Não é apenas uma corrida. E certamente não é apenas um pódio. O neurocirurgião e ultramaratonista Thiago Torres de Ávila escreveu um capítulo inédito para o esporte de Gravataí no último fim de semana ao conquistar o 2º lugar geral na prova de 100 milhas (167 quilômetros) da Ultra Caminhos de Caravaggio 2026.
Foram 26 horas ininterruptas de prova. Uma jornada que começou ao meio-dia de sexta-feira (13) e terminou apenas na tarde de sábado (14), atravessando trilhas, montanhas e o próprio limite físico e mental.
A Ultra Caminhos de Caravaggio, que liga os municípios de Canela e Farroupilha, é considerada uma das provas mais exigentes do país. Não apenas pela distância — 100 milhas —, mas pela altimetria severa e pelas condições que colocam o atleta em confronto direto com o desgaste extremo.
A organização do evento define a prova como uma jornada que exige respeito ao caminho e às comunidades locais — uma síntese do que é o trail running em sua essência: não apenas competir, mas atravessar territórios, lidar com o imprevisível e administrar o próprio corpo ao longo de horas — às vezes, dias.
Em 2026, cerca de 600 atletas participaram da competição, entre brasileiros e estrangeiros. Poucos chegam. Menos ainda sobem ao pódio.
Para Thiago, o resultado consolida um início de temporada consistente. Em janeiro, ele já havia alcançado o 2º lugar em sua categoria nos 84 quilômetros da Travessia Torres Tramandaí, uma das provas mais tradicionais do calendário gaúcho.
Agora, o salto é ainda maior. Não apenas pela distância, mas pelo peso simbólico do resultado.
A UMCC é certificada por entidades internacionais como a International Trail Running Association e conta pontos para o índice do Ultra-Trail du Mont-Blanc, considerado o principal circuito mundial de corridas de montanha.
Na prática, isso significa que o desempenho em território gaúcho pode abrir portas para as maiores provas do planeta. Gravataí, de repente, passa a dialogar com os Alpes.
A rotina de Thiago, que concilia a medicina — em uma área de alta complexidade como a neurocirurgia — com treinos de longa distância, ajuda a explicar o resultado. Ultramaratonas não se vencem apenas com condicionamento físico. Exigem disciplina, planejamento e controle emocional. Elementos que, curiosamente, também definem o ambiente de um centro cirúrgico.
O feito ganha ainda mais relevância por seu caráter local. Em um cenário onde o esporte de alto rendimento muitas vezes se concentra em grandes centros, o pódio de um atleta gravataiense em uma prova de padrão internacional projeta o município para além de suas fronteiras.
O médico de Gravataí decidiu seguir por 167 quilômetros até transformar esforço em história.






