A abertura de dez novos leitos de UTI no Hospital Universitário (HU) de Canoas, anunciada na terça-feira (7), no Dia Mundial da Saúde, é um símbolo do esforço para tirar o próprio hospital da UTI.
Depois de meses em que o HU esteve no centro de uma crise que envolveu risco de interdição em áreas críticas, pressão institucional e exposição pública de fragilidades, a entrega da reforma da UTI 1 traz alento.
Com a reforma completa do espaço — do ambiente à aparelhagem — o hospital passa a contar com 85 leitos de UTI, sendo dez deles recém-entregues para atendimento de alta complexidade.
Na prática, isso significa ampliar a capacidade de resposta em um dos pontos mais sensíveis do sistema de saúde: a terapia intensiva, onde decisões são urgentes e o tempo é determinante.
Mas, no caso do HU, o impacto vai além dos números. O hospital não é uma unidade qualquer. É referência para mais de 150 municípios e atende uma parcela significativa da população gaúcha, especialmente aquela que depende exclusivamente do SUS.
Recentemente, esteve sob risco de restrição de serviços em áreas como UTI neonatal e obstetrícia, em um cenário que expôs problemas de escala médica, estrutura e gestão.
A reação institucional veio em várias frentes: recomposição de equipes, criação de comissões de acompanhamento, articulação com o governo federal, entrada em programas para destravar cirurgias e promessa de reequipamento da estrutura.
A ampliação da UTI se encaixa exatamente nesse movimento: não é um ponto isolado, mas parte de uma estratégia de reconstrução.
O discurso da virada
O prefeito Airton Souza tratou a entrega como parte de um novo momento do hospital.
– Não vamos parar por aqui. Virão mais equipamentos, recursos e soluções – afirmou, destacando ainda a captação de mais de R$ 200 milhões para a saúde e a integração a programas federais.
O Agora Tem Especialistas, por exemplo, poderá ser ampliado com o acréscimo dos novos leitos.
A secretária de Saúde, Ana Boll, disse que há demanda e os leitos respondem a ela:
– É uma instituição que tem um potencial gigantesco. Uma entrega de dez leitos de UTI é uma grande conquista.
Na gestão hospitalar, o tom é pragmático. A superintendente da Associação Saúde em Movimento, Tatiani Pacheco, resume o efeito dominó:
– Para realizar procedimentos de alta complexidade, precisamos ter espaço na UTI. Estes dez leitos vão possibilitar que centenas de procedimentos aconteçam.
Ou seja: abrir UTI não é só abrir UTI. É destravar o hospital inteiro.
O diretor técnico Fernando Farias lembra um ponto que costuma passar batido no debate público:
– Para abrir leitos, precisamos de muito mais que camas. Precisamos de equipes multidisciplinares.
É o detalhe que separa anúncio de entrega real. UTI não funciona sem médico, enfermeiro, técnico, fisioterapeuta. Sem escala, não há leito, há apenas espaço vazio.
O símbolo
No papel, são dez leitos. Na prática, é um símbolo: o HU não vai fechar, não vai reduzir, não vai encolher. Vai tentar sair da UTI.
Depois de um período em que se discutia interdição, suspensão de atendimentos e risco de desassistência — inclusive em áreas sensíveis como neonatal e obstetrícia —, a entrega aponta para o caminho oposto: ampliar, reorganizar, retomar.
Se vai dar certo, é outra discussão. Mas, neste momento, o símbolo importa. Porque, para um hospital que sustenta boa parte da saúde da região metropolitana, ficar de pé não é apenas uma meta administrativa. É uma necessidade coletiva.
LEIA TAMBÉM
Justiça barra interdição absurda e garante funcionamento do HU de Canoas; a ‘loteria dos bebês’






