A política raramente devolve o que tira. Às vezes, tenta compensar com o que lhe resta: a palavra, o gesto, o registro. Foi isso que a Câmara de Gravataí produziu na noite de segunda-feira — um ato longo no nome, contido na forma e profundo no significado. A “Sessão especial de reconhecimento institucional e histórico” foi, na prática, a consumação de algo que já vinha sendo escrito fora do plenário: o reconhecimento do golpeachment.
Chamei assim quando o Ministério Público e o Judiciário começaram a desmontar, peça por peça, as acusações que sustentaram a cassação de 2011. Não era só uma provocação semântica. Era a tentativa de dar nome a um fenômeno político clássico: um impeachment formalmente legal, materialmente esvaziado.
Quinze anos depois, o que a Câmara fez não foi anular — porque não pode — nem devolver mandatos — porque não há como. Fez o que estava ao alcance: lavou a honra. E foi esse o tom da noite.
Rita Sanco (PT) e Cristiano Kingeski (PT) não subiram à tribuna para cobrar. Subiram para encerrar. Falaram em golpe, sim. Falaram em democracia restaurada. Mas evitaram o revanchismo, evitaram a lista de culpados, evitaram — até — invocar diretamente aquilo que, nos bastidores, se convencionou chamar de ‘maldição de Rita’.
A expressão, que relatei em reportagem, nunca foi sobre misticismo. É sobre memória política. Sobre como uma cidade tenta dar sentido a um trauma. Ao longo dos anos, personagens centrais daquele processo desapareceram da vida pública, das urnas — alguns, da própria vida. Coincidência? Possivelmente. Mas, na política, percepções também governam narrativas.
Na segunda-feira, ninguém quis alimentar fantasmas. O esforço foi outro: encerrar o ciclo.
“Hoje esta casa fez as pazes com a democracia”, disse Rita. E talvez essa seja a síntese mais honesta do que aconteceu. Porque não foi uma sessão de vitória. Foi uma sessão de reparação “aos 68 mil votos”, como lembrou Kingeski, sobre a maior votação de uma chapa em eleição na história da aldeia.
As lágrimas disseram isso melhor que qualquer discurso.
Rita, sempre circunspecta, não segurou quando o presidente da Câmara, Dilamar Soares, o Dila (Podemos), lembrou que o pai dela morreu sem ver aquele reconhecimento.
A política, que tantas vezes constrange no privado, apareceu ali em sua forma mais crua: a memória de um homem numa fila de banco, ouvindo suspeitas sobre a própria filha — suspeitas que a Justiça, anos depois, diria não existir.
Kingeski também cedeu. Travou a voz ao falar dos filhos. Quinze anos não passam impunes. Mesmo quando passam.
E houve um momento que sintetiza o caráter coletivo — e contraditório — daquela noite: quando Airton Leal (MDB) chorou.
Airton, à época no PT, foi um dos quatro vereadores que votaram contra o impeachment. Um voto minoritário numa Câmara reduzida a 14 cadeiras, onde dez decidiram pela cassação. A política tem dessas ironias: o que foi minoria no passado vira, no futuro, espécie de reserva moral.
Alex Peixe (PSDB) também trouxe o passado ao presente ao transmitir a mensagem do pai Carlinhos Medeiros, ex-vereador petista e outro voto contrário ao impeachment, hoje em longa convalescença após um acidente. A história não se conta só com documentos. Conta-se com ausências.
Hiago Pacheco (PP), amigo pessoal de Kingeski, falou do sofrimento do vice cassado. Vitalina Gonçalves (PT), única vereadora petista na atual legislatura, fez o registro político necessário: saudou Dila por conduzir um processo improvável.
E aqui está um dos pontos centrais desta história.
Dila não ganhou nada com isso — ao menos, nada mensurável em voto. Seu partido é adversário do PT em todas as escalas. Apoia nomes como Flávio Bolsonaro e Luciano Zucco. O gesto não dialoga com sua base tradicional. Pelo contrário, tensiona. E tensionou.
O episódio mais revelador talvez não tenha ocorrido no plenário, mas nas redes. O perfil do próprio partido de Dila publicou — ou melhor, deixou escapar — um comentário de deboche em vídeo da sessão publicado pelo Seguinte:: “É cada ideia desse vereador kkk o senhor vai ser presidente do PT em Gravataí? Está se cercando só dessa gente”.
A política contemporânea tem dessas cenas involuntárias: o bastidor vazando pelo erro banal de não trocar o perfil. Até agora, o responsável não foi identificado a Dila nem pelo presidente municipal da sigla, o vice-prefeito Dr. Levi Melo.


O episódio diz mais do que parece. Mostra o custo interno da decisão. E reforça o que já era evidente: houve coragem política.
Coragem que também apareceu em outro gesto improvável: Cláudio Ávila (Avante), advogado que apresentou o pedido de impeachment em 2011 e hoje vereador, enviou mensagem de saudação a Kingeski. Não compareceu à sessão, mas registrou posição.
A lista de vereadores que subscreveram o decreto — Airton Leal, Alex Peixe, Anna Beatriz da Silva (PSD), Beto Bacamarte (MDB), Bombeiro Batista (Republicanos), Claudecir Lemes (MDB), Clebes Mendes (PSDB), Dilamar Soares (Podemos), Fábio Ávila (Republicanos), Guarda Moisés (Republicanos), Hiago Pacheco, Márcia Becker (PSDB), Paulinho da Farmácia (Podemos), Roger Corrêa (PP) e Vitalina Gonçalves (PT) — já havia sinalizado, na reportagem, que havia uma maioria política disposta a revisitar o episódio. A sessão mostrou que havia algo além: disposição para assumir o constrangimento histórico.
Nem todos concordam e uma ausência sentida foi do ex-prefeito e ‘Grande Eleitor’ de Rita em 2008, Daniel Bordignon. Há, inclusive dentro do PT, quem veja a reparação como uma forma de perdão indevido. Como se aceitar o gesto fosse aliviar a gravidade do que ocorreu.
Rita e Kingeski não parecem ver assim. Para eles, foi um lava honra. E talvez seja isso que a política consegue oferecer quando falha no tempo certo: um reconhecimento tardio, imperfeito, simbólico, mas ainda assim necessário.
O impeachment de 2011 continuará existindo. Não foi apagado. Não foi anulado. Mas, a partir de agora, convive oficialmente com outro registro: o de que suas bases ruíram. É uma convivência incômoda. Mas é a única possível.
Se isso encerra a chamada ‘maldição de Rita’, é cedo para dizer. A política não opera com ritos de encerramento tão claros. Mas, na noite de segunda-feira, Gravataí fez algo raro: olhou para trás sem fingir que não viu. E chorou.
Na prática, nada muda.
Na história, muda tudo.
Assista ao vídeo produzido pela SEGUINTE TV na sessão de segunda-feira






