RAFAEL MARTINELLI

Laura Sito, o neto do ditador e o alerta de Gilead: o problema nunca foi o voto das mulheres

Quando o influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, neto do ditador João, afirmou que “mulher vota muito mal”, especialmente as solteiras, e sugeriu que mulheres casadas tendem a acompanhar o voto dos maridos, não produziu apenas mais um daqueles Grandes Lances dos Piores Momentos das redes antissociais. Trouxe à superfície uma concepção política antiga, mas que voltou a circular com desenvoltura em setores da extrema direita internacional: a de que a autonomia política feminina constitui um problema quando produz resultados eleitorais indesejados.

Nesse aspecto, a deputada estadual gaúcha Laura Sito (PT) fez ao Seguinte: uma observação que merece reflexão para além das disputas partidárias. Ao responder que “sempre que o resultado das urnas desagrada, a culpa recai sobre as mulheres”, ela identifica um mecanismo recorrente da retórica política contemporânea. Não se discute por que determinado projeto perdeu apoio feminino. Questiona-se a capacidade das mulheres de fazer escolhas políticas.

Há uma diferença enorme entre as duas coisas.

Laura também lembra um dado frequentemente ignorado: as mulheres representam hoje cerca de 53% do eleitorado brasileiro, mais de 82 milhões de eleitoras, mas continuam ocupando menos de 20% dos cargos eletivos. Na Câmara dos Deputados, elas são apenas 91 entre 513 parlamentares. No Senado, somente 15 das 81 cadeiras pertencem a mulheres.

Ou seja, as mulheres são maioria quando votam, mas permanecem minoria quando exercem o poder.

Esse contraste desmonta parte do argumento segundo o qual haveria uma espécie de “hegemonia feminina” sobre os rumos da política brasileira. Na prática, ocorre justamente o contrário. O voto é majoritariamente feminino. O poder continua majoritariamente masculino.

A fala redpill do netinho escroque tampouco surgiu no vazio. Ela dialoga com um movimento crescente observado principalmente nos Estados Unidos.

Nos últimos anos, influenciadores ligados à extrema direita, como Nick Fuentes, passaram a defender explicitamente o fim do voto feminino. Pastores como Doug Wilson defendem o chamado “voto familiar”, exercido pelo marido em nome da família. Dale Partridge afirma que mulheres votariam de maneira excessivamente emocional.

Não são exatamente as mesmas pessoas. São, entretanto, manifestações de um mesmo lado da ferradura ideológica. O lado extremo, um precipício da democracia.

A jornalista Eliara Santana chamou atenção para essa conexão ao reunir declarações de Donald Trump, Eduardo Bolsonaro, Jair Bolsonaro, Silas Malafaia e outras lideranças conservadoras que, em momentos distintos, recorreram à inferiorização da mulher ou à ideia de que sua participação política precisaria ser tutelada.

Os episódios não são idênticos. Mas compartilham um pressuposto semelhante: quando mulheres deixam de ocupar o papel esperado e passam a agir politicamente com autonomia, tornam-se alvo preferencial do ataque.

Curiosamente, Michelle Bolsonaro, uma liderança construída justamente dentro do campo conservador, experimentou esse fenômeno. Enquanto cumpria o papel esperado, era exaltada. Quando entrou em conflito com parte do núcleo bolsonarista, tornou-se alvo de ataques que extrapolaram completamente a divergência política.

Como observou o jornalista Reinaldo Azevedo, o problema deixou de ser Michelle enquanto personagem política. Passou a ser Michelle enquanto mulher que ousou contrariar uma estrutura de poder predominantemente masculina.

Durante décadas, opositores do sufrágio feminino sustentavam que mulheres eram emocionais demais para votar. As histéricas (classificação a se cortar do vocabulário). Hoje quase ninguém ousa defender publicamente o fim desse direito. A estratégia mudou. Em vez de dizer que mulheres não deveriam votar, afirma-se que elas votam “mal”.

A conclusão sugerida permanece perigosamente próxima. Se determinado grupo sempre faz escolhas erradas, por que sua influência política deveria ser preservada? É exatamente por isso que a frase atribuída à filósofa francesa Simone de Beauvoir continua atravessando gerações: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.”

Independentemente do debate sobre a formulação exata da citação, sua advertência permanece atual. Direitos nunca são completamente irreversíveis. Eles dependem de permanente vigilância democrática.

Gilead começa pela linguagem

Existe uma razão pela qual O Conto da Aia, de Margaret Atwood, voltou a ocupar posição central no debate político mundial.

Na República fictícia de Gilead, ninguém acorda em uma manhã e descobre que todos os direitos desapareceram simultaneamente. O processo acontece por etapas. Primeiro, restringem-se espaços de participação. Depois, questiona-se a legitimidade de determinados grupos. Em seguida, normaliza-se a ideia de que algumas pessoas nasceram para decidir e outras para obedecer. Por fim, a desigualdade torna-se política de Estado.

Naturalmente, o Brasil está muito distante daquela distopia. Mas distopias não servem para prever literalmente o futuro. Servem para iluminar tendências presentes. Margaret Atwood jamais escreveu um manual de previsão. Escreveu um alerta sobre como sociedades podem naturalizar pequenos retrocessos até que eles deixem de parecer retrocessos.

É justamente aí que reside o perigo de discursos que desqualificam o voto feminino. Eles não retiram direitos imediatamente. Primeiro procuram enfraquecer sua legitimidade.

E a democracia não admite cidadãos de segunda categoria.

Há um aspecto especialmente revelador na fala de Laura Sito quando afirma que “o problema nunca foi o voto das mulheres. O problema é uma política que ainda resiste à presença feminina nos espaços de poder”.

A frase desloca o debate. Em vez de perguntar por que mulheres votam diferente, talvez a pergunta correta seja outra: Por que determinados projetos políticos enfrentam tanta dificuldade para convencer a maioria do eleitorado feminino?

Democracias maduras não classificam cidadãos entre aqueles que votam “bem” e aqueles que votam “mal”. A essência da democracia consiste justamente em reconhecer igual dignidade política a todos. Quando alguém começa a estabelecer quais segmentos da população produzem votos legítimos e quais produzem votos inconvenientes, deixa de discutir estratégia eleitoral. Passa a discutir quem merece participar plenamente da democracia. Essa sempre foi uma fronteira perigosa.

A História demonstra que nenhum direito costuma desaparecer de uma única vez. Primeiro ele é ridicularizado. Depois relativizado. Por fim, questionado. Talvez seja exatamente por isso que debates como este importem tanto. Não apenas para as mulheres. Mas para qualquer sociedade que pretenda continuar chamando a si mesma de democrática.

Ao fim, na denúncia de diatribes como as cometidas pelo neto do ditador, todo mundo tem lugar de fala. Nem que tenhamos que subir uma montanha para dizer identificar esses homens que tanto odeiam as mulheres.

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