefeito Luiz Zaffalon fez um pedido público ao governador, um dia antes de Eduardo Leite embarcar para a Argentina, país de origem do Mercado Livre, para renegociar investimentos no RS: que Gravataí fosse recolocada na mesa de negociação.

O apelo tinha lógica. A cidade já possuía histórico de diálogo com a empresa, localização estratégica, infraestrutura e uma vocação logística construída ao longo das últimas décadas.

Três anos depois, o resultado veio. Com uma operação ainda maior em Gravataí.

Há, naturalmente, mérito dos governos federal e estadual ao revisar o ambiente tributário que inviabilizava a operação em 2020. Mas também há mérito da persistência do município, que não abandonou a pauta.

A chegada do Mercado Livre também representa uma vitória num ‘clássico regional’ dos municípios.

Nos últimos meses, Cachoeirinha apresentou seu ambicioso Parque Logístico de R$ 1 bilhão, com expectativa de atrair gigantes como Amazon, Shopee e o próprio Mercado Livre. O discurso era transformar a cidade em novo polo logístico da Região Metropolitana.

Gravataí respondeu antes. Se recentemente Cachoeirinha comemorava a perspectiva de ter “a sua GM”, com comparou a presidente do CIC, Neuza Bilhar, agora Gravataí confirma justamente uma das empresas que figuravam entre os principais alvos do mercado.

A Copa de Zaffa

No gabinete do prefeito, a entrega da licença de operação teve peso político.

O documento foi entregue por Zaffa ao diretor sênior de Fulfillment da empresa, Luiz Augusto Vergueiro, e à gerente Andrea Vieira Laurino.

A unidade funcionará em um galpão de 38,7 mil metros quadrados, localizado na Rodovia Mário Quintana (ERS-118), nº 10.250, no bairro Monte Claro. Embora a empresa não divulgue o valor do investimento, a operação deverá gerar 720 empregos diretos.

– A confirmação do Mercado Livre em Gravataí demonstra que o município reúne infraestrutura, localização estratégica e um ambiente favorável para grandes investimentos. É uma conquista construída com muito trabalho e diálogo, que se traduz em mais oportunidades de emprego, renda e desenvolvimento para a nossa cidade – disse o prefeito.

O empreendimento utilizará o modelo Full, no qual toda a armazenagem, separação, expedição e distribuição ficam sob responsabilidade do próprio Mercado Livre.

A operação empregará tecnologia de automação, robótica e inteligência artificial para planejamento logístico, gestão de estoques e otimização das entregas.

Além da geração de empregos, a expectativa é fortalecer a cadeia logística regional e ampliar a atração de novos empreendimentos para Gravataí.

A confirmação do investimento também representa um marco da segunda etapa do programa Invest Gravataí, estratégia municipal voltada à atração de empresas.

Segundo o secretário da Fazenda, Planejamento e Orçamento, Laone Pinedo, o município reúne equilíbrio fiscal, legislação atualizada, investimentos em infraestrutura e um ambiente regulatório voltado à facilitação de novos negócios.

O secretário de Desenvolvimento Urbano, Bruno Palaver, destaca que a localização estratégica da cidade, próxima aos principais eixos rodoviários do Estado e ao Aeroporto Internacional Salgado Filho, consolida Gravataí como um dos principais polos logísticos do Rio Grande do Sul.

Ao fim, se em 2020 o Rio Grande do Sul assistiu ao ‘delivery’ de um investimento para outro Estado, em 2026 Gravataí transforma aquela frustração em símbolo de retomada.

A cidade que já abriga um dos maiores complexos industriais do Estado passa agora a reforçar outro protagonismo: o de grande hub logístico do comércio eletrônico gaúcho.

Se a General Motors marcou uma geração da indústria, o Mercado Livre representa a economia do presente — e, sobretudo, a do futuro.

Assim como jogadores argentinos ergueram sua bandeira na Copa do Mundo ao fazer referência às Malvinas no jogo contra a Inglaterra, simbolicamente Zaffa levantou a bandeira de Gravataí ao ganhar a guerra pela gigante argentina e mundial: “o Mercado Livre é de Gravataí”.

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